{"id":21951,"date":"2026-05-15T17:41:05","date_gmt":"2026-05-15T20:41:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21951"},"modified":"2026-05-15T17:59:56","modified_gmt":"2026-05-15T20:59:56","slug":"lobato-e-a-floresta-que-os-criticos-nao-veem-uma-treplica-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/lobato-e-a-floresta-que-os-criticos-nao-veem-uma-treplica-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Lobato e a floresta que os cr\u00edticos n\u00e3o veem: uma treplica (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>TR\u00c9PLICA AOS PROFESSORES DA UNITAU (UNIVERSIDADE DE TAUBAT\u00c9) THAIS TRAVASSOS E MATHEUS GABRIEL FREIRE QUE DISCORDAM DE MESTRE SEBE NOS QUESITOS RACISMO E EUGENISMO PRESENTES EM OBRAS DE MONTEIRO LOBATO<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sa\u00fado a oportunidade deste texto como uma tr\u00e9plica necess\u00e1ria e \u00fatil ao debate sobre uma quest\u00e3o que transcende a obra de Monteiro Lobato. Celebro aqui um di\u00e1logo instru\u00eddo, afeito \u00e0 literatura, mas que extravasa para um dos problemas mais agudos de nossa realidade: o racismo e, nele, os trajetos hist\u00f3ricos que nos conduziram ao momento presente. Em resposta ao meu texto &#8220;<strong>Nem Monumento, nem R\u00e9u<\/strong>&#8220;, publicado no caderno <strong>Ilustr\u00edssima<\/strong> da Folha no dia 19 de abril \u00faltimo, dois autores, Thais Travassos e Matheus Gabriel Freire, retra\u00e7aram fragmentos dos quais destaco alguns para alimentar uma argumenta\u00e7\u00e3o que deve continuar. Aspectos laterais foram deixados de lado em favor de explica\u00e7\u00f5es mais abrangentes.<\/p>\n<p>Afirmar que a obra de Monteiro Lobato \u00e9 racista constitui premissa j\u00e1 estabelecida no debate cr\u00edtico contempor\u00e2neo. O desafio que se imp\u00f5e, portanto, n\u00e3o \u00e9 demonstrar tal condi\u00e7\u00e3o, mas qualific\u00e1-la com o rigor conceitual que o tema exige. Esse esfor\u00e7o anal\u00edtico pressup\u00f5e, antes de tudo, o reconhecimento de que vivemos sob o que se convencionou denominar &#8220;racismo estrutural&#8221; \u2014 categoria que designa n\u00e3o um conjunto de atitudes individuais, mas uma ordena\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e sist\u00eamica da vida social, cuja viol\u00eancia se exerce tanto pela for\u00e7a quanto pela produ\u00e7\u00e3o cultural e simb\u00f3lica<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Texto-Ynitau.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21955\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Texto-Ynitau-450x92.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"92\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Texto-Ynitau-450x92.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Texto-Ynitau-300x61.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Texto-Ynitau-768x157.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Texto-Ynitau.jpg 1225w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a>.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o entre preconceito, racismo e eugenia \u00e9, nesse contexto, opera\u00e7\u00e3o intelectual indispens\u00e1vel. O preconceito constitui uma atitude individual, um julgamento negativo e infundado dirigido a pessoas ou grupos com base em caracter\u00edsticas arbitr\u00e1rias. O racismo ultrapassa em muito essa dimens\u00e3o subjetiva: trata-se de uma articula\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e estrutural de hierarquiza\u00e7\u00e3o de grupos humanos fundada em caracter\u00edsticas fenot\u00edpicas, cuja efic\u00e1cia depende do poder social e institucional de impor e reproduzir essa hierarquia. A eugenia, por sua vez, representa a radicaliza\u00e7\u00e3o program\u00e1tica desse processo, a transposi\u00e7\u00e3o da hierarquia racial para um projeto pol\u00edtico-cient\u00edfico de controle da reprodu\u00e7\u00e3o humana, orientado pela supress\u00e3o dos grupos considerados \u201cdegenerados\u201d e pelo incentivo \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o dos tidos como superiores, em geral com expl\u00edcito respaldo estatal.