{"id":22016,"date":"2026-06-28T09:05:37","date_gmt":"2026-06-28T12:05:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=22016"},"modified":"2026-06-28T09:05:37","modified_gmt":"2026-06-28T12:05:37","slug":"infidelidade-como-metodo-um-historiador-na-torcida-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/infidelidade-como-metodo-um-historiador-na-torcida-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"INFIDELIDADE COMO M\u00c9TODO: um historiador na torcida (JC Sebe Bom Meihy"},"content":{"rendered":"<p>Confesso, sem pudor: sou prom\u00edscuo quando o assunto \u00e9 futebol. Sou fiel ao Brasil, sim, mas tenho uma janela aberta para amores passageiros. N\u00e3o \u00e9 trai\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 pesquisa de campo. Assumo minha culpa com orgulho: tor\u00e7o pelo Brasil desde que aprendi a falar \u201cgol\u201d. Ainda assim, quando Cabo Verde come\u00e7a a compor aquele hino das ilhas, meu corpo reage como se tivesse ouvido meu pr\u00f3prio hino. A sele\u00e7\u00e3o de Cabo Verde traz uma sensa\u00e7\u00e3o de \u201cf\u00e9rias com drible\u201d \u2014 nostalgia em formato de passe. A Costa do Marfim, por sua vez, tem aquele futebol que lembra tambores: ritmo, for\u00e7a e um certo charme que faz qualquer zagueiro se perder. E n\u00e3o esque\u00e7amos Gana, Nig\u00e9ria e Senegal \u2014 cada uma com sua bateria hist\u00f3rica: velocidade, cora\u00e7\u00e3o e um senso de humor t\u00e1tico que transforma contra-ataques em samba-enredo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m a \u00c1sia que me seduz. O Ir\u00e3, por raz\u00f5es que ultrapassam o campo, merece aplausos pela obstina\u00e7\u00e3o: desafios pol\u00edticos, san\u00e7\u00f5es e um p\u00fablico que canta com a garganta presa, como quem aprende a respirar de novo. A Coreia do Sul, sempre disciplinada; o Jap\u00e3o, com sua precis\u00e3o cir\u00fargica; o Catar que decidiu investir pesado \u2014 \u00e0s vezes o investimento vira pe\u00e7a de teatro, outras, futebol de gala. Apoiar esses pa\u00edses \u00e9 um jeito de dizer: admiro a luta, respeito a t\u00e9cnica e aprecio a luta pela globaliza\u00e7\u00e3o esportiva.<\/p>\n<p>Tenho, confesso, uma pol\u00edtica afetiva de nances: pa\u00edses africanos e asi\u00e1ticos recebem minha simpatia m\u00e1xima; competidores da Am\u00e9rica do Sul ganham bem menos benevol\u00eancia. Explico: com irm\u00e3os continentais, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 complicada \u2014 h\u00e1 rivalidade hist\u00f3rica, mem\u00f3rias de jogos injustos e aquele ci\u00fame fraterno. Torcer contra a Argentina ou o Uruguai traz um prazer culpado, quase t\u00e3o saboroso quanto pisar numa casca de banana. J\u00e1 torcer contra sele\u00e7\u00f5es de ex-pot\u00eancias colonizadoras \u00e9 uma del\u00edcia sem culpa: ver a Fran\u00e7a, a Inglaterra, Portugal ou a Espanha perder \u00e9 um pequeno orgasmo moral. A alegria que vem da queda do colonizador tem cheiro de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ambiguidade na minha alma torcedora. Em campo pol\u00edtico e simb\u00f3lico, eu me coloco ao lado dos que sofreram agress\u00f5es hist\u00f3ricas; emocionalmente, no entanto, meu cora\u00e7\u00e3o faz escala em portos vizinhos. Por exemplo: posso vibrar quando Senegal vence, mas hesitar quando o Chile enfrenta o Brasil \u2014 \u00e9 uma mistura de solidariedade global e ci\u00fame regional. Essa duplicidade me define: sou um cosmopolita com sotaque local. Se isso \u00e9 indecis\u00e3o, prefiro chamar de sofisticada diplomacia do sof\u00e1.