{"id":21700,"date":"2025-10-19T08:49:49","date_gmt":"2025-10-19T11:49:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21700"},"modified":"2025-10-19T08:49:49","modified_gmt":"2025-10-19T11:49:49","slug":"o-frio-da-razao-o-calor-da-audacia-a-licao-vital-de-amsterda-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-frio-da-razao-o-calor-da-audacia-a-licao-vital-de-amsterda-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O frio da raz\u00e3o, o calor da aud\u00e1cia: a li\u00e7\u00e3o vital de Amsterd\u00e3 (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para Manuela, Lucas e (claro)\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>\u00a0para meu bisneto Romeu<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Amsterd\u00e3 n\u00e3o \u00e9 apenas uma cidade; \u00e9 uma tese arquitet\u00f4nica flutuante, um ensaio vivo sobre a conviv\u00eancia humana. Desenhada por canais que serpenteiam a hist\u00f3ria em curvas provocantes, ela se apresenta ao visitante como uma imagem de postal g\u00e9lido e impec\u00e1vel. As levas de bicicletas deslizam silenciosas sobre pontes estreitas, e a luz do outono, quando rompe a n\u00e9voa \u00famida, reflete um dourado p\u00e1lido nas fachadas estreitas e inclinadas das casas do s\u00e9culo XVII, XVIII, XIX e dos dias de hoje. H\u00e1 uma beleza estoica e geom\u00e9trica neste lugar, uma serenidade que a torna inegavelmente linda: arrebatadora, diria. De certa forma, \u00e9 como se entr\u00e1ssemos em um daqueles contos de fada.<\/p>\n<p>Mas, sob o c\u00e9u de chumbo e a brisa cortante do Mar do Norte, reside uma contradi\u00e7\u00e3o vital: o frio do clima contrasta com o calor da aud\u00e1cia. Esta dualidade n\u00e3o \u00e9 est\u00e9tica, \u00e9 filos\u00f3fica. Amsterd\u00e3 exala uma coragem moral que desarma e inspira, expondo as fissuras nas certezas das sociedades convencionais. \u00c9 aqui, nesse palco de toler\u00e2ncia met\u00f3dica, que se encontram algumas das mais importantes e polarizadoras experi\u00eancias da modernidade ocidental.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Casas-Amsterda-jpeg.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21701\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Casas-Amsterda-jpeg-450x243.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Casas-Amsterda-jpeg-450x243.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Casas-Amsterda-jpeg-300x162.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Casas-Amsterda-jpeg-768x414.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Casas-Amsterda-jpeg.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A Holanda, como na\u00e7\u00e3o, \u00e9 notavelmente liberal, mas \u00e9 Amsterd\u00e3 que se torna o laborat\u00f3rio, o epicentro onde essa liberalidade se traduz em pol\u00edticas p\u00fablicas que fariam qualquer sociedade mais r\u00edgida estremecer. A cidade foi pioneira na legaliza\u00e7\u00e3o do aborto e, mais notavelmente, na profissionaliza\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o e na pol\u00edtica de uso controlado de drogas (embora o <em>coffeeshop<\/em> seja uma experi\u00eancia especificamente holandesa, \u00e9 na capital que ela adquire sua maior visibilidade global). Tais realidades, expostas sem pudor nos seus not\u00f3rios distritos, causam espanto, choque ou repulsa para sociedades mais conservadoras \u2013 como a brasileira.<\/p>\n<p>No entanto, ignorar essas realidades ou classific\u00e1-las como mera decad\u00eancia moral (ou capital de todos os pecados) \u00e9 perder a grande li\u00e7\u00e3o de Amsterd\u00e3. Tais escolhas n\u00e3o s\u00e3o acidentais; s\u00e3o frutos de uma profunda e fria reflex\u00e3o racional sobre o papel do Estado, a liberdade individual e, acima de tudo, a supera\u00e7\u00e3o da mera toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em muitos lugares do mundo, &#8220;toler\u00e2ncia&#8221; significa simplesmente suportar aquilo que n\u00e3o se aprova, mas que se permite existir \u00e0 margem. \u00c9 um ato de paci\u00eancia condescendente e at\u00e9 autorit\u00e1rio. Amsterd\u00e3, ao