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas conceitos articulam-se, portanto, numa escala crescente de sistematiza\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia: o preconceito \u00e9 comportamental, o racismo \u00e9 estrutural e a eugenia \u00e9 biol\u00f3gica e program\u00e1tica. A imprecis\u00e3o no uso desses termos \u2014 manifesta em formula\u00e7\u00f5es como &#8220;racismo eug\u00eanico&#8221; \u2014 n\u00e3o \u00e9 mero deslize terminol\u00f3gico; \u00e9 sintoma de uma insufici\u00eancia anal\u00edtica que compromete a qualidade do debate. E esse equ\u00edvoco tem hist\u00f3ria que, na sua aus\u00eancia, produz narrativas fracas, ainda que barulhentas, e com voca\u00e7\u00e3o panflet\u00e1ria.<\/p>\n<p>A chamada Gera\u00e7\u00e3o de 1870 representa um momento fundamental nesse processo: \u00e9 quando uma elite intelectual ilustrada se investe, nos termos propostos por Nicolau Sevcenko, de uma &#8220;miss\u00e3o civilizat\u00f3ria&#8221;, assumindo a tarefa de definir o que significa ser culturalmente brasileiro. Sem compreender essa sequ\u00eancia, sem notar que os intelectuais da nascente Rep\u00fablica teceram um programa instrutor de pol\u00edticas de Estado, torna-se imposs\u00edvel avaliar com precis\u00e3o os termos em que se formulou, d\u00e9cadas depois, o problema da identidade nacional. Nesse arco, a obra de Euclides da Cunha, publicada em 1902, constitui um marco amb\u00edguo e revelador: ao proclamar que &#8220;o sertanejo \u00e9, antes de tudo, um forte&#8221;, Euclides tensiona, sem resolver, a contradi\u00e7\u00e3o entre a afirma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro e os pressupostos racialistas herdados do pensamento europeu oitocentista.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente nessa tens\u00e3o que se insere Lobato. O percurso que vai do sertanejo euclidiano ao Jeca Tatu lobatiano \u2014 do &#8220;forte&#8221; ao &#8220;fraco&#8221;, do heroico ao patol\u00f3gico \u2014 n\u00e3o \u00e9 ruptura, mas deslocamento sintom\u00e1tico: ambos os projetos intelectuais respondem, cada um a seu modo, \u00e0s demandas de uma modernidade que se queria construir sobre bases racialmente seletivas. Isolar Lobato desse andamento hist\u00f3rico mais amplo equivale a examinar a \u00e1rvore sem perceber a floresta; \u00e9 reduzir a cr\u00edtica liter\u00e1ria a um exerc\u00edcio de julgamento moral descontextualizado, privando-a da densidade hist\u00f3rica e historiogr\u00e1fica sem a qual qualquer ju\u00edzo permanece incompleto e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, anacr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Anacronismo \u00e9 conceito essencial para qualquer discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre temporalidades. Os comentadores que responderam ao meu texto revelam, infelizmente, certa displic\u00eancia diante dessa categoria. Sem crit\u00e9rios claros, procedem a uma \u201cpresentifica\u00e7\u00e3o\u201d dos efeitos de uma tradi\u00e7\u00e3o cultural discriminat\u00f3ria, isolando Lobato de um caudaloso rio de preconceito no qual ele nadava acompanhado de muitos. Julgar valores de um tempo a partir de outro momento hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 opera\u00e7\u00e3o trivial, nem coisa a ser descartada em debate que se pretenda rigoroso, mais que isso \u00e9 leviandade. Ortega y Gasset, j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, identificava no que chamava de &#8220;homem-massa&#8221; \u00a0sujeitos que, por pregui\u00e7a intelectual, tomam o pr\u00f3prio espa\u00e7o e tempo como medida universal de todas as coisas. N\u00e3o perceber que o tempo pret\u00e9rito constitui e habita o presente n\u00e3o \u00e9 virtude cr\u00edtica: \u00e9, ao contr\u00e1rio, condenar a hist\u00f3ria \u00e0 superficialidade.<\/p>\n<p>H\u00e1, al\u00e9m disso, um equ\u00edvoco factual que precisa ser corrigido com precis\u00e3o. Jamais afirmei que Lobato tinha uma leitura apressada do eugenismo, ali\u00e1s, o argumento \u00e9 exatamente o inverso. Rhaiane das Gra\u00e7as Mendon\u00e7a Leal e Andr\u00e9 Felipe Candido documentam que a correspond\u00eancia entre Arthur Neiva e Lobato se estendeu por 24 anos, de 1918 a 1942, compondo um corpus de 138 cartas, das quais 85 foram escritas pelo pr\u00f3prio Lobato. Some-se a isso a correspond\u00eancia intensa com Renato Kehl, com Roquette-Pinto e com outros protagonistas do movimento eugenista brasileiro, e o que se tem \u00e9 um intelectual profundamente inserido naquele debate \u2014 n\u00e3o um observador distante ou mal-informado.