{"id":21906,"date":"2026-03-29T10:29:46","date_gmt":"2026-03-29T13:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21906"},"modified":"2026-03-29T10:29:46","modified_gmt":"2026-03-29T13:29:46","slug":"para-quem-escreve-o-cronista-de-jornal-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/para-quem-escreve-o-cronista-de-jornal-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PARA QUEM ESCREVE O CRONISTA DE JORNAL? (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Marisa lajolo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A d\u00favida me ocorreu como ocorrem as melhores inquieta\u00e7\u00f5es: por acaso e por provoca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. A pergunta nasceu torta, inspirada naquele t\u00edtulo grave do livro de Hemingway <em>Por quem os sinos dobram?<\/em> A resposta, como se sabe, \u00e9 solene: dobram por todos n\u00f3s. Mas e as cr\u00f4nicas? Escrevem-se para quem?<\/p>\n<p>Os manuais de reda\u00e7\u00e3o s\u00e3o categ\u00f3ricos: pense no \u201cp\u00fablico-alvo\u201d. A express\u00e3o j\u00e1 come\u00e7a mal. P\u00fablico eu entendo. Alvo me soa perigoso. Parece que o leitor deve ser atingido, abatido, convencido \u00e0 for\u00e7a. Nos livros infantis, tudo bem: escreve-se para crian\u00e7as, evita-se ironia excessiva, maneja-se o vocabul\u00e1rio com cuidado. Em textos acad\u00eamicos, tamb\u00e9m: escreve-se para pares, usa-se bibliografia como quem exibe credenciais, cita-se at\u00e9 o vizinho se ele tiver publicado em revista indexada.<\/p>\n<p>Mas e a cr\u00f4nica de jornal?<\/p>\n<p>Ela sai ali, entre a not\u00edcia do tr\u00e2nsito ca\u00f3tico e a cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar. N\u00e3o \u00e9 tese, n\u00e3o \u00e9 conto, n\u00e3o \u00e9 editorial, sequer \u00e9 not\u00edcia. \u00c9 meio conversa de esquina, meio reflex\u00e3o de fim de tarde. O jornal tem, sim, sua linha editorial. Isso ajuda. H\u00e1 um p\u00fablico que escolhe aquele ve\u00edculo, que compartilha certo horizonte cultural, certo modo de olhar o mundo. Mas mesmo assim, quem \u00e9 essa criatura chamada \u201cleitor m\u00e9dio\u201d?<\/p>\n<p>O leitor m\u00e9dio \u00e9 um mito abstrato. N\u00e3o existe. Existe a professora que l\u00ea no caf\u00e9 da manh\u00e3, o advogado que folheia apressado no celular, o estudante que trope\u00e7a no texto porque clicou errado, a senhora que recorta a cr\u00f4nica e guarda na gaveta. Existe tamb\u00e9m aquele que n\u00e3o l\u00ea, mas opina e esse \u00e9 fiel.<\/p>\n<p>Quando escrevo uma cr\u00f4nica, imagino algu\u00e9m? \u00c0s vezes um interlocutor abstrato, um \u201cvoc\u00ea\u201d que me acompanha com paci\u00eancia. Outras vezes escrevo para um amigo espec\u00edfico, que talvez nunca leia. H\u00e1 dias em que escrevo para mim mesmo, o que \u00e9 perigos\u00edssimo: a gente tende a se achar espirituoso demais. O manual diria: defina seu p\u00fablico-alvo. Mas qual? O leitor que ri? O que se emociona? O que discorda? O que manda mensagem corrigindo v\u00edrgula? Porque h\u00e1 esse tamb\u00e9m, o guardi\u00e3o da norma culta, sempre vigilante, pronto a salvar a p\u00e1tria da crase mal colocada.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/cronica.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21907\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/cronica-450x225.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/cronica-450x225.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/cronica-300x150.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/cronica-768x384.png 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/cronica.png 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A cr\u00f4nica tem algo de carta aberta. N\u00e3o se dirige a especialistas, nem a iniciados. Ela se oferece. Quem quiser, entre. Quem n\u00e3o quiser, vire a p\u00e1gina. Talvez seja esse seu encanto e seu risco: falar para todos e, no fim, atingir alguns (e errar muitos). Erramos, ali\u00e1s, com frequ\u00eancia. Achamos que o texto \u00e9 leve e algu\u00e9m o l\u00ea como manifesto metaf\u00edsico. Pensamos ter sido profundos e o leitor s\u00f3 percebe a piada. Julgamos ter sido claros e recebemos mensagens perguntando \u201cmas afinal, o senhor \u00e9 contra ou a favor?\u201d. A cr\u00f4nica, coitada, n\u00e3o foi feita para resolver. Foi feita para sugerir, cutucar, acender uma pequena l\u00e2mpada.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda o fator surpresa. \u00c0s vezes escrevemos pensando nos adultos e somos adotados por adolescentes atentos. Outras vezes acreditamos ter feito gra\u00e7a e tocamos algu\u00e9m enlutado. O texto ganha vida pr\u00f3pria, emancipa-se do autor e vai morar onde quiser. A essa altura, o cronista j\u00e1 perdeu o controle, o que \u00e9 saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Talvez a resposta seja menos t\u00e9cnica e mais humana. Escreve-se para quem estiver disposto a partilhar alguns minutos de pensamento. Para quem aceita sentar ao lado do cronista nesse banco imagin\u00e1rio de pra\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 preciso concordar. Basta ouvir.<\/p>\n<p>No fundo, a cr\u00f4nica de jornal escreve-se para um \u201cn\u00f3s\u201d impreciso. Um n\u00f3s que inclui o autor e o leitor numa mesma condi\u00e7\u00e3o: a de gente comum tentando entender o mundo sem a pretens\u00e3o de esgot\u00e1-lo.<\/p>\n<p>E se me perguntarem, com solenidade, \u201cpara quem o senhor escreve?\u201d, talvez eu responda com ligeiro desvio liter\u00e1rio: escrevo para quem os sinos dobrarem. Se algu\u00e9m ouvir, j\u00e1 valeu. Se ningu\u00e9m ouvir, ao menos o sino tocou \u2014 e eu me diverti escrevendo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Marisa lajolo A d\u00favida me ocorreu como ocorrem as melhores inquieta\u00e7\u00f5es: por acaso e por provoca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. 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