{"id":21752,"date":"2025-11-23T09:55:15","date_gmt":"2025-11-23T12:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21752"},"modified":"2025-11-23T09:55:15","modified_gmt":"2025-11-23T12:55:15","slug":"silvio-tendler-e-o-inventario-da-amizade-jose-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/silvio-tendler-e-o-inventario-da-amizade-jose-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"SILVIO TENDLER E O INVENT\u00c1RIO DA AMIZADE ( Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Mestre Sebe e Silvio Tendler sob a bandeira que representa a utopia que reune muitos amigos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Recordo-me com um misto de saudade e dor de uma conversa que tive com meu amigo rec\u00e9m-falecido, o cineasta Silvio Tendler. Era uma tarde quente. Ap\u00f3s algum trabalho em comum, deixamos o papo fluir, leve como o sol que fugia no horizonte. Naturalmente, falamos sobre amizade. Entre emocionado e contente, Silvio resumiu sua filosofia com uma frase poderosa: <em>\u201cO maior elogio que recebi foi de algu\u00e9m que disse ser eu o melhor amigo de muitos amigos.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Essa conversa, arquivada no melhor de minhas mem\u00f3rias, ecoou outras vozes que cantaram esse v\u00ednculo. A sabedoria de Renato Teixeira, outro amigo, pontifica \u201ca amizade \u00e9 um santo rem\u00e9dio, um abrigo seguro\u201d. Ali\u00e1s, diversas m\u00fasicas brasileiras celebram esse sentimento: &#8220;Amigo&#8221; (Roberto Carlos), &#8220;Velha Inf\u00e2ncia&#8221; (Tribalistas) e &#8220;Quem Tem um Amigo, tem tudo&#8221; (Emicida)&#8230; E s\u00e3o tantas&#8230;<\/p>\n<p>No entanto, nenhuma voz ressoou com tanta for\u00e7a quanto a de Vinicius de Moraes, o poeta que mais e melhor desvendou essa rela\u00e7\u00e3o. O <em>&#8220;Soneto do Amigo&#8221;<\/em>, por exemplo<strong>,<\/strong> se inicia com a ternura do reencontro: \u201cEis-me aqui, de retorno, o velho amigo, Depois de tanto erro passado, Tantas retalia\u00e7\u00f5es, tanto perigo, Eis-me de volta, ileso e renovado.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Itapua-rotated.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21753\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Itapua-338x450.jpg\" alt=\"\" width=\"338\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Itapua-338x450.jpg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Itapua-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Itapua-768x1024.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Itapua-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Itapua-rotated.jpg 1512w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Um encontro inesperado com o poetinha em Itapu\u00e3, em Salvador BA, onde Vinicius residiu<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Poucas vezes a poesia alcan\u00e7ou tamanha delicadeza. Vinicius n\u00e3o abre o cora\u00e7\u00e3o para um amor rom\u00e2ntico, mas para um sentimento ainda mais profundo: o la\u00e7o fraterno que sobrevive aos desencontros, ao tempo e \u00e0 pr\u00f3pria vida. O amigo, em seu lirismo, n\u00e3o \u00e9 um anjo de bondade, mas <em>\u201cum bicho igual a mim, simples e humano\u201d<\/em>. Algu\u00e9m que entende, perdoa e at\u00e9 <em>\u201cdisfar\u00e7a com o meu pr\u00f3prio engano\u201d.<\/em> A grandeza est\u00e1 na transpar\u00eancia: o amigo \u00e9 um espelho, um reflexo que <em>multiplica a alma<\/em>, revelando o que h\u00e1 de melhor e de pior em n\u00f3s, e mesmo assim permanece.<\/p>\n<p>Vinicius escreveu sobre o amor com paix\u00e3o incompar\u00e1vel, mas quando tratou da amizade, deixou entrever uma f\u00e9 que ultrapassa o lirismo fugaz: <em>\u201cEu poderia suportar, embora n\u00e3o sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!\u201d<\/em> Essa confiss\u00e3o, tantas vezes repetida, n\u00e3o \u00e9 exagero; \u00e9 revela\u00e7\u00e3o. O amor nasce e morre no fogo das paix\u00f5es; a amizade, ao contr\u00e1rio, \u00e9 rocha, \u00e9 o que fica.