<\/p>\n<p>\u00c9 igualmente imperdo\u00e1vel desconhecer as nuances do eugenismo brasileiro e latino-americano. Nossa composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica \u00e9 marcada pela presen\u00e7a de contingentes que perturbam a radicalidade de que deram prova certos pa\u00edses europeus. H\u00e1 tonalidades, sim, e elas n\u00e3o ado\u00e7am a eugenia radical, mas se distanciam dela e revelam a trama da adapta\u00e7\u00e3o que marcou a inscri\u00e7\u00e3o de grupos n\u00e3o conquistadores no padr\u00e3o dos invasores. \u00c9 a esse imperativo que respondem o sanitarismo e as campanhas de moderniza\u00e7\u00e3o aplicadas no Brasil e, sem d\u00favida, \u00e9 nelas que Lobato se integrou de corpo e alma. O exterm\u00ednio proposto em <strong><em>O Presidente Negro<\/em><\/strong> foi, sim, um erro \u2014 ele mesmo o admitiu, ainda que extravasando seu desapontamento de modo conden\u00e1vel. Mas h\u00e1 algo mais que os estudos biogr\u00e1ficos permitem ver: a coer\u00eancia que Lobato busca ap\u00f3s 1945. Um homem t\u00e3o contradit\u00f3rio \u2014 genialmente contradit\u00f3rio, diga-se \u2014 ao se recolher na Argentina depois da combina\u00e7\u00e3o de sucesso como escritor e fracasso como empres\u00e1rio, Lobato articula dois aspectos: o posicionamento pol\u00edtico sobre o qual se firma depois das elei\u00e7\u00f5es de 1947 e uma revis\u00e3o de suas posi\u00e7\u00f5es sobre o racismo. Que os cr\u00edticos leiam com aten\u00e7\u00e3o &#8220;A Violeta Orgulhosa&#8221; e, em vez de enxergar apenas mais um conto, percebam o rescaldo de um pensador que errou muito.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Akvorada-recortado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21952\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Akvorada-recortado-302x450.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Akvorada-recortado-302x450.jpg 302w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Akvorada-recortado-202x300.jpg 202w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Akvorada-recortado-768x1143.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Akvorada-recortado-1032x1536.jpg 1032w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Akvorada-recortado.jpg 1058w\" sizes=\"auto, (max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/O-Presidente-Negro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21953\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/O-Presidente-Negro-162x450.jpg\" alt=\"\" width=\"162\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/O-Presidente-Negro-162x450.jpg 162w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/O-Presidente-Negro-108x300.jpg 108w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/O-Presidente-Negro.jpg 258w\" sizes=\"auto, (max-width: 162px) 100vw, 162px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Opini\u00e3o do movimento negro na primeira p\u00e1gina do peri\u00f3dico porta-voz daquele movimento<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O reconhecimento do erro \u00e9, por certo, insuficiente, escasso, mas n\u00e3o \u00e9 destitu\u00eddo de sentido, sobretudo quando confrontado com a recep\u00e7\u00e3o que certos segmentos negros da \u00e9poca dispensaram \u00e0 obra lobatiana. Vejamos como o pr\u00f3prio movimento negro acolheu <strong><em>O Presidente Negro<\/em><\/strong>: o jornal <em>Alvorada<\/em>, porta-voz da vanguarda negra em S\u00e3o Paulo, em 1945 \u2014 portanto, dezessete anos ap\u00f3s a primeira edi\u00e7\u00e3o do livro \u2014, saudava calorosamente o texto de Lobato, estampando na primeira p\u00e1gina agradecimento entusiasmado pela dedica\u00e7\u00e3o &#8220;daquele que \u00e9 o apontado por muita gente como o maior escritor contempor\u00e2neo&#8221;. O texto vai muito al\u00e9m: exulta o livro por ter &#8220;se ocupado dos negros e o fez com aquele estilo inconfund\u00edvel e brilhante&#8221; e, n\u00e3o satisfeito, arremata afirmando que o escreveu &#8220;com aquele humor e com aquela liberdade de opini\u00e3o que caracteriza sua obra&#8221;. Essa recep\u00e7\u00e3o n\u00e3o absolve Lobato, mas complica qualquer leitura un\u00edvoca \u2014 e a complica\u00e7\u00e3o \u00e9, aqui, epistemicamente necess\u00e1ria. Falamos do mais importante jornal negro do tempo saudando Lobato exatamente por algo que hoje, panfletariamente, \u00e9 condenado.