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 apenas est\u00e9tica: h\u00e1 prazer pedag\u00f3gico em torcer por sele\u00e7\u00f5es pouco lembradas. Toda vez que um nome novo aparece nas manchetes \u2014 seja um ponta da Ar\u00e1bia Saudita com chute de raio ou um volante da Arg\u00e9lia que lembra poesia \u2014 eu ganho cultura pop sem sair do sof\u00e1. Aprendo sobre hist\u00f3ria de coloniza\u00e7\u00e3o, migra\u00e7\u00f5es, l\u00ednguas e culin\u00e1rias; sei que o prato que minha vizinha comeu vai ter ingredientes que eu n\u00e3o consigo pronunciar, mas ao menos posso aplaudir o futebol que trouxe a receita \u00e0 tona.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Selecao-Ira-jpeg.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22018\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Selecao-Ira-jpeg-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Selecao-Ira-jpeg-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Selecao-Ira-jpeg-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Selecao-Ira-jpeg-768x511.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Selecao-Ira-jpeg.jpg 984w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A sele\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 transforma um chute em coment\u00e1rio hist\u00f3rico<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 fica, para mim, em uma catransformando um chute em coment\u00e1rio hist\u00f3ricotegoria \u00e0 parte: ela carrega um simbolismo que transcende as quatro linhas. Quando o Ir\u00e3 marca um gol, eu vejo, comicamente, um mapa geopol\u00edtico recortado por uma bola. N\u00e3o \u00e9 exagero: \u00e9 apenas a minha cabe\u00e7a acad\u00eamica transformando um chute em coment\u00e1rio hist\u00f3rico. E se algu\u00e9m me chama de sentimental, respondo que a emo\u00e7\u00e3o \u00e9 pesquisa aplicada.<\/p>\n<p>No fundo, torcer por pa\u00edses colonizados e desejar trope\u00e7os dos colonizadores \u00e9 um esporte intelectual que combina \u00e9tica e est\u00e9tica. H\u00e1 um prazer est\u00e9tico em ver estilos alternativos brilharem e um prazer \u00e9tico em imaginar pequenas repara\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas \u2014 os gols como extratos de justi\u00e7a po\u00e9tica. Ainda assim, n\u00e3o sou santo: se o Brasil est\u00e1 em campo, h\u00e1 uma probabilidade elevada de eu gritar \u201cgol\u201d sem pensar. \u00c9 que a rela\u00e7\u00e3o com o Brasil \u00e9 mais cozinha que diplomacia; \u00e9 feijoada: cheia de camadas, calorias e perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Imagino uma final inusitada: Brasil contra Senegal, ou Ir\u00e3 versus Fran\u00e7a. A expectativa me deixa euf\u00f3rico; a ambiguidade, <em>entretenida<\/em>. No fim, independente do placar, a arquibancada \u00e9 um mercado de afetos: troco de camiseta, provo simpatias, distribuo ironias. E se uma na\u00e7\u00e3o pequena vence uma pot\u00eancia antiga, eu levanto a ta\u00e7a metaf\u00f3rica e brindo com orgulho (e uma piscadela para o Brasil).<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9, talvez, a melhor parte: ser solid\u00e1rio com os africanos e asi\u00e1ticos, cauteloso com os vizinhos americanos, e sempre, invariavelmente, brasileiro no momento do apito final. \u00c9 um servi\u00e7o p\u00fablico de torcida: um voto de simpatia global com prefer\u00eancia regional \u2014 e um senso de humor que nunca perde o jogo de vista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confesso, sem pudor: sou prom\u00edscuo quando o assunto \u00e9 futebol. Sou fiel ao Brasil, sim, mas tenho uma janela aberta para amores passageiros. 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