{"id":21922,"date":"2026-04-18T08:46:50","date_gmt":"2026-04-18T11:46:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21922"},"modified":"2026-04-18T08:46:50","modified_gmt":"2026-04-18T11:46:50","slug":"lobato-racista-o-que-a-historia-tem-a-dizer-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/lobato-racista-o-que-a-historia-tem-a-dizer-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"LOBATO RACISTA: o que a hist\u00f3ria tem a dizer (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Presidente Negro \u00e9 uma narrativa de tom especulativo, com lances dist\u00f3picos, ambientada nos Estados Unidos de 2228<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>para o grupo teatral Cia Carochinha <\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em 2026, <em>O Presidente Negro<\/em>, de Monteiro Lobato, completa cem anos. O romance chegou ao p\u00fablico num momento de particular fragilidade de seu autor: no ano anterior, a Companhia Gr\u00e1fico-Editora Monteiro Lobato havia falido, Lobato vendera a <em>Revista do Brasil<\/em> e se mudara com a fam\u00edlia para o Rio de Janeiro, onde vivia sem recursos e tentava se reerguer. Foi de l\u00e1, pelas p\u00e1ginas do jornal <em>A Manh\u00e3<\/em>, que lan\u00e7ou o livro em folhetim, antes de v\u00ea-lo publicado em livro no Natal de 1926. Em 1927, uma carta ao rec\u00e9m-empossado presidente Washington Lu\u00eds rendeu-lhe a nomea\u00e7\u00e3o de adido comercial em Nova York \u2014 o que significa que <em>O Presidente Negro<\/em> foi escrito e publicado no intervalo mais prec\u00e1rio da vida do homem que havia criado o S\u00edtio do Picapau Amarelo. O centen\u00e1rio do romance \u00e9 uma boa ocasi\u00e3o para desfazer o equ\u00edvoco mais persistente do debate que o cerca: tom\u00e1-lo como espelho fiel e definitivo das convic\u00e7\u00f5es de Lobato sobre ra\u00e7a.<\/p>\n<p><em>O Presidente Negro<\/em> n\u00e3o \u00e9 um romance de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no sentido estrito: \u00e9 uma narrativa de tom especulativo, com lances dist\u00f3picos, ambientada nos Estados Unidos de 2228. Lobato queria penetrar no mercado editorial norte-americano e acreditava que um enredo futurista protagonizado por americanos seria o ve\u00edculo adequado. Os temas centrais \u2014 segrega\u00e7\u00e3o racial e esteriliza\u00e7\u00e3o em massa \u2014 eram, por\u00e9m, sens\u00edveis demais para qualquer editora dos Estados Unidos, o que explica o fracasso retumbante da empreitada. O livro n\u00e3o elimina a dimens\u00e3o ideol\u00f3gica do autor, mas obriga a l\u00ea-lo com a complexidade que o g\u00eanero exige, e n\u00e3o como tratado doutrin\u00e1rio. Us\u00e1-lo como espelho fiel das convic\u00e7\u00f5es de Lobato seria o equivalente metodol\u00f3gico de tomar o <em>1984<\/em> de Orwell como prova de que ele era totalit\u00e1rio. S\u00e3o obras de possibilidades apocal\u00edpticas, n\u00e3o manifestos pol\u00edticos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Lobato-nos-EUA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21924\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Lobato-nos-EUA-303x450.jpg\" alt=\"\" width=\"303\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Lobato-nos-EUA-303x450.jpg 303w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Lobato-nos-EUA-202x300.jpg 202w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Lobato-nos-EUA.jpg 349w\" sizes=\"auto, (max-width: 303px) 100vw, 303px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Lobato nas ruas de Nova York\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A pol\u00eamica sobre as rela\u00e7\u00f5es de Lobato com o eugenismo sofre, al\u00e9m disso, de um problema de origem raramente nomeado: emergiu publicamente em 2011, quando a revista <em>Bravo!<\/em> publicou cartas in\u00e9ditas endere\u00e7adas ao m\u00e9dico Arthur Neiva, e se instalou sobretudo no campo da milit\u00e2ncia antirracista, com participa\u00e7\u00e3o marginal dos historiadores e dos cr\u00edticos de literatura. O resultado foi um debate de recortes: passagens de cartas recortadas de seu contexto epistolar, cenas isoladas de romances infantis lidas fora da tradi\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, e <em>O Presidente Negro<\/em> tratado como documento definitivo de uma identidade intelectual imut\u00e1vel. O que ainda falta \u00e9 uma periodiza\u00e7\u00e3o rigorosa das oscila\u00e7\u00f5es de Lobato, lastreada no conjunto de suas fontes \u2014 e n\u00e3o num \u00fanico romance de ocasi\u00e3o somado a fra\u00e7\u00f5es fora do contexto.