{"id":21817,"date":"2026-02-01T09:38:41","date_gmt":"2026-02-01T12:38:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21817"},"modified":"2026-02-01T09:38:41","modified_gmt":"2026-02-01T12:38:41","slug":"carnaval-desengano-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/carnaval-desengano-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Carnaval (des)engano (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>O carnaval \u00e9 uma dessas inven\u00e7\u00f5es que o mundo inteiro reivindica, mas que o Brasil temperou com alho, pimenta e contradi\u00e7\u00e3o. Dizem que nasceu na Europa, que veio em navios s\u00e9rios, com m\u00e1scaras comportadas e bailes aristocr\u00e1ticos. Pode ser. Mas, ao desembarcar por aqui, perdeu a compostura, tirou o fraque, vestiu plumas e aprendeu a sambar. H\u00e1 quem diga que veio da \u00c1frica, outros dizem \u00e9 origin\u00e1rio da India&#8230; Seja como for, virou outra coisa. Virou nosso&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 carnaval em Veneza, em Nice, em Nova Orleans, em Trinidad Tobago, na Bol\u00edvia. Todos respeit\u00e1veis. Todos fotog\u00eanicos. Mas o brasileiro tem algo que n\u00e3o cabe em cart\u00e3o-postal: ele transpira. Ele mistura. Ele exagera. Aqui, o carnaval n\u00e3o \u00e9 apenas festa, \u00e9 m\u00e9todo de conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Costuma-se dizer que o carnaval \u00e9 a invers\u00e3o do cotidiano. O pobre vira rei, o rei vira piada, o t\u00edmido dan\u00e7a, o sisudo sorri. \u00c9 verdade, mas incompleta. Porque, no Brasil, o carnaval n\u00e3o inverte apenas; ele revela. Ele mostra que aquela rigidez toda do resto do ano \u00e9, em parte, teatro mal ensaiado. Basta um tamborim para que o doutor descubra que sabe requebrar e o severo chefe de fam\u00edlia cante marchinha com rima duvidosa.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo de profundamente democr\u00e1tico na maneira como nos comprimimos na mesma rua, suando a mesma alegria. No bloco, o sobrenome perde import\u00e2ncia, o cargo evapora, o curr\u00edculo n\u00e3o samba melhor que ningu\u00e9m. O que vale \u00e9 o passo, a disposi\u00e7\u00e3o, a capacidade de rir de si mesmo. E nisso somos especialistas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Carnaval-BH.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21821\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Carnaval-BH-450x236.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Carnaval-BH-450x236.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Carnaval-BH-300x157.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Carnaval-BH-768x403.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Carnaval-BH.jpeg 1293w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O brasileiro n\u00e3o precisa de manual para brincar. Ele inventa. Se n\u00e3o h\u00e1 trio el\u00e9trico, improvisa um alto-falante. Se n\u00e3o h\u00e1 fantasia sofisticada, resolve com papel crepom e criatividade. J\u00e1 vi pirata de sand\u00e1lia, Cle\u00f3patra de chinelo e super-her\u00f3i barrigudo defendendo a justi\u00e7a com lata de cerveja na m\u00e3o. A imagina\u00e7\u00e3o aqui n\u00e3o pede autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E os ritmos. Ah, os ritmos. O carnaval brasileiro n\u00e3o fala uma l\u00edngua s\u00f3. Ele \u00e9 poliglota musical. No Rio, o samba desfila com comiss\u00e3o de frente e alegoria; na Bahia, o ax\u00e9 sacode multid\u00f5es em transe coreografado; em Pernambuco, o frevo desafia a ortopedia; em Minas, os blocos reinventam a tradi\u00e7\u00e3o; no interior, marchinhas resistem com letras que zombam da pol\u00edtica, da carestia e do pr\u00f3prio foli\u00e3o. Cada canto do pa\u00eds tem seu sotaque carnavalesco, e todos se entendem no idioma universal do batuque.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso como suportamos o ano inteiro discutindo ferozmente sobre pol\u00edtica, futebol e o pre\u00e7o do caf\u00e9, mas, em fevereiro, conseguimos dividir a mesma cal\u00e7ada sem necessidade de CPI. O sujeito que passou doze meses indignado com o vizinho aceita dividir o isopor e at\u00e9 oferece gelo. A senhora que condena os excessos juvenis dan\u00e7a ao lado do neto fantasiado de unic\u00f3rnio. O carnaval suspende, ainda que provisoriamente, a voca\u00e7\u00e3o nacional para a rixa permanente.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Sior-w-alegria.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21820\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Sior-w-alegria-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Sior-w-alegria-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Sior-w-alegria-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Sior-w-alegria-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Sior-w-alegria.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 exageros. Sempre h\u00e1. O brasileiro tem talento para transformar qualquer modera\u00e7\u00e3o em evento ol\u00edmpico. Bebe al\u00e9m da conta, canta al\u00e9m do tom, promete al\u00e9m do poss\u00edvel. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 uma \u00e9tica impl\u00edcita na folia. Uma pedagogia da conviv\u00eancia. Aprende-se, na marra, a respeitar o espa\u00e7o do outro, a rir quando pisam no seu p\u00e9, a pedir desculpa com confete na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizem que o carnaval \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o. Talvez seja tamb\u00e9m. Mas que bela aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 essa que coloca na mesma avenida o oper\u00e1rio, o empres\u00e1rio, o estudante, a professora e o aposentado, todos igualmente suados e desafinados. Se isso \u00e9 fuga da realidade, \u00e9 uma fuga curiosamente coletiva e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>E h\u00e1 o humor. O brasileiro faz do carnaval um grande editorial cantado. As marchinhas ironizam governos, esc\u00e2ndalos, promessas n\u00e3o cumpridas. O povo ri de si mesmo e dos poderosos com a mesma desenvoltura. \u00c9 uma cr\u00edtica pol\u00edtica de sand\u00e1lia e serpentina. \u00c1cida, mas dan\u00e7ante.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/O-pinto-do-visconde.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21819\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/O-pinto-do-visconde.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/O-pinto-do-visconde.jpg 320w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/O-pinto-do-visconde-300x197.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No fundo, o carnaval brasileiro n\u00e3o \u00e9 apenas festa. \u00c9 ensaio de pa\u00eds poss\u00edvel. Um pa\u00eds onde diferen\u00e7as convivem, onde o riso desarma, onde a rua \u00e9 espa\u00e7o comum e n\u00e3o trincheira. Dura pouco, \u00e9 verdade. Quatro dias passam r\u00e1pido. Mas deixam uma lembran\u00e7a inc\u00f4moda: se conseguimos nos entender ao som de um surdo, talvez o problema n\u00e3o seja a impossibilidade de conviv\u00eancia, e sim a falta de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Quando a quarta-feira chega e o mundo volta a usar gravata, algo permanece. Uma mem\u00f3ria corporal de que j\u00e1 estivemos juntos sem nos devorar. Talvez seja essa a grande heran\u00e7a do carnaval brasileiro: mostrar, com ironia e purpurina, que a democracia tamb\u00e9m pode sambar.<\/p>\n<p>E se o ano insiste em nos dividir, fevereiro nos recorda, com otimismo barulhento, que ainda sabemos dan\u00e7ar lado a lado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carnaval \u00e9 uma dessas inven\u00e7\u00f5es que o mundo inteiro reivindica, mas que o Brasil temperou com alho, pimenta e contradi\u00e7\u00e3o. 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