{"id":22060,"date":"2026-08-09T08:13:02","date_gmt":"2026-08-09T11:13:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=22060"},"modified":"2026-08-09T08:14:58","modified_gmt":"2026-08-09T11:14:58","slug":"o-aroma-do-cafe-e-a-presenca-de-meu-pai-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-aroma-do-cafe-e-a-presenca-de-meu-pai-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O AROMA DO CAF\u00c9 E A PRESEN\u00c7A DE MEU PAI (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>para meus filhos, netos e bisneto<\/strong><\/p>\n<p>Parei para escrever e pedi um caf\u00e9. Foi o que bastou. O tema brotou do aroma e me levou a uma arqueologia sentimental: meu pai e o caf\u00e9. Foi s\u00f3 o cheiro esfuma\u00e7ar para que, como quem escava camadas de tempo com as m\u00e3os, eu reencontrasse uma cena antiga, quase dom\u00e9stica demais para ter sido esquecida, e justamente por isso mais dur\u00e1vel: ele era o primeiro a acordar, o primeiro a circular pela casa, o primeiro a acender o fog\u00e3o e a preparar o caf\u00e9 da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Meu pai tinha com o amanhecer uma intimidade que hoje me parece um tipo de voca\u00e7\u00e3o. Enquanto a casa ainda dormia, ele j\u00e1 estava de p\u00e9, em sil\u00eancio, como se soubesse que havia uma ordem m\u00ednima a ser restabelecida antes que o dia come\u00e7asse de fato. A cozinha era ent\u00e3o o seu pequeno reino provis\u00f3rio. O barulho da \u00e1gua, o p\u00f3 caindo no coador, o cheiro se espalhando pouco a pouco pelos c\u00f4modos: tudo isso compunha uma cerim\u00f4nia sem solenidade. O caf\u00e9 era o seu modo de dizer bom dia antes mesmo das palavras.<\/p>\n<p>Lembro-me de que o caf\u00e9 feito por ele parecia ter mais sabor. Tinha cuidado. Havia um gesto exato no modo como segurava a chaleira, uma paci\u00eancia quase artesanal no tempo de coar, uma aten\u00e7\u00e3o discreta que transformava a repeti\u00e7\u00e3o em afeto. N\u00e3o era apenas preparar a bebida; era cuidar da casa acordando-a aos poucos, como se a manh\u00e3 fosse uma crian\u00e7a a ser despertada sem susto. E talvez fosse mesmo. A fam\u00edlia come\u00e7ava o dia dentro dessa pequena liturgia, e o pai, no centro dela, parecia menos um chefe e mais um guardi\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/JC-e-seu-pai-reduzida.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22062\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/JC-e-seu-pai-reduzida-450x338.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/JC-e-seu-pai-reduzida-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/JC-e-seu-pai-reduzida-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/JC-e-seu-pai-reduzida-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/JC-e-seu-pai-reduzida.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m o caf\u00e9 sem a\u00e7\u00facar, que ele tomava com a naturalidade de quem n\u00e3o precisava ado\u00e7ar o mundo para suport\u00e1-lo. Eu, que \u00e0s vezes estranhava esse gosto severo, hoje o vejo como uma esp\u00e9cie de li\u00e7\u00e3o que teimo em n\u00e3o aprender. O caf\u00e9 dele n\u00e3o era enfeitado, nem precisava ser. Bastava o aroma forte, o calor na x\u00edcara, a pausa entre um gole e outro. Era um caf\u00e9 que dizia muito sem precisar de explica\u00e7\u00e3o. E havia ali, escondida na simplicidade, uma ternura desarmada.<\/p>\n<p>Talvez seja por isso que a lembran\u00e7a tenha vindo inteira quando parei para beber aquele primeiro gole. O cheiro me devolveu n\u00e3o apenas meu pai, mas o modo como ele organizava a vida sem parecer faz\u00ea-lo: acordando antes de todos, oferecendo a x\u00edcara como quem oferece presen\u00e7a, criando pela repeti\u00e7\u00e3o uma esp\u00e9cie de abrigo. Nem sempre os pais sabem que deixam heran\u00e7a. \u00c0s vezes ela n\u00e3o est\u00e1 em discursos, conselhos ou grandes cenas. Est\u00e1 nesse gesto m\u00ednimo de acordar cedo para que os outros encontrem a casa pronta para viver.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Coando-cafe-01-jpeg.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22063\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Coando-cafe-01-jpeg-300x450.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Coando-cafe-01-jpeg-300x450.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Coando-cafe-01-jpeg-200x300.jpg 200w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Coando-cafe-01-jpeg.jpg 568w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Dei conta agora que, quando tomo caf\u00e9, sorvo a lembran\u00e7a daquele ser caminhando pela cozinha ainda escura, no vapor subindo da x\u00edcara, na fam\u00edlia despertando devagar ao redor de um gesto que parecia pequeno, mas era inteiro. Penso que meu pai talvez tenha sido isso: o primeiro aroma do dia, a primeira presen\u00e7a, a primeira forma de cuidado. E descubro, com alguma do\u00e7ura, que certas lembran\u00e7as n\u00e3o passam. Elas continuam coando dentro de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>para meus filhos, netos e bisneto Parei para escrever e pedi um caf\u00e9. Foi o que bastou. 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