<\/p>\n<p>A varia\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es que se registra ao longo da obra lobatiana demanda, portanto, explica\u00e7\u00f5es mais sofisticadas do que a simples inconsist\u00eancia ignorante. Demanda estudo, conhecimento, pesquisa. Lobato n\u00e3o se explica sem que se considere a for\u00e7a do contexto que o formou. N\u00e3o era apenas o neto do Visconde de Trememb\u00e9: era tamb\u00e9m o neto de uma mulher comum, amante do nobre poderoso, e essa origem ambivalente marcou profundamente uma trajet\u00f3ria que os leitores de vi\u00e9s monumentalista, para o bem ou para o mal, tendem a apagar. Tampouco se pode ignorar os registros que complicam qualquer redu\u00e7\u00e3o esquem\u00e1tica: &#8220;<strong>Negrinha<\/strong>&#8220;, &#8220;<strong>O Jardineiro Tim\u00f3teo<\/strong>&#8220;, &#8220;<strong>Os Negros<\/strong>&#8220;. Quem foi, afinal, o editor que lutou de forma obstinada para publicar Lima Barreto quando este mal encontrava portas abertas? Quem sustentou Belmonte como negro, num gesto de reconhecimento que ia al\u00e9m do meramente instrumental? Viriato Correia, escritor negro assumido, ao lan\u00e7ar &#8220;<strong>Meu Torr\u00e3o<\/strong>&#8221; em 1945, dedicou o livro a Monteiro Lobato, reconhecendo-o como &#8220;mestre de n\u00f3s todos que escrevemos para crian\u00e7as&#8221;. Se h\u00e1 quem sinta desconforto em sala de aula de literatura, uma sa\u00edda respons\u00e1vel seria respeitar a opini\u00e3o de negros em outros tempos e, em vez de apressar julgamentos sobre pensadores respeit\u00e1veis, cumprir o dever sagrado de pesquisa aplic\u00e1vel a professores s\u00e9rios. E discutir em vez de cancelar \u00e9 o desafio inteligente. D\u00e1 trabalho, mas&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lima-Barreto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21954\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lima-Barreto-450x263.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lima-Barreto-450x263.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lima-Barreto-300x176.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lima-Barreto-768x449.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lima-Barreto.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dedicatoria-a-Lobato-sw-Viriato-Correa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21959\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dedicatoria-a-Lobato-sw-Viriato-Correa-450x184.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"184\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dedicatoria-a-Lobato-sw-Viriato-Correa-450x184.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dedicatoria-a-Lobato-sw-Viriato-Correa-300x123.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Dedicatoria-a-Lobato-sw-Viriato-Correa.jpg 728w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Lobato lutou para publicar os autores negros Lima Barreto e Viriato Correia que lhe dedicou seu livro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Insiste-se, Lobato foi, sim, profundamente contradit\u00f3rio, e o foi em m\u00faltiplas dimens\u00f5es. A ojeriza visceral a Vargas, a cr\u00edtica sistem\u00e1tica ao clero, a misoginia que perpassa certos textos: tudo isso comp\u00f5e um perfil que n\u00e3o se resolve pela afirma\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de que &#8220;era racista&#8221;. Foi, antes, um sujeito intensamente pressionado por circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e por conflitos de classe que seus cr\u00edticos mais apressados raramente examinam com o cuidado necess\u00e1rio. Desprezar o empres\u00e1rio que faliu ao sonhar com a democratiza\u00e7\u00e3o do livro no Brasil, ignorar o intelectual que se atolou em batalhas sobre sa\u00fade p\u00fablica e depois sobre o petr\u00f3leo, para reter apenas o eugenista n\u00e3o \u00e9 rigor anal\u00edtico, \u00e9 amputa\u00e7\u00e3o interpretativa. Reduzir Lobato a racista \u00e9 tamb\u00e9m queimar na fogueira do cancelamento o primeiro best-seller do pa\u00eds, o escritor que ensinou gera\u00e7\u00f5es inteiras \u2014 os chamados &#8220;filhos de Lobato&#8221; \u2014 a pensar, a imaginar e a amar a leitura por meio do S\u00edtio do Picapau Amarelo.