{"id":21824,"date":"2026-02-08T08:35:05","date_gmt":"2026-02-08T11:35:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21824"},"modified":"2026-02-08T08:36:19","modified_gmt":"2026-02-08T11:36:19","slug":"entre-tambores-e-teses-o-brasil-que-samba-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/entre-tambores-e-teses-o-brasil-que-samba-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Entre Tambores e Teses: O Brasil que Samba (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Quiumba, curimba, mojub\u00e1 foram algumas express\u00f5es de umbanda do samba do Salgueiro em 2025<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ouvi, com a solenidade de sempre, os sambas de enredo do Rio. A cada temporada, eles retornam como tese cantada, como disserta\u00e7\u00e3o com tamborim, como tratado sociol\u00f3gico embalado por surdo. O calend\u00e1rio muda; a voca\u00e7\u00e3o permanece.<\/p>\n<p>Os enredos parecem sempre decididos a resolver o Brasil em tr\u00eas noites. H\u00e1 escola explicando a forma\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria, outra celebrando biomas amea\u00e7ados, uma terceira revisitando personagens hist\u00f3ricos que, at\u00e9 ent\u00e3o, dormiam tranquilos nos livros e como negar a saga dos negros ou a presen\u00e7a ind\u00edgena? O curioso \u00e9 que cada samba come\u00e7a como projeto pedag\u00f3gico e termina como declara\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 pr\u00f3pria comunidade. Entre a introdu\u00e7\u00e3o e o refr\u00e3o, o pa\u00eds inteiro \u00e9 reinterpretado.<\/p>\n<p>O Rio, naturalmente, canta a si mesmo. \u00c9 um narcisismo r\u00edtmico, embalado por bateria afinada. O morro vira epopeia, a avenida vira passarela mitol\u00f3gica, o trabalhador vira her\u00f3i l\u00edrico. Se a hist\u00f3ria oficial \u00e0s vezes \u00e9 \u00e1rida, o samba a irriga com met\u00e1foras. Datas ganham cad\u00eancia, personagens desfilam com plumas e o passado aprende a sambar.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma constante fascinante: o samba de enredo transforma qualquer tema em emo\u00e7\u00e3o coletiva. Pode falar de imp\u00e9rios, de ci\u00eancia, de religiosidade, de minorias esquecidas ou de florestas em perigo. Tudo cabe em versos que precisam ser suficientemente claros para que a arquibancada inteira cante junto e suficientemente sofisticados para convencer jurados atentos \u00e0 m\u00e9trica e \u00e0 harmonia. \u00c9 democracia sob julgamento t\u00e9cnico.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bateria-escola-de-samba.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21825\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bateria-escola-de-samba-450x246.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bateria-escola-de-samba-450x246.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bateria-escola-de-samba-300x164.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bateria-escola-de-samba.jpg 754w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Alguns sambas optam pelo tom \u00e9pico. O Brasil surge como na\u00e7\u00e3o destinada \u00e0 grandeza, povo criativo que supera adversidades com sorriso e ginga. A letra avan\u00e7a como se estivesse redigindo uma Constitui\u00e7\u00e3o alternativa, onde a palavra \u201cesperan\u00e7a\u201d rima com \u201cconfian\u00e7a\u201d e \u201cmudan\u00e7a\u201d. O carnaval, nesses momentos, funciona como Minist\u00e9rio da Utopia.<\/p>\n<p>Outros preferem a via po\u00e9tica. Luas douradas, mares que sussurram, cora\u00e7\u00f5es que batem no compasso da bateria. A escola vira entidade quase m\u00edstica, m\u00e3e generosa, p\u00e1tria particular. O exagero n\u00e3o \u00e9 defeito; \u00e9 m\u00e9todo. No carnaval, ama-se em voz alta, com direito a modula\u00e7\u00e3o e subida de tom.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 os enredos que assumem postura cr\u00edtica. Revisam a hist\u00f3ria pelo avesso, d\u00e3o protagonismo a quem foi esquecido, ironizam vers\u00f5es oficiais. O samba, que muitos tratam como mero entretenimento, revela-se instrumento de leitura do pa\u00eds. Entre uma alegoria e outra, passa uma aula inteira de revis\u00e3o hist\u00f3rica, com mais ritmo do que rancor.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso notar como cada escola se apresenta como guardi\u00e3 da verdadeira identidade nacional. Todas reivindicam autenticidade. Todas se dizem porta-vozes do Brasil profundo. E, no fim, temos v\u00e1rios \u201cBrasis\u201d desfilando lado a lado, \u00e0s vezes em contraste, \u00e0s vezes em harmonia. O que poderia ser conflito torna-se espet\u00e1culo compartilhado.<\/p>\n<p>Do ponto de vista musical, o samba de enredo \u00e9 uma engenharia delicada. Precisa de refr\u00e3o f\u00e1cil, mas n\u00e3o simpl\u00f3rio. Precisa de melodia que suba na hora exata, convocando o p\u00fablico a cantar como se estivesse assinando um manifesto. Se a bateria falha, a magia se dispersa. Se a comunidade n\u00e3o compra a letra, o enredo desmorona. \u00c9 arte coletiva em estado bruto.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que todo samba de enredo soa parecido. Talvez. Mas experimente ficar indiferente quando a bateria entra em un\u00edssono e a avenida inteira vibra. A repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 parte do encanto. O cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m repete batidas e ningu\u00e9m o acusa de falta de originalidade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Tamborim.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21826\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Tamborim-450x299.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Tamborim-450x299.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Tamborim-300x199.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Tamborim-768x510.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Tamborim.webp 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O mais interessante \u00e9 perceber que, ano ap\u00f3s ano, o carnaval insiste em propor um pa\u00eds poss\u00edvel. Um pa\u00eds que reconhece suas dores, mas escolhe cant\u00e1-las. Que revisita seu passado, mas com direito a fantasia e ilumina\u00e7\u00e3o especial. Que discute pol\u00edtica sem abandonar o ritmo.<\/p>\n<p>Enquanto o restante do calend\u00e1rio nos divide em debates inflamados, a Sapuca\u00ed nos convida a cantar a mesma letra. Cada um desafina \u00e0 sua maneira, \u00e9 verdade, mas o coro coletivo suaviza as diferen\u00e7as. O samba-enredo cria uma rara experi\u00eancia de simultaneidade: milhares de vozes repetindo os mesmos versos, ainda que por motiva\u00e7\u00f5es distintas.<\/p>\n<p>Talvez resida a\u00ed sua for\u00e7a hist\u00f3rica. O samba de enredo n\u00e3o \u00e9 apenas trilha sonora de desfile; \u00e9 cr\u00f4nica anual ou permanente do que imaginamos ser. Ele transforma tese em festa, cr\u00edtica em poesia, mem\u00f3ria em espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Se o Brasil real \u00e9 cheio de ru\u00eddos, o Brasil cantado na avenida busca harmonia. Nem sempre alcan\u00e7a, mas insiste. E essa insist\u00eancia, embalada por surdos e tamborins, atravessa d\u00e9cadas. A cada carnaval, renovamos o pacto: contar nossa hist\u00f3ria em tom maior, com final apote\u00f3tico e a esperan\u00e7a, sempre ela, rimando com evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quiumba, curimba, mojub\u00e1 foram algumas express\u00f5es de umbanda do samba do Salgueiro em 2025 Ouvi, com a solenidade de sempre, os sambas de enredo do &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21827,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21824","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21824","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21824"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21824\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21830,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21824\/revisions\/21830"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}