{"id":21730,"date":"2025-11-16T09:19:28","date_gmt":"2025-11-16T12:19:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21730"},"modified":"2025-11-16T09:22:42","modified_gmt":"2025-11-16T12:22:42","slug":"o-poder-dos-apelidos-na-politica-brasileira-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-poder-dos-apelidos-na-politica-brasileira-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O PODER DOS APELIDOS NA POL\u00cdTICA BRASILEIRA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Doutor&#8221;, O Velho&#8221;, &#8220;Geg\u00ea&#8221; foram alguns dos apelidos de Get\u00falio Vargas, o \u00a0&#8220;Pai dos Pobres&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No Brasil, apelidos s\u00e3o muito mais do que simples redu\u00e7\u00f5es de nomes: s\u00e3o instrumentos de aproxima\u00e7\u00e3o, s\u00e1tira, cr\u00edtica e afeto. A mania de apelidar \u00e9 uma esp\u00e9cie de v\u00edcio nacional, heran\u00e7a de uma sociabilidade que desconfia da solenidade. Entre n\u00f3s, ningu\u00e9m escapa da arte de \u201cbatizar de novo\u201d, da fam\u00edlia \u00e0 pol\u00edtica, do boteco \u00e0 presid\u00eancia. \u00c9 o modo brasileiro de afirmar intimidade e, ao mesmo tempo, exercer julgamento.<\/p>\n<p>Desde os tempos coloniais, os apelidos servem como espelho da cultura popular. \u00c0s vezes s\u00e3o diminutivos ternos: \u201cnen\u00ea\u201d, \u201cdindinha\u201d, \u201cvoinha\u201d, outras, express\u00f5es de ironia: \u201cZ\u00e9 Cachorro\u201d, \u201cMan\u00e9 Burro\u201d, \u201cBode Velho\u201d. Os bichos, as deforma\u00e7\u00f5es carinhosas e as goza\u00e7\u00f5es s\u00e3o ingredientes da nossa gram\u00e1tica afetiva. Nomear \u00e9 criar uma rela\u00e7\u00e3o, e apelidar \u00e9 dar-lhe cor e sabor.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, isso se torna ainda mais revelador. A forma como o povo chama seus governantes diz muito sobre a temperatura emocional do pa\u00eds. Get\u00falio Vargas, por exemplo, foi \u201cO Doutor\u201d entre os pr\u00f3ximos, \u201cO Velho\u201d para os opositores e \u201cGeg\u00ea\u201d para o povo. Esse apelido traduzia um sentimento de proximidade que o transformava de ditador em \u201cpai dos pobres\u201d. A ternura do \u201cGeg\u00ea\u201d neutralizava a frieza do \u201cVargas\u201d, como se o nome formal fosse uma coura\u00e7a e o apelido, um abra\u00e7o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JK-jpeg.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21731\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JK-jpeg-450x301.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"301\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JK-jpeg-450x301.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JK-jpeg-300x201.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/JK-jpeg.jpg 630w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O mineiro Juscelino sempre foi o &#8220;JK&#8221;, criador de Bras\u00edlia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Outros seguiram esse ritual da familiaridade: Juscelino era \u201cJK\u201d, mas tamb\u00e9m \u201cJuscelino\u201d, dito com leveza; J\u00e2nio, apenas \u201cJ\u00e2nio\u201d; Itamar, simplesmente \u201cItamar\u201d. Jo\u00e3o Goulart tornou-se \u201cJango\u201d, apelido que cabia em qualquer conversa de botequim e refletia seu modo af\u00e1vel. J\u00e1 Fernando Henrique Cardoso, com seu \u201cFHC\u201d, soava distante, quase corporativo, como um c\u00f3digo de barras. E Collor, sem apelido, permaneceu frio, eleito pelo povo, mas sem alma popular. A aus\u00eancia de apelido, nesse caso, foi o apelido m\u00e1ximo: o do desamor.<\/p>\n<p>Durante a ditadura militar, a formalidade dominou. Castello Branco, Costa e Silva, M\u00e9dici, Geisel, Figueiredo, nomes longos, duros, de quartel. O sobrenome, usado como bras\u00e3o, servia de escudo contra qualquer tentativa de familiaridade. Figueiredo chegou a pedir que o chamassem de \u201cJo\u00e3o\u201d, mas ningu\u00e9m ousou. O pa\u00eds, ent\u00e3o, falava com os generais, n\u00e3o com os homens.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Jango-e-Maria-Thereza-13-mar-1964.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21732\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Jango-e-Maria-Thereza-13-mar-1964-450x276.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Jango-e-Maria-Thereza-13-mar-1964-450x276.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Jango-e-Maria-Thereza-13-mar-1964-300x184.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Jango-e-Maria-Thereza-13-mar-1964-768x472.