{"id":21888,"date":"2026-03-15T08:51:08","date_gmt":"2026-03-15T11:51:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21888"},"modified":"2026-03-15T08:51:08","modified_gmt":"2026-03-15T11:51:08","slug":"complexo-de-superioridade-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/complexo-de-superioridade-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"COMPLEXO DE SUPERIORIDADE (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Atire a primeira pedra quem nunca teve a fantasia de ser o principal protagonista de um espet\u00e1culo?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quando eu era crian\u00e7a e me perguntavam o que queria ser quando crescesse, eu n\u00e3o tinha d\u00favidas filos\u00f3ficas nem voca\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica. Respondia com a seguran\u00e7a dos iluminados: \u201cChofer de caminh\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o era qualquer caminh\u00e3o. Eram aqueles FNMs enormes, monumentais, barulhentos, que pareciam atravessar continentes s\u00f3 com a for\u00e7a do ronco. O motorista l\u00e1 em cima (eu), soberano na cabine, olhava o mundo de um trono mec\u00e2nico. Aquilo, para mim, era o \u00e1pice do poder: conduzir toneladas de carga, dominar marchas intermin\u00e1veis, buzinar como quem anuncia a pr\u00f3pria import\u00e2ncia. Eu n\u00e3o queria apenas dirigir; queria ocupar a estrada. Havia, confesso, um discreto complexo de superioridade sobre rodas.<\/p>\n<p>Em segundo lugar na minha lista de grandezas vinha o cargo de maestro. Sim, eu queria reger uma orquestra. N\u00e3o por amor desinteressado \u00e0 m\u00fasica erudita que, ali\u00e1s, eu mal conhecia, mas pela possibilidade de levantar uma batuta e ver cinquenta pessoas me obedecerem com precis\u00e3o matem\u00e1tica. Um gesto meu e os violinos chorariam. Um olhar severo e os trombones se conteriam. Aquilo n\u00e3o era arte; era comando civilizado. Eu sonhava com aplausos em p\u00e9 e rever\u00eancias discretas. Nada mais sedutor para uma crian\u00e7a do que mandar sem precisar gritar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/FNM-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21889\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/FNM-2-450x220.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/FNM-2-450x220.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/FNM-2-300x147.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/FNM-2-768x375.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/FNM-2.jpg 1046w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Dirigir um caminh\u00e3o ocupou muitos sonhos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas havia tamb\u00e9m o futebol. Eu me via no Maracan\u00e3, est\u00e1dio lotado, \u00faltimo minuto do jogo, o time dependendo de um gol. A bola sobrava para mim e eu marcava o gol redentor. A multid\u00e3o em del\u00edrio, narrador rouco, meu nome ecoando como hino nacional. O goleiro advers\u00e1rio, derrotado pela minha grandeza esportiva, aceitava o destino com humildade. E corria de bra\u00e7os abertos, distribuindo superioridade pelos quatro cantos do campo.<\/p>\n<p>Reparem. Em todas as minhas ambi\u00e7\u00f5es infantis havia um detalhe comum: eu estava sempre acima. Acima da estrada, acima da orquestra, acima da defesa advers\u00e1ria. N\u00e3o era exatamente arrog\u00e2ncia; era uma forma po\u00e9tica de desejar protagonismo. Crian\u00e7a n\u00e3o quer ser coadjuvante da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>O tempo, contudo, tem uma especialidade cruel: ele nos apresenta \u00e0 conta. Cresci. E virei um comportado cidad\u00e3o que paga boletos. Muitos boletos. Alguns com juros, outros com resigna\u00e7\u00e3o. Meu dom\u00ednio atual se resume ao controle remoto (quando as pilhas colaboram) e \u00e0 escolha do sabor da pizza nas sextas-feiras. A \u00fanica orquestra que me obedece \u00e9 a do despertador, que toca \u00e0s seis e me rege para fora da cama com brutal objetividade.<\/p>\n<p>De vez em quando, no tr\u00e2nsito, quando um caminh\u00e3o passa imponente ao meu lado, ainda sinto aquele velho impulso de superioridade rodovi\u00e1ria. Olho para a cabine elevada e penso: \u201cAli vai um imperador da BR.\u201d Em seguida, lembro que estou atrasado para uma reuni\u00e3o de professores da minha escola.<\/p>\n<p>Quando assisto a um concerto na televis\u00e3o, observo o maestro com uma mistura de admira\u00e7\u00e3o e ci\u00fame infantil. Ele ergue a batuta e dezenas de m\u00fasicos seguem seu comando. Eu ergo a conta de luz e s\u00f3. Cada qual com sua sinfonia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Pele.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21890\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Pele-450x431.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"431\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Pele-450x431.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Pele-300x287.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Pele-768x735.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Pele.jpg 803w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Qual garoto (marmanjo tamb\u00e9m) n\u00e3o se sentiu o Pel\u00e9 com a bola nos p\u00e9s?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E no futebol? Bem, continuo marcando gols decisivos, mas apenas nos coment\u00e1rios inflamados do sof\u00e1. Sempre sei o que o atacante deveria ter feito, como se o talento estivesse guardado em mim, \u201cdesportizado\u201d por falta de oportunidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes penso que o tal complexo de superioridade n\u00e3o desapareceu; apenas mudou de escala. J\u00e1 n\u00e3o quero dominar estradas, orquestras ou est\u00e1dios. Contento-me em organizar minha pequena agenda, cumprir compromissos e, ocasionalmente, achar que sei mais do que o atendente do telemarketing.<\/p>\n<p>E, pensando bem, talvez n\u00e3o haja tanta dist\u00e2ncia assim entre o passado glorioso e o presente comportado. Continuo querendo conduzir alguma coisa, coordenar algum caos, decidir algum resultado, nem que seja o placar da vida dom\u00e9stica de um vi\u00favo solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Se isso \u00e9 complexo de superioridade, confesso sem culpa: prefiro cham\u00e1-lo de lembran\u00e7a de grandeza. Afinal, quem nunca quis ser gigante antes de aprender a pagar boletos, pregar bot\u00f5es e ir \u00e0 farm\u00e1cia mais pr\u00f3xima? Quem n\u00e3o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atire a primeira pedra quem nunca teve a fantasia de ser o principal protagonista de um espet\u00e1culo? 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