{"id":21980,"date":"2026-06-07T08:33:40","date_gmt":"2026-06-07T11:33:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21980"},"modified":"2026-06-07T08:33:40","modified_gmt":"2026-06-07T11:33:40","slug":"nossas-estacoes-europeias-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/nossas-estacoes-europeias-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"NOSSAS ESTA\u00c7\u00d5ES EUROPEIAS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Sempre nos orgulhamos de dizer que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds sem extremos. Aqui n\u00e3o h\u00e1 furac\u00f5es cinematogr\u00e1ficos, nem nevascas que soterram autom\u00f3veis, nem outonos dourados dignos de cart\u00e3o-postal su\u00ed\u00e7o. Somos um povo equilibrado, t\u00e9rmico, tropicalmente moderado: At\u00e9 que chove demais; ou seca demais; ou venta demais; ou faz um calor que transforma as cal\u00e7adas em chapa de pastel. Mas, fora esses pequenos \u201cdemais\u201d, vivemos num para\u00edso clim\u00e1tico est\u00e1vel. Pelo menos \u00e9 o que repetimos com patriotismo meteorol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Ainda assim, celebramos as esta\u00e7\u00f5es como se mor\u00e1ssemos em Viena. Basta o calend\u00e1rio anunciar setembro para algu\u00e9m declarar solenemente: \u201cChegou a primavera.\u201d Chegou? Talvez. Em algum ponto abstrato da atmosfera. Porque, na pr\u00e1tica, a primavera brasileira pode come\u00e7ar com 38 graus \u00e0 sombra e um temporal que alaga tr\u00eas bairros. Mas n\u00e3o importa. \u00c9 primavera. Est\u00e1 decidido. O marketing j\u00e1 confirmou: as casas de moda vibram, lan\u00e7am a \u201ccole\u00e7\u00e3o primavera-ver\u00e3o\u201d, express\u00e3o que sempre me intrigou. Se a primavera j\u00e1 parece ver\u00e3o, o que exatamente diferencia uma da outra? Talvez a quantidade de flores estampadas.<\/p>\n<p>As vitrines explodem em cores. Manequins sorridentes vestem tecidos leves, esvoa\u00e7antes, como se estivessem prestes a caminhar por campos de lavanda inexistentes. Aqui, no entanto, o campo mais pr\u00f3ximo costuma ser o de futebol do bairro, e olhe l\u00e1. H\u00e1 tamb\u00e9m os perfumes sazonais. Primavera pede fragr\u00e2ncia floral. Como se nosso cotidiano precisasse de refor\u00e7o bot\u00e2nico. O calor j\u00e1 faz a natureza exalar intensamente; ainda assim, borrifamos sobre n\u00f3s uma promessa engarrafada de jardim europeu.<\/p>\n<p>O inverno, por sua vez, \u00e9 outro espet\u00e1culo de imagina\u00e7\u00e3o coletiva. Uma frente fria derruba a temperatura para 17 graus e imediatamente surgem cachec\u00f3is, botas e postagens dram\u00e1ticas: \u201cQue frio!\u201d As lojas aproveitam e exibem casacos que parecem projetados para atravessar os Alpes. Usamos l\u00e3 sob o sol t\u00edmido das nove da \u00a0manh\u00e3, apenas para carreg\u00e1-la no bra\u00e7o \u00e0s duas da tarde, quando o term\u00f4metro decide voltar \u00e0 normalidade tropical. Mas \u00e9 inverno. Precisamos honr\u00e1-lo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vitrines.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21982\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vitrines-450x338.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vitrines-450x338.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vitrines-300x225.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vitrines-768x576.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vitrines.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Vitrines anunciam cada esta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Somos mestres em viver simbolicamente as esta\u00e7\u00f5es. Na primavera, falamos em renascimento. Fazemos planos, organizamos arm\u00e1rios, prometemos florescer. Como se agosto tivesse sido uma esp\u00e9cie de hiberna\u00e7\u00e3o n\u00f3rdica. N\u00e3o foi. Apenas sobrevivemos a varia\u00e7\u00f5es de umidade. No outono, esse personagem quase figurante em nosso calend\u00e1rio, fingimos perceber folhas caindo. \u00c0s vezes h\u00e1, sim, uma ou outra \u00e1rvore colaborativa. Mas a maior parte do drama outonal acontece no Instagram.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que, apesar de proclamarmos aus\u00eancia de extremos, convivemos com exageros sazonais bastante expressivos. A seca que racha o solo, a chuva que desce com voca\u00e7\u00e3o b\u00edblica, o vento que vira guarda-chuva do avesso. Mas nada disso abala nossa convic\u00e7\u00e3o: somos climaticamente equilibrados.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Enchente-em-Porto-Alegre.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21983\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Enchente-em-Porto-Alegre-450x304.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"304\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Enchente-em-Porto-Alegre-450x304.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Enchente-em-Porto-Alegre-300x203.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Enchente-em-Porto-Alegre-768x518.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Enchente-em-Porto-Alegre-1536x1037.jpg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Enchente-em-Porto-Alegre.jpg 1548w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Enchente em Porto Alegre<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Talvez o que celebramos n\u00e3o seja a meteorologia, mas a ideia de ciclo. Precisamos acreditar que algo muda, que o tempo se organiza em cap\u00edtulos claros. Primavera soa otimista. Ver\u00e3o \u00e9 promessa. Inverno sugere introspec\u00e7\u00e3o. Outono, maturidade. \u00c9 quase literatura aplicada ao clima. E as marcas sabem disso. Vendem n\u00e3o apenas roupas, mas esta\u00e7\u00f5es emocionais. A \u201cnova cole\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9, no fundo, uma tentativa de sincronizar guarda-roupa e esperan\u00e7a. Quando algu\u00e9m anuncia: \u201cAmo a primavera\u201d, raramente est\u00e1 falando de temperatura m\u00e9dia. Est\u00e1 falando de luz, de possibilidade, de flores simb\u00f3licas. Mesmo que o c\u00e9u esteja indeciso entre sol abrasador e tempestade tropical.<\/p>\n<p>No Brasil, a primavera n\u00e3o chega com tulipas disciplinadas nem com p\u00e1ssaros migrat\u00f3rios organizados. Chega com promo\u00e7\u00f5es, vitrines coloridas e um desejo coletivo de recome\u00e7o. Se o clima \u00e0s vezes exagera, n\u00f3s exageramos junto: nas estampas, nos perfumes, nas expectativas. Celebramos as esta\u00e7\u00f5es como quem participa de uma pe\u00e7a europeia encenada em cen\u00e1rio tropical. No fim das contas, pouco importa se o inverno dura tr\u00eas dias ou se a primavera come\u00e7a com temporal. O importante \u00e9 declarar, com entusiasmo: \u201cMudou a esta\u00e7\u00e3o.\u201d Nem que seja s\u00f3 no guarda-roupa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre nos orgulhamos de dizer que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds sem extremos. Aqui n\u00e3o h\u00e1 furac\u00f5es cinematogr\u00e1ficos, nem nevascas que soterram autom\u00f3veis, nem outonos &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21981,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21980","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21980"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21980\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21984,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21980\/revisions\/21984"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21981"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}