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma quest\u00e3o que os cr\u00edticos se esquivam de responder: por que Lobato? Por que n\u00e3o Jos\u00e9 de Alencar, defensor confesso da escravid\u00e3o e autor de cartas p\u00fablicas em defesa do sistema? Por que n\u00e3o Gon\u00e7alves Dias, que teve &#8220;seis negrinhos&#8221; como heran\u00e7a paterna? E que dizer de Xavier Marques, J\u00falio Ribeiro ou Alu\u00edsio Azevedo, lembrando inclusive que Francisco de Paula Brito, o formid\u00e1vel criador da imprensa negra no Brasil, foi detentor de escravos \u2014, todos eles atravessados pelo determinismo racial do naturalismo oitocentista? Por que n\u00e3o Manuel Bandeira, cuja &#8220;negra Irene&#8221; cristaliza numa \u00fanica imagem \u2014 <strong><em>Licen\u00e7a, meu branco!<\/em><\/strong> \u2014 o paternalismo condescendente da elite letrada brasileira? Respostas existem, e merecem ser formuladas com honestidade: Lobato \u00e9 o mais vendido, o mais lido, o autor mais presente no imagin\u00e1rio nacional \u2014 e por isso se torna alvo privilegiado. Nos Estados Unidos, o equivalente estrutural desse debate \u00e9 Mark Twain, cujos <strong><em>Tom Sawyer<\/em><\/strong> e <strong><em>Huckleberry Finn<\/em><\/strong> enfrentam periodicamente os mesmos dilemas entre o valor liter\u00e1rio e os estere\u00f3tipos raciais que os atravessam.<\/p>\n<p>Que fique claro: n\u00e3o advogo protocolo algum de leitura, nem pretendo estabelecer trilhos interpretativos obrigat\u00f3rios. O que defendo \u00e9 a leitura liter\u00e1ria instru\u00edda e discutida e n\u00e3o cerceada por recalques, mas informada pela hist\u00f3ria, pela historiografia e pelo esfor\u00e7o de compreender cada obra em seu tempo sem abrir m\u00e3o de julg\u00e1-la no nosso. Aprendi com Lobato o prazer imenso de sorver hist\u00f3rias \u2014 e aprendi tamb\u00e9m, com ele e apesar dele, a submet\u00ea-las \u00e0 cr\u00edtica. Com isso coloco um ponto provis\u00f3rio neste di\u00e1logo que, espero, prossiga com o vigor e o respeito que o tema exige. E digo mais, sempre gostei de Lobato, sempre, mas tive \u2013 e escrevi sobre isso \u2013 vis\u00f5es diferentes das que detenho depois de mais de sessenta anos debru\u00e7ado sobre a trajet\u00f3ria do \u201cTaubateano rebelde\u201d<\/p>\n<p>Encerro com a li\u00e7\u00e3o mais duradoura de minha carreira de pesquisador e de professor: n\u00e3o ensinamos nada a ningu\u00e9m. O que podemos fazer \u2014 e \u00e9 muito \u2014 \u00e9 exercitar o racioc\u00ednio e, sobretudo, a disposi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica (instru\u00edda). Preocupa-me, por isso, ver pesquisadores recolherem-se a entrelugares convenientes, protegidos por media\u00e7\u00f5es que os eximem do risco do argumento instru\u00eddo. Saiam desses abrigos, aliviem suas culpas. Assumam a responsabilidade intelectual de defender posi\u00e7\u00f5es fundamentadas e n\u00e3o panflet\u00e1rias, quebrem o medo de se expor ao contradit\u00f3rio. Em vez de um paternalismo acad\u00eamico que blinda os estudantes das tens\u00f5es do debate, sejam mediadores que os convidem \u00e0 arena. Deixem-nos falar \u2014 e, sobretudo, deixem-nos exercitar a cr\u00edtica. \u00c9 assim, e n\u00e3o de outro modo, que se formam leitores capazes de entender o passado no presente. Cr\u00edticos e instru\u00eddos. Cr\u00edtico e instru\u00eddos como ensinou Jos\u00e9 Bento Monteiro Lobato com seus erros e acertos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TR\u00c9PLICA AOS PROFESSORES DA UNITAU (UNIVERSIDADE DE TAUBAT\u00c9) THAIS TRAVASSOS E MATHEUS GABRIEL FREIRE QUE DISCORDAM DE MESTRE SEBE NOS QUESITOS RACISMO E EUGENISMO PRESENTES &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21956,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21951","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21951","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21951"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21951\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21960,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21951\/revisions\/21960"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21956"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21951"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21951"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21951"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}