{"id":21837,"date":"2026-02-22T09:23:24","date_gmt":"2026-02-22T12:23:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21837"},"modified":"2026-02-22T09:23:24","modified_gmt":"2026-02-22T12:23:24","slug":"morrer-de-amor-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/morrer-de-amor-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"MORRER DE AMOR&#8230;(Carlos Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Ana Regina Gatti<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Hoje resolvi encarar o exagero, essa arte nacional de aumentar o mundo at\u00e9 que caiba dentro das palavras e, para tanto, escolhi o amor como pretexto, porque em nenhum outro territ\u00f3rio humano a hip\u00e9rbole floresce com tanta exuber\u00e2ncia, perfume e descontrole.<\/p>\n<p>O exagero \u00e9 lente de aumento aplicada a esse sentimento que n\u00e3o tolera a medida justa, precisa da vertigem e \u00e9 assim que o amor se transforma em religi\u00e3o. N\u00e3o se gosta, adora-se. N\u00e3o se deseja, idolatra-se. N\u00e3o se sofre, agoniza-se. O cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o pulsa, explode. A aus\u00eancia n\u00e3o incomoda, corr\u00f3i. A saudade n\u00e3o d\u00f3i, dilacera como se a anatomia tivesse sido reinventada apenas para comportar trag\u00e9dias \u00edntimas.<\/p>\n<p>\u201cMorrer de amor\u201d tornou-se express\u00e3o banal, repetida com a naturalidade de quem pede caf\u00e9. A frase corre solta, irrespons\u00e1vel, como se o afeto fosse capaz de interromper fun\u00e7\u00f5es vitais e convocar cortejos f\u00fanebres sentimentais. Se a met\u00e1fora fosse literal, o mundo seria um imenso cemit\u00e9rio de apaixonados, cada decep\u00e7\u00e3o gerando um obitu\u00e1rio, cada t\u00e9rmino exigindo luto oficial e bandeiras a meio mastro.<\/p>\n<p>O exagero amoroso n\u00e3o admite pequenas propor\u00e7\u00f5es. Um encontro casual vira destino inescap\u00e1vel; uma afinidade vira alma g\u00eamea; um gesto gentil transforma-se em prova irrefut\u00e1vel de eternidade; um olhar cruzado vira \u201ca metade da laranja\u201d. Tr\u00eas dias bastam para que se construam castelos, pal\u00e1cios, genealogias futuras, nomes de filhos e planos de aposentadoria compartilhada. A imagina\u00e7\u00e3o trabalha em regime de urg\u00eancia, como se o amor precisasse ser monumental ou n\u00e3o valesse a pena.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/So-um-coracao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21838\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/So-um-coracao-450x450.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/So-um-coracao-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/So-um-coracao-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/So-um-coracao-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/So-um-coracao-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/So-um-coracao-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/So-um-coracao.jpg 736w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>E quando a realidade, sempre menos teatral, ousa impor limita\u00e7\u00f5es, o exagero n\u00e3o recua, reage. Uma discord\u00e2ncia vira incompatibilidade absoluta. Um sil\u00eancio transforma-se em trai\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica. Uma d\u00favida assume a forma de cat\u00e1strofe irrepar\u00e1vel. O sentimento, que poderia ser apenas tristeza, converte-se em ru\u00edna, devasta\u00e7\u00e3o, colapso da alma.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem transforme cada paix\u00e3o em \u00faltimo cap\u00edtulo da pr\u00f3pria biografia, como se n\u00e3o houvesse depois. Ama-se como se estivesse \u00e0 beira do abismo, sofre-se como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3. A linguagem se enche de superlativos, adv\u00e9rbios inflamados, promessas perp\u00e9tuas, juras irrevers\u00edveis. O amor deixa de ser experi\u00eancia, vira drama. E quanto mais grandioso o discurso, maior a necessidade de convencer a si mesmo da intensidade proclamada.<\/p>\n<p>O exagero tamb\u00e9m se infiltra na felicidade amorosa. N\u00e3o basta estar contente, \u00e9 preciso \u00eaxtase. N\u00e3o basta sentir companhia, exige-se dissolu\u00e7\u00e3o das fronteiras individuais. O outro deixa de ser pessoa e passa a ser destino, salva\u00e7\u00e3o, resposta definitiva para perguntas que talvez nunca tenham sido feitas com clareza. Deposita-se no amado\/a a responsabilidade de preencher vazios antigos, curar feridas remotas, reorganizar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O exagero cobra do sentimento o que n\u00e3o foi prometido: perman\u00eancia absoluta, intensidade ininterrupta, felicidade sem fissuras. Quando essas promessas impl\u00edcitas falham, instala-se a sensa\u00e7\u00e3o de trag\u00e9dia, como se o universo tivesse quebrado um contrato invis\u00edvel.<\/p>\n<p>No entanto, apesar de todas as mortes anunciadas, ningu\u00e9m sucumbe. Sobrevive-se a cada \u201cfim definitivo\u201d, respira-se depois de cada \u201cdestrui\u00e7\u00e3o total\u201d, reencontra-se equil\u00edbrio ap\u00f3s cada \u201cqueda irrevers\u00edvel\u201d. O cora\u00e7\u00e3o, acusado de fragilidade extrema, revela resist\u00eancia silenciosa. Ele n\u00e3o morre; adapta-se. N\u00e3o se pulveriza; reorganiza-se. N\u00e3o encerra a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, apenas muda de cap\u00edtulo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/xARADA-EXAGERO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21839\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/xARADA-EXAGERO-450x224.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/xARADA-EXAGERO-450x224.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/xARADA-EXAGERO-300x149.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/xARADA-EXAGERO-768x381.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/xARADA-EXAGERO.jpg 1228w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Talvez o exagero amoroso seja uma tentativa desesperada de tornar o sentimento proporcional \u00e0 sua import\u00e2ncia. Como amar \u00e9 grande demais para caber em frases simples, recorre-se \u00e0 hip\u00e9rbole. Mas, ao inflar demais as palavras, esvazia-se a experi\u00eancia. Quando tudo \u00e9 absoluto, nada \u00e9 raro. Quando cada paix\u00e3o \u00e9 eterna, nenhuma precisa de cuidado.<\/p>\n<p>Falar de exagero amoroso \u00e9 reconhecer que somos criaturas inclinadas ao espet\u00e1culo, fascinadas pelo excesso, seduzidas pela grandiosidade. Mas talvez a verdadeira maturidade consista em amar sem necrol\u00f3gio antecipado, sofrer sem decretar apocalipses, sentir profundamente sem transformar cada emo\u00e7\u00e3o em manchete interna.<\/p>\n<p>No fim, continuamos vivos depois de cada \u201cmorte de amor\u201d. E essa sobreviv\u00eancia repetida, discreta e quase humilde, \u00e9 a prova de que o cora\u00e7\u00e3o suporta mais realidade do que o exagero gosta de admitir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Ana Regina Gatti Hoje resolvi encarar o exagero, essa arte nacional de aumentar o mundo at\u00e9 que caiba dentro das palavras e, para tanto, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21840,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21837","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21837"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21837\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21841,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21837\/revisions\/21841"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}