{"id":21927,"date":"2026-04-19T09:04:20","date_gmt":"2026-04-19T12:04:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21927"},"modified":"2026-04-19T09:04:20","modified_gmt":"2026-04-19T12:04:20","slug":"confissoes-de-um-cronista-em-estado-de-sofrencia-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/confissoes-de-um-cronista-em-estado-de-sofrencia-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"CONFISS\u00d5ES DE UM CRONISTA EM ESTADO DE SOFR\u00caNCIA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Sim, confesso. Despertei o brega que habita em mim.<\/strong> <\/em><\/p>\n<p>Durante anos cultivei uma reputa\u00e7\u00e3o moderadamente respeit\u00e1vel. Leio coisas densas, cito autores impronunci\u00e1veis, fa\u00e7o cara de quem distingue obo\u00e9 de fagote. Mas bastou uma noite de distra\u00e7\u00e3o, um algoritmo mal-intencionado e um copo generoso de nostalgia para despertar meu lado B: a sofr\u00eancia.<\/p>\n<p>Sim, confesso. Despertei o brega que habita em mim. N\u00e3o aquele brega discreto, de guardanapo bordado e porta-retrato dourado. Falo da sofr\u00eancia assumida, teatral, com direito a m\u00e3o espalmada no peito e olhar perdido no horizonte da varanda. Descobri que dentro de mim mora um cantor de bar imagin\u00e1rio, que entoa para uma plateia de cadeiras vazias e mem\u00f3rias mal resolvidas.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com \u201cInfiel\u201d, de Mar\u00edlia Mendon\u00e7a. Eu, que sempre defendi a conten\u00e7\u00e3o emocional, me peguei sussurrando: \u201cEu te avisei\u201d. N\u00e3o para ningu\u00e9m em especial, apenas para o universo, esse grande traidor conceitual. Depois veio \u201c50 Reais\u201d, tamb\u00e9m de Mar\u00edlia Mendon\u00e7a, que \u00e9 praticamente um curso intensivo de dignidade ferida. H\u00e1 algo de profundamente cat\u00e1rtico em resolver a crise conjugal com uma nota simb\u00f3lica e um olhar de quem venceu por pontos. A sofr\u00eancia n\u00e3o busca consenso; ela quer placar. E ent\u00e3o, quando dei por mim, estava cantarolando \u201cNotifica\u00e7\u00e3o Preferida\u201d, de Z\u00e9 Neto &amp; Cristiano, com uma convic\u00e7\u00e3o que faria corar qualquer tratado de est\u00e9tica. Descobri que meu lado B n\u00e3o apenas ouve: ele interpreta, gesticula, aponta o dedo invis\u00edvel para um culpado imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/A-rainha-da-sofrencia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21929\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/A-rainha-da-sofrencia-288x450.jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/A-rainha-da-sofrencia-288x450.jpg 288w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/A-rainha-da-sofrencia-192x300.jpg 192w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/A-rainha-da-sofrencia.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 288px) 100vw, 288px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A Rainha da sofr\u00eancia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A sofr\u00eancia tem uma pedagogia pr\u00f3pria. Ela ensina que todo relacionamento termina com uma frase de efeito. Que todo ex deve ser enfrentado com uma met\u00e1fora dom\u00e9stica. Que a dor precisa de refr\u00e3o repetido tr\u00eas vezes para fixar bem o aprendizado. E eu, que sempre julguei o exagero alheio, me vi profundamente confort\u00e1vel nesse territ\u00f3rio. H\u00e1 uma honestidade quase brutal na sofr\u00eancia. Quando Wesley Safad\u00e3o canta \u201cCamarote\u201d, n\u00e3o \u00e9 apenas uma m\u00fasica; \u00e9 uma tese sobre ascens\u00e3o social p\u00f3s-t\u00e9rmino. Quando Maiara &amp; Maraisa entoam \u201cMedo Bobo\u201d, \u00e9 a pr\u00f3pria fragilidade humana pedindo bis.<\/p>\n<p>Meu lado B vibra com isso. Ele gosta de frases diretas, de sentimentos sem rodap\u00e9, de emo\u00e7\u00f5es que n\u00e3o pedem bibliografia. A sofr\u00eancia dispensa notas explicativas. Ela \u00e9 a nota. Percebi, com certo susto, que sei letras inteiras. Que antecipo o refr\u00e3o com prazer infantil. Que balan\u00e7o a cabe\u00e7a em aprova\u00e7\u00e3o quando a cantora amea\u00e7a ir embora \u201ccom Deus\u201d, esse Deus sempre convocado como testemunha de desilus\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Escravo-da-sofrencia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21928\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Escravo-da-sofrencia-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Escravo-da-sofrencia-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Escravo-da-sofrencia-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Escravo-da-sofrencia-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Escravo-da-sofrencia-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Escravo-da-sofrencia-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Escravo-da-sofrencia.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>E o mais revelador: a sofr\u00eancia \u00e9 democr\u00e1tica. N\u00e3o exige forma\u00e7\u00e3o, apenas hist\u00f3ria. Todo mundo j\u00e1 teve uma notifica\u00e7\u00e3o que doeu, uma aus\u00eancia que latejou, um orgulho ferido que pediu trilha sonora. O lado B \u00e9 universal, s\u00f3 varia o volume. Durante o dia, defendemos a sobriedade. Falamos em minimalismo, em sutileza, em economia de recursos expressivos. \u00c0 noite, por\u00e9m, h\u00e1 um momento em que a alma pede exagero. Pede eco. Pede teclado dram\u00e1tico e um \u201ceu te avisei\u201d dito com convic\u00e7\u00e3o. Talvez o cafona seja apenas o sentimento sem ironia protetora. A sofr\u00eancia \u00e9 a coragem de parecer excessivo. \u00c9 admitir que a vida, \u00e0s vezes, precisa de trilha sonora com tr\u00eas acordes e muita verdade.<\/p>\n<p>N\u00e3o abandonarei meus livros dif\u00edceis. Continuarei citando autores s\u00e9rios e defendendo an\u00e1lises sofisticadas. Mas agora sei que, dentro de mim, h\u00e1 um palco iluminado por luz roxa onde um cantor imagin\u00e1rio ergue o microfone e declara, sem pudor: \u201cSupera\u201d. E eu supero. Cantando junto.<\/p>\n<p>Porque todos temos um lado B. Uns o escondem sob camadas de erudi\u00e7\u00e3o. Outros o deixam roncando baixinho na noite da alma. Eu resolvi dar play.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, confesso. Despertei o brega que habita em mim. Durante anos cultivei uma reputa\u00e7\u00e3o moderadamente respeit\u00e1vel. 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