contr\u00e1rio, demonstra ter avan\u00e7ado para uma esfera superior: a do direito moderno de liberdade. Ao regularizar o trabalho sexual e o consumo de subst\u00e2ncias leves, a cidade n\u00e3o est\u00e1, primariamente, tolerando o v\u00edcio ou a &#8220;imoralidade&#8221;. Est\u00e1, sim, reconhecendo a inevitabilidade de certos comportamentos humanos e optando por retir\u00e1-los da sombra da criminalidade e do controle de m\u00e1fias, trazendo-os para a luz da legisla\u00e7\u00e3o, da fiscaliza\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e da tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa abordagem pragm\u00e1tica revela uma maturidade pol\u00edtica impressionante. Ela entende que a proibi\u00e7\u00e3o raramente elimina o problema; ela apenas o empurra para as margens, onde se torna mais violento e incontrol\u00e1vel. Ao transformar a prostitui\u00e7\u00e3o em profiss\u00e3o regulamentada, por exemplo, o Estado n\u00e3o a glorifica, mas confere direitos trabalhistas e prote\u00e7\u00e3o policial \u00e0s trabalhadoras, minando a atua\u00e7\u00e3o de cafet\u00f5es e o tr\u00e1fico humano \u2013 quest\u00f5es infinitamente mais graves do que a moralidade do ato em si.<\/p>\n<p>Em poucos dias, o visitante percebe que a aud\u00e1cia de Amsterd\u00e3 n\u00e3o \u00e9 um carnaval irrespons\u00e1vel, mas uma <strong>responsabilidade legalista<\/strong>. A liberdade aqui \u00e9 administrada com a precis\u00e3o de um rel\u00f3gio holand\u00eas. \u00c9 essa combina\u00e7\u00e3o quase paradoxal de racionalidade fria e coragem social que faz dela um ponto vital de reflex\u00e3o sobre a modernidade. A cidade nos obriga a perguntar: o que \u00e9 mais moderno \u2013 manter um comportamento socialmente desaprovado na ilegalidade, onde prosperam a viol\u00eancia e a doen\u00e7a, ou traz\u00ea-lo para a legalidade, limitando seus danos e garantindo direitos?<\/p>\n<div id=\"attachment_21702\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Amsterda-Red-Light.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21702\" class=\"size-large wp-image-21702\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Amsterda-Red-Light-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Amsterda-Red-Light-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Amsterda-Red-Light-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Amsterda-Red-Light-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Amsterda-Red-Light.jpg 1303w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-21702\" class=\"wp-caption-text\">AMSTERDAM, NETHERLANDS &#8211; JULY 29, 2015: A board showing the text &#8220;AMSTERDAM RED LIGHT DISTRICT&#8221; in Da Wallen, Amsterdam. It consists of a network of alleys containing approximately three hundred one-room cabins rented by prostitutes.<\/p><\/div>\n<p>Amsterd\u00e3, com suas casas perfeitas e seus canais congelados pela neblina, ensina que a verdadeira liberdade n\u00e3o reside na aus\u00eancia de regras, mas na <strong>escolha de regras que priorizam a redu\u00e7\u00e3o de danos sobre o julgamento moral<\/strong>. \u00c9 uma li\u00e7\u00e3o valiosa: a supera\u00e7\u00e3o da toler\u00e2ncia, trocada pelo direito legal e pela administra\u00e7\u00e3o da liberdade. E \u00e9 por essa coragem, mais do que por sua beleza, que Amsterd\u00e3 permanece como uma capital inesgot\u00e1vel para o pensamento contempor\u00e2neo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Manuela, Lucas e (claro)\u00a0\u00a0para meu bisneto Romeu Amsterd\u00e3 n\u00e3o \u00e9 apenas uma cidade; \u00e9 uma tese arquitet\u00f4nica flutuante, um ensaio vivo sobre a conviv\u00eancia &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21703,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21700","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21700"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21700\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21704,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21700\/revisions\/21704"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}