<\/p>\n<p>O poeta acreditava que os amigos n\u00e3o se escolhem: <em>\u201cA gente n\u00e3o faz amigos, reconhece-os\u201d<\/em>, ele escreveu. \u00c9 como se as almas, em um plano anterior da exist\u00eancia, tivessem combinado o reencontro. Encontrar um amigo, portanto, \u00e9 apenas lembrar o que j\u00e1 se sabia. Por isso, no soneto, o amigo \u00e9 <em>\u201cnunca perdido, sempre reencontrado\u201d.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JC-e-Silvio-Tendler-2.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21754\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JC-e-Silvio-Tendler-2-338x450.jpeg\" alt=\"\" width=\"338\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JC-e-Silvio-Tendler-2-338x450.jpeg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JC-e-Silvio-Tendler-2-225x300.jpeg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JC-e-Silvio-Tendler-2-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JC-e-Silvio-Tendler-2.jpeg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>JC Sebe e aquele \u201cser que a vida n\u00e3o explica\u201d, um espelho que multiplicava generosidade e paix\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A amizade, no universo viniciano, \u00e9 essa perman\u00eancia misteriosa. N\u00e3o importa a dist\u00e2ncia, os sil\u00eancios ou os desencontros: o la\u00e7o continua vivo. H\u00e1 sempre o <em>\u201colhar antigo\u201d<\/em> que nos acolhe como se o tempo n\u00e3o tivesse existido. O amigo verdadeiro \u00e9 aquele que v\u00ea a nossa ess\u00eancia, mesmo quando a vida nos muda ou nos fere. Talvez por isso Vinicius a tenha definido de forma t\u00e3o simples e definitiva: <em>\u201cUm ser que a vida n\u00e3o explica\u201d.<\/em> N\u00e3o \u00e9 um sentimento racional, \u00e9 destino.<\/p>\n<p>No fundo, o que o poeta nos ensina \u00e9 que a amizade \u00e9 o amor que n\u00e3o precisa de prova. \u00c9 o abrigo da alma, o riso que permanece depois das l\u00e1grimas, o reencontro que n\u00e3o exige explica\u00e7\u00f5es. O amor pode arder e acabar; o amigo, esse n\u00e3o. Vinicius, o bo\u00eamio de alma generosa, entendeu como poucos que a amizade \u00e9 o verdadeiro milagre da vida. N\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio, \u00e9 uma morada. E assim, ele nos legou a mais terna das certezas: os amores podem morrer, mas os amigos s\u00e3o eternos.<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente nessa certeza de eternidade que a lembran\u00e7a de Silvio Tendler se torna mais luminosa. O elogio que ele recebeu, ser o melhor amigo de muitos amigos, era a prova viva de que ele encarnava a filosofia viniciana. Silvio n\u00e3o apenas fez amigos; ele os reconheceu e os cultivou com uma lealdade incur\u00e1vel. Ele foi, para tantos, aquele <em>\u201cser que a vida n\u00e3o explica\u201d<\/em>, um espelho que multiplicava generosidade e paix\u00e3o. E sempre nos fazia rir&#8230;<\/p>\n<p>Sua partida foi dolorosa, mas, seguindo a l\u00f3gica do poeta, sua amizade n\u00e3o est\u00e1 perdida; ela permanece <em>reencontrada<\/em> em cada obra que deixou, em cada hist\u00f3ria que contou e, principalmente, na alma de cada amigo que ele ajudou a multiplicar. O fio que Vinicius teceu sobre a perman\u00eancia dos la\u00e7os fraternos mant\u00e9m o nosso amigo, Silvio, vivo na ess\u00eancia do que ele foi: um homem cujo cora\u00e7\u00e3o era um vasto e inesquec\u00edvel porto seguro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mestre Sebe e Silvio Tendler sob a bandeira que representa a utopia que reune muitos amigos Recordo-me com um misto de saudade e dor de &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21755,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21752","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21752","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21752"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21752\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21756,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21752\/revisions\/21756"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21755"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}