<\/p>\n<p>A historiografia especializada fornece esse enquadramento. A historiadora Nancy Stepan prop\u00f5e o conceito de &#8220;eugenia latina&#8221;: diferentemente da variante norte-americana e alem\u00e3, a eugenia praticada nos pa\u00edses latino-americanos era \u201cneolamarckiana\u201d, apostando na transforma\u00e7\u00e3o do meio como caminho para o melhoramento da ra\u00e7a, n\u00e3o em medidas radicais de esteriliza\u00e7\u00e3o. Lobato operava, em geral, dentro desse registro. Quando reviu o Jeca Tatu \u2014 do &#8220;parasita da terra&#8221; de <em>Urup\u00eas<\/em> (1918) ao doente cur\u00e1vel das campanhas sanitaristas da d\u00e9cada de 1920 \u2014, se expressava nos supostos da eugenia positiva e ambientalista, n\u00e3o da eugenia negativa de exterm\u00ednio. A reviravolta do Jeca \u00e9 evid\u00eancia de que Lobato era capaz de rever posi\u00e7\u00f5es eugenistas; o fazia, por\u00e9m, dentro da l\u00f3gica eugenista, n\u00e3o contra ela. Da\u00ed a contradi\u00e7\u00e3o que percorre toda a sua trajet\u00f3ria: a mesma pena que revisava o Jeca escrevia, em 1921, a carta a Neiva lamentando a aus\u00eancia de uma Ku Klux Klan no Brasil. Essas oscila\u00e7\u00f5es n\u00e3o revelam duplicidade moral, mas a aus\u00eancia de uma teoria racial elaborada e sistem\u00e1tica: Lobato absorvia e descartava argumentos eug\u00eanicos conforme a utilidade que tinham para seu projeto maior: a moderniza\u00e7\u00e3o produtiva do Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Nancy_Stepan.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21923\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Nancy_Stepan.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Nancy_Stepan.jpg 350w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Nancy_Stepan-300x257.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A historiadora norte-americana Nancy Stepan<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As evid\u00eancias mais robustas de uma revis\u00e3eo em curso est\u00e3o em <em>A violeta orgulhosa<\/em>, escrita durante o ex\u00edlio volunt\u00e1rio em Buenos Aires, em 1946 e 1947, na sequ\u00eancia imediata do conhecimento p\u00fablico dos crimes do nazismo. O conto \u00e9 provavelmente o mais antirracista texto infantil de Lobato: o Visconde de Sabugosa explica, em termos cient\u00edficos, o qu\u00e3o despropositada era a ideia de &#8220;superioridade ariana&#8221;. A cor das p\u00e9talas resulta de pigmenta\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, n\u00e3o de hierarquia natural. O alvo \u00e9 nomeado sem eufemismo; o argumento, estritamente cient\u00edfico. O conto foi publicado originalmente em espanhol, em Buenos Aires, como <em>La violeta blanca<\/em> (1947), antes de ser incorporado a <em>Hist\u00f3rias diversas<\/em> no Brasil. Ao contr\u00e1rio do que a revis\u00e3o do Jeca representou \u2014 uma mudan\u00e7a dentro da l\u00f3gica eugenista, substituindo determinismo gen\u00e9tico por determinismo ambiental \u2014, <em>A violeta orgulhosa<\/em> opera fora do campo eugenista: pela primeira vez, Lobato n\u00e3o diz que o problema \u00e9 cur\u00e1vel pelo saneamento, mas que o problema \u2014 a ideia de superioridade racial \u2014 simplesmente n\u00e3o existe. \u00c9 uma diferen\u00e7a qualitativa que n\u00e3o apaga tudo o que veio antes, mas documenta que, no limite de sua vida, Lobato chegou a uma posi\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio eugenismo n\u00e3o poderia gerar de dentro de si mesmo.<\/p>\n<p>O percurso de Lobato, do Jeca Tatu at\u00e9 <em>A violeta orgulhosa<\/em>, n\u00e3o descreve uma linha reta de evolu\u00e7\u00e3o nem uma convers\u00e3o tardia. Descreve as oscila\u00e7\u00f5es de um intelectual que nunca teve com o eugenismo uma rela\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e coerente: aderiu ao vocabul\u00e1rio, compartilhou o c\u00edrculo, escreveu frases indefens\u00e1veis \u2014 e ao mesmo tempo denunciou a viol\u00eancia racial em <em>Negrinha<\/em>, publicou Lima Barreto quando a elite liter\u00e1ria o ignorava, e, no final da vida, colocou na boca do Visconde a refuta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da superioridade ariana.<\/p>\n<p>No centen\u00e1rio de <em>O Presidente Negro<\/em>, o debate merece o cuidado do historiador das ideias: tratar as posi\u00e7\u00f5es de Lobato n\u00e3o como um sistema coerente a ser aprovado ou condenado em bloco, mas como um processo no tempo, com avan\u00e7os, recuos e revis\u00f5es, lido a partir de fontes diversificadas e periodizadas com rigor. A exig\u00eancia de coer\u00eancia imposta retroativamente a escritores do passado \u00e9 ela pr\u00f3pria uma forma de anacronismo. E o anacronismo, como bem sabe o historiador, \u00e9 o mais caro de todos os erros de leitura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Presidente Negro \u00e9 uma narrativa de tom especulativo, com lances dist\u00f3picos, ambientada nos Estados Unidos de 2228 para o grupo teatral Cia Carochinha \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21925,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21922","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21922","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21922"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21922\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21926,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21922\/revisions\/21926"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21925"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}