{"id":21850,"date":"2026-03-01T08:52:19","date_gmt":"2026-03-01T11:52:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21850"},"modified":"2026-03-01T08:54:29","modified_gmt":"2026-03-01T11:54:29","slug":"os-chatos-da-historia-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/os-chatos-da-historia-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"OS CHATOS DA HIST\u00d3RIA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>O Bar\u00e3o do Rio Branco morreu no primeiro dia do Carnaval de 1912 e o Rio de Janeiro suspendeu a folia. O Bar\u00e3o partiu cercado de respeito nacional, mas sua morte caiu como confete molhado sobre a cidade que j\u00e1 afinava os tamborins. A capital vestiu luto em vez de fantasia. N\u00e3o se trata aqui de desmerecer o diplomata que desenhou fronteiras com eleg\u00e2ncia, mas de registrar o fen\u00f4meno: h\u00e1 acontecimentos e fatos que, volunt\u00e1ria ou involuntariamente, furam a festa com ar grave e transformam alegrias em tristezas.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria conhece muitos desses chatos involunt\u00e1rios, especialistas em interromper brindes. Em 22 de novembro de 1963, enquanto Dallas sorria para um desfile presidencial, tiros rasgaram o ar e congelaram o mundo. John F. Kennedy caiu em plena celebra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a festa virou vig\u00edlia planet\u00e1ria. O riso dissolveu-se em notici\u00e1rio urgente, e a banda cedeu lugar ao sil\u00eancio. N\u00e3o foi a primeira nem a \u00faltima vez que a pol\u00edtica entrou sem convite no baile.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m os chatos meteorol\u00f3gicos. Em 1815, o vulc\u00e3o Monte Tambora, na ilha de Sumbawa, na Indon\u00e9sia, decidiu erguer-se acima do calend\u00e1rio humano e lan\u00e7ou cinzas suficientes para escurecer ver\u00f5es. O ano seguinte ficou conhecido como \u201co ano sem ver\u00e3o\u201d; colheitas fracassaram, casamentos foram adiados, grupos passaram fome. Nenhuma festa resiste a um c\u00e9u que n\u00e3o clareia. A natureza, quando resolve discursar, grita.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Monte-Tambora.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21851\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Monte-Tambora-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Monte-Tambora-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Monte-Tambora-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Monte-Tambora-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Monte-Tambora-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Monte-Tambora-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Monte-Tambora.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Vulc\u00e3o Monte Tambora, na ilha de Sumbawa, na Indon\u00e9sia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E que dizer dos chatos sanit\u00e1rios? Em 1918, a Gripe Espanhola atravessou oceanos com efici\u00eancia sinistra e fechou teatros, prociss\u00f5es, bailes. Cem anos depois, a COVID-19 repetiu o gesto em escala global: carnavais cancelados, est\u00e1dios vazios, anivers\u00e1rios celebrados por telas luminosas. A humanidade descobriu que at\u00e9 o abra\u00e7o pode ser suspenso por decreto microsc\u00f3pico. H\u00e1 chatos invis\u00edveis que n\u00e3o precisam de discurso. Ah! e tem os chatos que pro\u00edbem vacinas.<\/p>\n<p>Alguns preferem atrapalhar festas por excesso de zelo moral. Em 1933, livros arderam nas fogueiras organizadas por simpatizantes de Hitler; a noite que poderia ser liter\u00e1ria tornou-se espet\u00e1culo de intoler\u00e2ncia. A alegria que nasce da arte foi substitu\u00edda pelo barulho seco das p\u00e1ginas queimadas. N\u00e3o h\u00e1 festa que resista ao crepitar da censura.<\/p>\n<p>Outros chatos chegam com calend\u00e1rio pr\u00f3prio. Em 1912, o Titanic lembrou ao mundo que nem todo brinde inaugural termina em dan\u00e7a. A viagem prometida como triunfo tecnol\u00f3gico converteu-se em luto oce\u00e2nico. A orquestra tocou at\u00e9 o fim, talvez para negar a chatice suprema do destino, o gelo venceu a valsa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Titanic.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21852\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Titanic-450x338.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Titanic-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Titanic-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Titanic-768x577.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Titanic.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Naufr\u00e1gio do transatl\u00e2ntico em sua viagem inaugural<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E existem os chatos de gabinete, especialistas em protocolos. Quantas festas foram desmarcadas por um telegrama, um decreto, uma assinatura no canto inferior da p\u00e1gina? A Hist\u00f3ria est\u00e1 cheia de decis\u00f5es tomadas \u00e0 meia-noite que amanhecem como cancelamentos gerais. O poder, quando se julga absoluto, tem horror ao improviso; prefere a solenidade aos vivas.<\/p>\n<p>Mas conv\u00e9m reconhecer: nem todo chato \u00e9 vil\u00e3o. \u00c0s vezes, o acontecimento grave nos lembra que a festa n\u00e3o \u00e9 o mundo inteiro. A morte do Bar\u00e3o suspendeu o Carnaval por respeito; as pandemias suspenderam abra\u00e7os por cuidado; trag\u00e9dias interromperam dan\u00e7as para exigir mem\u00f3ria. A chatice hist\u00f3rica pode ser tamb\u00e9m pedagogia severa, chamada \u00e0 consci\u00eancia, pausa necess\u00e1ria para que o riso n\u00e3o vire irresponsabilidade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1912-a-morte-do-barao-do-rio-branco-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21854\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1912-a-morte-do-barao-do-rio-branco-1.jpg\" alt=\"\" width=\"412\" height=\"252\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1912-a-morte-do-barao-do-rio-branco-1.jpg 412w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1912-a-morte-do-barao-do-rio-branco-1-300x183.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 412px) 100vw, 412px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Funeral do Bar\u00e3o do Rio Branco em 1912, no Rio de Janeiro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 algo de profundamente humano na irrita\u00e7\u00e3o diante de quem atravessa a alegria com passo f\u00fanebre. Queremos nossas datas intactas, nossos calend\u00e1rios previs\u00edveis, nossos parab\u00e9ns imunes ao notici\u00e1rio. Preferimos acreditar que a Hist\u00f3ria sabe esperar o fim do acontecimento para agir. Ela n\u00e3o sabe. Entra quando quer, senta-se \u00e0 mesa sem pedir licen\u00e7a e, \u00e0s vezes, apaga as luzes.<\/p>\n<p>Talvez a maturidade esteja em aprender a dan\u00e7ar apesar dos chatos e at\u00e9 por causa deles. Porque, se a Hist\u00f3ria insiste em interromper festas, a vida insiste em retom\u00e1-las. Depois do luto, h\u00e1 reencontro; depois da epidemia, h\u00e1 rua; depois do decreto, h\u00e1 improviso. O Bar\u00e3o partiu no primeiro dia do Carnaval, mas o Carnaval n\u00e3o morreu com ele. A Hist\u00f3ria pode at\u00e9 atravessar o sal\u00e3o com ar grave; o povo, teimoso, sempre encontra um jeito de recome\u00e7ar a m\u00fasica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Bar\u00e3o do Rio Branco morreu no primeiro dia do Carnaval de 1912 e o Rio de Janeiro suspendeu a folia. 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