{"id":21947,"date":"2026-05-10T09:06:49","date_gmt":"2026-05-10T12:06:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21947"},"modified":"2026-05-10T09:06:49","modified_gmt":"2026-05-10T12:06:49","slug":"se-eu-fosse-minha-mae-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/se-eu-fosse-minha-mae-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Se Eu Fosse Minha M\u00e3e (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos, assisti ao filme <em>Se Eu Fosse Voc\u00ea<\/em>, uma com\u00e9dia leve em que um casal trocava de corpos por encanto de um terreiro de umbanda. O marido acordava de salto alto, a esposa com a l\u00e2mina da barba; o riso surgia da vingan\u00e7a biol\u00f3gica: ele descobrindo que suti\u00e3 n\u00e3o foi inven\u00e7\u00e3o de algum amigo das mulheres; ela entendendo por que homem passa quinze minutos hipnotizado por uma furadeira sem toc\u00e1-la. Na \u00e9poca, gargalhei sem parar. Gostei tanto que vi a continuidade.<\/p>\n<p>Hoje, aos oitenta e tr\u00eas anos, vi\u00favo, filhos distantes, uma neta e um bisneto na Holanda, imagino uma vers\u00e3o mais cruel e realista dessa trama. Olhando para o espelho imposs\u00edvel, me pergunto: e se eu fosse minha m\u00e3e? Habitar o meu corpo lhe seria penit\u00eancia que nem m\u00e1rtir suporta sem queixa.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e me veria procurando \u00f3culos pela casa inteira com eles pendurados no pesco\u00e7o. Me veria guardando o controle remoto na geladeira e o p\u00e3o no arm\u00e1rio de rem\u00e9dios. Outro dia, indignado por quarenta minutos, acusei algu\u00e9m de esconder minhas chaves, sendo que eu mesmo as segurava. Que ela diria ao descobrir que adormeci num vel\u00f3rio, ou que por duas vezes esqueci as compras no supermercado? Observaria tudo em sil\u00eancio ancestral e perigoso, para depois soltar: &#8220;Esse menino nasceu avoado; n\u00e3o aprende&#8221;. E eu, com oitenta e tr\u00eas anos, encolheria aos oito, de cal\u00e7a curta e cabelo escorrido. Eis o prod\u00edgio das m\u00e3es: reduzem idoso aposentado a menino indefeso.<\/p>\n<p>Dali, com absoluta certeza, ela indagaria pelos filhos. Eu contaria que telefonam mais do que visitam, sempre perguntando pelos rem\u00e9dios que \u00e9, ali\u00e1s, a vers\u00e3o geri\u00e1trica do &#8220;j\u00e1 chegou?&#8221;. O mais velho me recebe com planilhas, calculando minha expectativa de vida, monitorando press\u00e3o e visitas m\u00e9dicas. O do meio insiste em denunciar o tamanho da minha barriga e sempre me convida para pizzas em hor\u00e1rio de novela. O ca\u00e7ula me examina em sil\u00eancio, como radiografia velha, sugerindo dietas e exerc\u00edcios sem pronunciar palavra. Netos me amam por sete minutos exatos, at\u00e9 os celulares os reclamarem. Noras s\u00e3o musas diplom\u00e1ticas: tratam-me como vaso antigo: ningu\u00e9m joga fora, mas todos temem quebrar. Minha m\u00e3e ouviria toda minha ladainha e soltaria, implac\u00e1vel: &#8220;Voc\u00ea tamb\u00e9m deu trabalho pro seu pai&#8221;. Irrefut\u00e1vel. M\u00e3es morrem sem perder a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>A conversa faria parada alegre e alongada no bisneto holand\u00eas. &#8220;Holanda? T\u00e3o longe? N\u00e3o tinha mais perto?&#8221;, ela exclamaria. Eu explicaria que o pequerrucho \u00e9 mais que lindo e que est\u00e1 aprendendo a falar portugu\u00eas, ingl\u00eas e holand\u00eas ao mesmo tempo. Eu, que esque\u00e7o &#8220;escorredor&#8221; e gaguejo &#8220;aquele neg\u00f3cio do macarr\u00e3o&#8221;, tenho herdeiro tril\u00edngue. &#8220;O que ele come?&#8221; &#8220;Arenque cru.&#8221; &#8220;Cru? Coitadinho!&#8221; Ent\u00e3o viria a bronca inevit\u00e1vel \u2014 camiseta velha, lou\u00e7a acumulada, sono tardio ante a TV, geladeira vazia. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o come direito.&#8221; O octogen\u00e1rio de coluna ruim abaixa a cabe\u00e7a. M\u00e3e nos reconduz ao tamanho da alma.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Velho-esquecido.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21949\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Velho-esquecido-450x392.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"392\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Velho-esquecido-450x392.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Velho-esquecido-300x261.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Velho-esquecido.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mas, feita a bronca, ela notaria o sil\u00eancio da casa. Prato solit\u00e1rio na pia, cama arrumada de um lado s\u00f3, TV noturna como socorro, n\u00e3o como companhia. O sil\u00eancio do vi\u00favo n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de som, mas de testemunha: ningu\u00e9m nota o avan\u00e7o da careca, mais de tr\u00eas livros abertos, o jantar pulado. A casa mostra-se educada demais. Converso com plantas: uma, batizada Mariinha, sim, com o nome dela, verde e vistosa, sempre que d\u00e1 floresce e, tenho certeza, morrer\u00e1 se n\u00e3o for ao meu enterro. O bisneto aparece em pixels \u2014 cresce, aprende, faz gra\u00e7a. Se um dia me chamar &#8220;overgrootvader&#8221;; acho que me desmancharei sem conseguir pronunciar. Retruco fotos: &#8220;Meu bisneto &#8220;. Minha neta, lind\u00edssima, responde com um cora\u00e7\u00e3o emoji \u2014 farol para n\u00e1ufrago.<\/p>\n<p>No Dia das M\u00e3es do ano passado, contemplei uma foto nossa dos anos 1970: mam\u00e3e ao meu lado, vestido feito por ela, cabelo arrumadinho, sorriso sabedor e eu feliz. Percebi que h\u00e1 quarenta anos ningu\u00e9m me chama de &#8220;meu filho&#8221;. Filhos me chamam de pai. Netos, de v\u00f4. M\u00e9dico, de senhor. Banco, de cliente preferencial \u2014 eufemismo de sobrevivente. A orfandade verdadeira \u00e9 perder quem ignora nossa idade.<\/p>\n<p>Beijei a foto e chorei feio, infantil: muitos solu\u00e7os, ombro tremendo, atravessando d\u00e9cadas. Saudade dela, da esposa, do bisneto longe, dos filhos ocupados, do sil\u00eancio, dos \u00f3culos perdidos, do tempo ladr\u00e3o. No meio do choro, ri: &#8220;Homem velho chorando assim? Parece crian\u00e7a!&#8221;, ela diria. Talvez a velhice seja a inf\u00e2ncia que regressa \u2014 desaprendemos a for\u00e7a, a pressa, tememos o escuro, queremos m\u00e3e.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus, fui seu filho. Se eu fosse ela hoje, faria tudo igual. Igualzinho \u2014 exceto a despedida: ficaria cinco minutos mais abra\u00e7ado, ignorando as urg\u00eancias. H\u00e1 saudades passageiras. A da m\u00e3e mora no eterno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos, assisti ao filme Se Eu Fosse Voc\u00ea, uma com\u00e9dia leve em que um casal trocava de corpos por encanto de um terreiro &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21948,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21947","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21947","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21947"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21947\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21950,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21947\/revisions\/21950"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21948"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}