{"id":21832,"date":"2026-02-15T08:56:19","date_gmt":"2026-02-15T11:56:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21832"},"modified":"2026-02-15T08:56:19","modified_gmt":"2026-02-15T11:56:19","slug":"quarta-feira-de-cinzas-e-outras-ressacas-nacionais-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/quarta-feira-de-cinzas-e-outras-ressacas-nacionais-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"QUARTA-FEIRA DE CINZAS E OUTRAS RESSACAS NACIONAIS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>AT\u00c9 A PR\u00d3XIMA<\/strong><\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte \u00e0 euforia, o pa\u00eds sempre acorda com a sensa\u00e7\u00e3o de que brincou mais do que devia. A quarta-feira de cinzas surge como fiscal silenciosa da festa, abrindo as janelas ainda cheias de confete e perguntando, com sobriedade desconfiada, quem vai pagar a conta do espet\u00e1culo?<\/p>\n<p>Sobre a mesa dos poderes constitu\u00eddos repousam projetos urgentes, redigidos entre um brinde e outro, propondo contribui\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias para cobrir as extravag\u00e2ncias da v\u00e9spera. Fala-se em ajuste solid\u00e1rio, em contribui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel, em pequena amplia\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria que, como todo brilho de Carnaval, tende a durar mais do que o previsto. A festa foi coletiva, explicam. A conta tamb\u00e9m ser\u00e1.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica, ainda com a m\u00e1scara \u00e0 vista, garante que tudo n\u00e3o passou de um desvio carnavalesco. Um entusiasmo cont\u00e1bil embalado pelo surdo da bateria fiscal. Agora come\u00e7a a era da sobriedade, da harmonia entre os poderes, da justi\u00e7a social finalmente materializada. O discurso \u00e9 afinado. O problema \u00e9 a bateria.<\/p>\n<p>Um poder puxa o estandarte para um lado, outro ajusta o compasso para outro, e o terceiro decide que o ritmo oficial ser\u00e1 redefinido conforme interpreta\u00e7\u00e3o superveniente. Fala-se em equil\u00edbrio institucional enquanto cada qual ensaia sua pr\u00f3pria coreografia. A prometida harmonia parece bloco improvisado: todos juram tocar a mesma m\u00fasica, mas cada instrumento insiste em solo particular.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Ressaca.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21834\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Ressaca.jpg\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Ressaca.jpg 297w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Ressaca-80x80.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No centro da avenida ergue-se a grande alegoria da justi\u00e7a social. Alta, iluminada, cheia de promessas cromadas. De longe, comove. De perto, revela estrutura de papel\u00e3o reciclado de discursos antigos. Garante igualdade em suaves presta\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias. Afirma que o sacrif\u00edcio ser\u00e1 m\u00ednimo, quase simb\u00f3lico. O contribuinte, protagonista involunt\u00e1rio do enredo, descobre que solidariedade \u00e9 substantivo abstrato e d\u00e9bito bem concreto.<\/p>\n<p>Mas a esperan\u00e7a brasileira n\u00e3o se limita ao Carnaval. Ela tem calend\u00e1rio pr\u00f3prio e voca\u00e7\u00e3o festiva. Mal a quarta-feira varre o excesso de purpurina e j\u00e1 se anuncia novo desfile de expectativas. Se n\u00e3o \u00e9 samba, \u00e9 hino. Se n\u00e3o \u00e9 avenida, \u00e9 arquibancada.<\/p>\n<p>A cada Copa do Mundo, o pa\u00eds veste a camisa como quem veste futuro. A bola rola e, com ela, rolam frustra\u00e7\u00f5es e sonhos acumulados. Durante noventa minutos, n\u00e3o h\u00e1 desencontro entre poderes, nem debate sobre impostos. H\u00e1 apenas a cren\u00e7a generosa de que um gol pode reorganizar o destino nacional. Vence-se um jogo e o amanh\u00e3 parece mais leve. Perde-se e culpa-se o t\u00e9cnico, o juiz, a meteorologia. Nunca a estrutura do campeonato.<\/p>\n<p>Passada a Copa, chegam as elei\u00e7\u00f5es, esse Carnaval c\u00edvico de palanques e jingles. Promessas desfilam em carros aleg\u00f3ricos de papel timbrado. A justi\u00e7a social reaparece maquiada, rejuvenescida, jurando que agora \u00e9 para valer. Bandeiras substituem serpentinas. O voto vira confete solene lan\u00e7ado na urna como quem lan\u00e7a desejo ao mar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Limpar-a-sujeira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21835\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Limpar-a-sujeira-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Limpar-a-sujeira-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Limpar-a-sujeira-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Limpar-a-sujeira.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Promete-se di\u00e1logo maduro, responsabilidade fiscal, coopera\u00e7\u00e3o republicana. Nos bastidores, os ensaios seguem desencontrados. Um fala em austeridade com plumas discretas. Outro prefere expans\u00e3o com lantejoulas estrat\u00e9gicas. O terceiro interv\u00e9m para garantir que a coreografia respeite o figurino constitucional. E o p\u00fablico, sempre esperan\u00e7oso, aplaude a estreia do novo espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>A quarta-feira de cinzas observa com ceticismo paciente. Sabe que a festa \u00e9 necess\u00e1ria e que a esperan\u00e7a move multid\u00f5es. Mas sabe tamb\u00e9m que fantasias n\u00e3o substituem alicerces, que justi\u00e7a social n\u00e3o se constr\u00f3i apenas com ilumina\u00e7\u00e3o c\u00eanica e que harmonia entre poderes exige mais do que discursos coreografados.<\/p>\n<p>Ainda assim, quando o pr\u00f3ximo evento se anuncia, l\u00e1 estamos n\u00f3s outra vez. Prontos para pintar o rosto, erguer a bandeira, repetir o refr\u00e3o e acreditar que desta vez ser\u00e1 diferente. Porque, neste pa\u00eds, a esperan\u00e7a n\u00e3o aceita aposentadoria. Ela renasce como festa, como Copa, como elei\u00e7\u00e3o. E a quarta-feira de cinzas, resignada, continua perguntando se algum dia o futuro vir\u00e1 sem fantasia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AT\u00c9 A PR\u00d3XIMA Na manh\u00e3 seguinte \u00e0 euforia, o pa\u00eds sempre acorda com a sensa\u00e7\u00e3o de que brincou mais do que devia. 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