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Jango-e-Maria-Thereza-13-mar-1964.jpg 814w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Jango e sua esposa Maria Thereza no com\u00edcio de de 13 de mar\u00e7o de 1964<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Com o retorno da democracia, a pol\u00edtica voltou a ganhar apelidos de verdade. E foi ent\u00e3o que surgiu um caso singular: Luiz In\u00e1cio da Silva, o \u201cLula\u201d. Diferente dos anteriores, \u201cLula\u201d n\u00e3o nasceu do marketing nem da imprensa, mas da luta sindical, das portas de f\u00e1brica, do ch\u00e3o do povo. O apelido veio antes do poder. Tornou-se s\u00edmbolo de origem e resist\u00eancia. Quando chegou \u00e0 presid\u00eancia, o apelido sobreviveu. Ningu\u00e9m o chama de \u201cLuiz In\u00e1cio\u201d; \u00e9 \u201cLula\u201d at\u00e9 para os que o detestam<\/p>\n<p>No outro extremo, Jair Bolsonaro transformou seu nome em marca. Diferente de Lula, o apelido \u201cMito\u201d n\u00e3o nasceu nas ruas, mas nos escrit\u00f3rios de marketing pol\u00edtico. Foi um artif\u00edcio fabricado para erguer uma figura sobre-humana, imune a falhas. \u201cMito\u201d n\u00e3o \u00e9 apelido \u00e9 um r\u00f3tulo de venera\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do afeto espont\u00e2neo de \u201cGeg\u00ea\u201d ou da intimidade de \u201cJango\u201d, \u201cMito\u201d \u00e9 palavra que imp\u00f5e dist\u00e2ncia, n\u00e3o aproxima. \u00c9 um t\u00edtulo sacralizado, forjado para substituir o homem pela lenda.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Lula.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21733\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Lula-450x296.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Lula-450x296.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Lula-300x197.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Lula-768x505.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Lula.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Lula, de origem sindical, era o &#8220;Baiano&#8221; para os mais chegados<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ainda assim, a for\u00e7a da cultura popular n\u00e3o perdoa exageros. O mesmo povo o converteu, nos memes. O apelido virou espelho invertido: quanto mais os fi\u00e9is o entoavam em tom messi\u00e2nico, mais os cr\u00edticos o transformavam em deboche. O pr\u00f3prio cl\u00e3 Bolsonaro tentou reproduzir a f\u00f3rmula com os filhos numerados: \u201c01\u201d, \u201c02\u201d, \u201c03\u201d, \u201c04\u201d, mas o Brasil, irreverente como sempre, respondeu com o humor que lhe \u00e9 natural. Eduardo virou \u201cBananinha\u201d, um apelido que, entre zombaria e duplo sentido, gruda com a for\u00e7a do rid\u00edculo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Bolsonaro-mito.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21734\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Bolsonaro-mito-368x450.jpg\" alt=\"\" width=\"368\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Bolsonaro-mito-368x450.jpg 368w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Bolsonaro-mito-246x300.jpg 246w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Bolsonaro-mito-768x938.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Bolsonaro-mito-1257x1536.jpg 1257w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Bolsonaro-mito-1676x2048.jpg 1676w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Bolsonaro-mito.jpg 1786w\" sizes=\"auto, (max-width: 368px) 100vw, 368px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Mito&#8221; foi um apelido que n\u00e3o veio das ruas e n\u00e3o pegou<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Enquanto isso, Lula permaneceu sendo Lula \u2014 apelido que j\u00e1 se confunde com o nome do pa\u00eds. A diferen\u00e7a entre \u201cLula\u201d e \u201cMito\u201d \u00e9 a mesma que existe entre o apelido que nasce do afeto e o que \u00e9 imposto pela propaganda. Um \u00e9 humano, o outro \u00e9 de m\u00e1rmore. Lula \u00e9 o trabalhador que virou presidente. Bolsonaro \u00e9 o personagem que tentou virar mito, mas terminou reduzido a caricatura. No fim das contas, os apelidos continuam sendo a mais precisa ferramenta de an\u00e1lise social do Brasil.<\/p>\n<p>Se a hist\u00f3ria ensina algo, \u00e9 que nenhum pol\u00edtico sobrevive sem apelido, mas s\u00f3 os verdadeiros resistem no cora\u00e7\u00e3o do povo. E, nesse quesito, o Brasil continua mestre em dar nome aos bois, com ironia, afeto e precis\u00e3o cir\u00fargica. Afinal, por aqui, o apelido nunca \u00e9 apenas um nome: \u00e9 um veredito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Doutor&#8221;, O Velho&#8221;, &#8220;Geg\u00ea&#8221; foram alguns dos apelidos de Get\u00falio Vargas, o \u00a0&#8220;Pai dos Pobres&#8221; No Brasil, apelidos s\u00e3o muito mais do que simples redu\u00e7\u00f5es &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21735,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21730","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21730","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21730"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21730\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21740,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21730\/revisions\/21740"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21730"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21730"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21730"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}