{"id":21895,"date":"2026-03-22T09:41:44","date_gmt":"2026-03-22T12:41:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21895"},"modified":"2026-03-22T09:42:13","modified_gmt":"2026-03-22T12:42:13","slug":"manual-pratico-de-elegancia-funebre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/manual-pratico-de-elegancia-funebre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"MANUAL PR\u00c1TICO DE ELEG\u00c2NCIA F\u00daNEBRE (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Depois que se passa dos 80, descobre-se uma estranha regularidade no mundo: a agenda da morte \u00e9 pontual. N\u00e3o h\u00e1 semana sem not\u00edcia, m\u00eas sem surpresa. A cada telefonema, a suspeita autom\u00e1tica: \u201cQuem foi desta vez?\u201d. Forma-se uma esp\u00e9cie de clube involunt\u00e1rio, e n\u00f3s, remanescentes, ficamos na antessala, mexendo no celular enquanto aguardamos convoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre meus livros prediletos est\u00e1 <em>Cinco horas com Mario<\/em>, de Miguel Delibes. A cena \u00e9 genial: o morto no caix\u00e3o, ouvindo a vi\u00fava falar sem parar. Sempre imagino o finado comentando mentalmente: \u201cSe eu soubesse disso tudo, tinha morrido antes\u201d. O morto, ali, torna-se espectador privilegiado dos vivos. E se existe palco onde os vivos se revelam sem maquiagem, \u00e9 o vel\u00f3rio. Machado de Assis entenderia perfeitamente.<\/p>\n<p>Diante disso, elaborei um pequeno manual de sobreviv\u00eancia est\u00e9tica e moral para essas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Primeira regra: vestimenta.<\/strong> N\u00e3o \u00e9 exagero pedir sobriedade. Bermudas e regatas n\u00e3o combinam com a solenidade do momento. O morto, quase sempre impec\u00e1vel no traje final, merece respeito visual. N\u00f3s, convidados, devemos buscar equil\u00edbrio: discri\u00e7\u00e3o sem parecer posse de ministro do Supremo, nem madrinha de casamento atrasada.<\/p>\n<p><strong>Segunda regra: v\u00e1 sozinho, se poss\u00edvel.<\/strong> Vel\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 excurs\u00e3o. Em grupo, sempre surge o coment\u00e1rio lateral: \u201cFalou mal do coitado a vida inteira e agora faz cara de sofrimento t\u00e9cnico\u201d. A cerim\u00f4nia exige concentra\u00e7\u00e3o. Como prova de vestibular, qualquer cochicho compromete a compostura.<\/p>\n<p><strong>Terceira regra: n\u00e3o encare o defunto, isso o constrange.<\/strong> Respeito o protagonista, mas prefiro guardar sua imagem em movimento. Em vez disso, observo os vivos e invento hist\u00f3rias silenciosas para suportar o tempo: aquele senhor sisudo foi rival de pescaria; a senhora que chora demais alimentou amor plat\u00f4nico nos anos 50; o rapaz no celular talvez avise: \u201cChego j\u00e1, estou num evento\u201d. \u00c9 exerc\u00edcio criativo eficaz contra a trag\u00e9dia pura.<\/p>\n<p><strong>Quarta regra: evite o momento final.<\/strong> O fechamento do caix\u00e3o \u00e9 dramaticamente intenso. Prefiro a fase intermedi\u00e1ria, quando a dor ainda est\u00e1 calibrando seu volume. O \u00e1pice coletivo exige preparo f\u00edsico e emocional que nem sempre possuo. Tamb\u00e9m evito o cafezinho e as bolachinhas. H\u00e1 algo de estranho em mastigar diante da finitude. Reconhe\u00e7o, contudo, que para alguns o caf\u00e9 \u00e9 \u00e2ncora existencial. Sempre h\u00e1 quem critique a torra: \u201cEst\u00e1 fraco\u201d. Ora, meu amigo, o problema ali n\u00e3o \u00e9 a bebida.<\/p>\n<p>Fico longe das velas: tenho impulso quase infantil de apag\u00e1-las, como se estivesse diante de um bolo de anivers\u00e1rio invertido. Com as flores ocorre o mesmo: vontade s\u00fabita de reorganizar arranjos, impor est\u00e9tica minimalista. Contenho-me. N\u00e3o fui contratado como decorador f\u00fanebre.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Velorio-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21897\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Velorio-2-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Velorio-2-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Velorio-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Velorio-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Velorio-2-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Velorio-2-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Velorio-2.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cuidado tamb\u00e9m com as frases feitas. \u201cEst\u00e1 num lugar melhor\u201d pode gerar debate teol\u00f3gico indesejado. \u201cFoi descansar\u201d transforma a vida em expediente banc\u00e1rio. \u00c0s vezes, o mais elegante \u00e9 o sil\u00eancio acompanhado de um aperto de m\u00e3o firme. O sil\u00eancio, nesse contexto, \u00e9 a orat\u00f3ria mais nobre.<\/p>\n<p>No fundo, o vel\u00f3rio \u00e9 ensaio sobre n\u00f3s mesmos. Vamos despedir-nos, mas tamb\u00e9m conferir se ainda constamos na lista dos presentes. Cada cerim\u00f4nia lembra que a prociss\u00e3o segue, e marchamos ora como acompanhantes, ora como futuros homenageados.<\/p>\n<p>E, se Delibes estiver certo, talvez um dia estejamos ali, deitados, ouvindo coment\u00e1rios, avaliando roupas, anotando mentalmente quem exagerou no drama e quem compareceu apenas pelo caf\u00e9.<\/p>\n<p>Minha \u00faltima regra \u00e9 simples: comporte-se no vel\u00f3rio alheio como gostaria que se comportassem no seu. Porque, depois dos 80, nunca se sabe quando seremos promovidos a anfitri\u00f5es definitivos do evento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois que se passa dos 80, descobre-se uma estranha regularidade no mundo: a agenda da morte \u00e9 pontual. 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