{"id":21940,"date":"2026-05-03T10:16:46","date_gmt":"2026-05-03T13:16:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21940"},"modified":"2026-05-03T10:17:55","modified_gmt":"2026-05-03T13:17:55","slug":"hinos-nacionais-licoes-musicais-de-como-morrer-patrioticamente-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/hinos-nacionais-licoes-musicais-de-como-morrer-patrioticamente-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"HINOS NACIONAIS: Li\u00e7\u00f5es Musicais de como morrer patrioticamente (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>No Brasil, o hino \u00e9 cantado com l\u00e1grimas nos olhos antes de uma partida de futebol<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 nos hinos nacionais algo de comovente e ligeiramente preocupante. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es que come\u00e7am solenes e terminam convocando a popula\u00e7\u00e3o inteira para morrer em nome de uma colina estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIX foi particularmente entusiasmado nesse quesito. Era o tempo em que as na\u00e7\u00f5es se diziam: \u201cVamos compor algo que nos una\u2026 e, se poss\u00edvel, que nos convoque ao sacrif\u00edcio coletivo\u201d.<\/p>\n<p>Tomemos a vibrante <em>La Marseillaise<\/em>. \u00c9 praticamente um manual de instru\u00e7\u00f5es para enfrentar \u201co sangue impuro\u201d que regar\u00e1 os campos. N\u00e3o \u00e9 exatamente uma can\u00e7\u00e3o de piquenique. \u00c9 trilha sonora para barricada com bandeira ao vento e olhar determinado. A melodia \u00e9 t\u00e3o contagiante que a gente quase esquece que est\u00e1 cantando sobre invas\u00f5es e armas. Os franceses, ali\u00e1s, n\u00e3o estavam sozinhos na empolga\u00e7\u00e3o marcial. O <em>Il Canto degli Italiani<\/em>, tamb\u00e9m conhecido como \u201cFratelli d\u2019Italia\u201d, \u00e9 outro exemplo do esp\u00edrito rom\u00e2ntico armado. Fala-se em coortes, em uni\u00e3o, em morte pronta para a p\u00e1tria. \u00c9 como se cada verso dissesse: \u201cCantar \u00e9 belo, mas combater \u00e9 indispens\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/As-armas-cidadaos.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21941\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/As-armas-cidadaos.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/As-armas-cidadaos.jpeg 400w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/As-armas-cidadaos-300x235.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>\u00c0s armas cidad\u00e3os, resume a Marselhesa, hino libert\u00e1rio da Fran\u00e7a<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIX tinha essa sutileza: primeiro se escrevia poesia, depois se organizava a infantaria. Mesmo o nosso Hino Nacional Brasileiro, embora mais l\u00edrico e sinuoso, n\u00e3o escapa da ostenta\u00e7\u00e3o \u00e9pica. H\u00e1 margens pl\u00e1cidas, sim, mas tamb\u00e9m h\u00e1 \u201cpenhor dessa igualdade\u201d garantido \u201ccom bra\u00e7o forte\u201d. Bra\u00e7o forte, repare. N\u00e3o \u00e9 antebra\u00e7o moderado nem pulso diplom\u00e1tico. \u00c9 bra\u00e7o forte mesmo, musculatura c\u00edvica pronta para eventualidades.<\/p>\n<p>J\u00e1 o <em>The Star-Spangled Banner<\/em>, nascido sob o clar\u00e3o de foguetes e bombas, descreve a bandeira sobrevivendo bravamente a uma noite de bombardeio. \u00c9 quase uma transmiss\u00e3o ao vivo da guerra de 1812, com efeitos especiais pirot\u00e9cnicos inclu\u00eddos. O orgulho nacional vem acompanhado de p\u00f3lvora. E o que dizer de <em>Deutschlandlied<\/em>? Escrito em pleno fervor nacionalista do s\u00e9culo XIX, carrega o esp\u00edrito da unifica\u00e7\u00e3o e da identidade comum. A vers\u00e3o atual \u00e9 mais comedida, mas nasceu num contexto em que a ideia de na\u00e7\u00e3o vinha embalada com discursos inflamados e uniformes bem passados.<\/p>\n<p>Era o s\u00e9culo das independ\u00eancias, das unifica\u00e7\u00f5es, das fronteiras tra\u00e7adas a r\u00e9gua e sangue. Natural que os hinos refletissem o clima. Ningu\u00e9m comp\u00f5e uma ode nacional dizendo: \u201cSe der, a gente conversa\u201d. O tom \u00e9 sempre definitivo. Ou liberdade ou morte. Ou gl\u00f3ria ou nada. \u00c9 a l\u00f3gica do pagamento mortal: a p\u00e1tria entrega identidade; o cidad\u00e3o, se necess\u00e1rio, entrega a vida. H\u00e1 algo teatral nisso tudo. Imagine se os hinos fossem escritos hoje com o mesmo entusiasmo b\u00e9lico: \u201cDos aplicativos \u00e0 fibra \u00f3ptica; seremos bravos no Wi-Fi inst\u00e1vel!\u201d Mas n\u00e3o. O s\u00e9culo XIX n\u00e3o economizava no drama. Cada verso precisava soar como se fosse declamado do alto de um cavalo branco, com vento estrat\u00e9gico soprando a favor.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Fratelli-dItalia.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21942\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Fratelli-dItalia-450x333.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Fratelli-dItalia-450x333.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Fratelli-dItalia-300x222.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Fratelli-dItalia-768x568.png 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Fratelli-dItalia.png 821w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Fratelli d&#8217;Italia&#8221; virou culto \u00e0 guerra e rep\u00fadio ao Iluminismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que cantamos esses hinos em eventos esportivos com a m\u00e3o no peito e olhos marejados, por exemplo, antes de uma partida de futebol. Ningu\u00e9m ali pretende invadir territ\u00f3rio alheio; no m\u00e1ximo, a grande batalha ser\u00e1 contra a defesa advers\u00e1ria. Ainda assim, entoamos versos que evocam batalhas navais, campos tingidos de sangue e juramentos definitivos.<\/p>\n<p>Os hinos s\u00e3o c\u00e1psulas do tempo. Guardam a mentalidade de uma era em que na\u00e7\u00e3o era projeto \u00e9pico, e morrer por ela era argumento ret\u00f3rico aceit\u00e1vel. Hoje preferimos pagar impostos, o que j\u00e1 \u00e9 um tipo menos po\u00e9tico de sacrif\u00edcio. Talvez dev\u00eassemos ouvir nossos hinos com um leve sorriso hist\u00f3rico. Reconhecer a coragem que expressam, mas tamb\u00e9m a grandiloqu\u00eancia pr\u00f3pria de um s\u00e9culo que acreditava em destinos manifestos e hero\u00edsmos uniformizados. No fundo, os hinos s\u00e3o como parentes solenes em festas de fam\u00edlia. Falam alto, lembram gl\u00f3rias antigas e exigem postura ereta. N\u00f3s obedecemos, respeitosos, mesmo sabendo que a guerra mais pr\u00f3xima talvez seja apenas contra o tr\u00e2nsito de segunda-feira.<\/p>\n<p>E assim seguimos: cantando bravamente, de p\u00e9, celebrando vit\u00f3rias hist\u00f3ricas, enquanto torcemos para que o \u00fanico combate do dia seja alcan\u00e7ar a sobremesa antes que acabe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, o hino \u00e9 cantado com l\u00e1grimas nos olhos antes de uma partida de futebol H\u00e1 nos hinos nacionais algo de comovente e ligeiramente &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21943,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21940","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21940","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21940"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21940\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21945,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21940\/revisions\/21945"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21940"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21940"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21940"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}