{"id":21695,"date":"2025-10-15T08:44:40","date_gmt":"2025-10-15T11:44:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21695"},"modified":"2025-10-15T08:44:40","modified_gmt":"2025-10-15T11:44:40","slug":"a-nostalgia-do-giz-e-o-legado-dos-mestres-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-nostalgia-do-giz-e-o-legado-dos-mestres-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A NOSTALGIA DO GIZ E O LEGADO DOS MESTRES (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para Suzana Lopes Salgado Ribeiro<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ser velho professor \u00e9 ter a alma marcada pelo compasso lento e sagrado da educa\u00e7\u00e3o. Foram d\u00e9cadas entregues ao of\u00edcio mais essencial do mundo, e no fundo de mim sei que n\u00e3o saberia ser outra coisa na vida. Se hoje meu cora\u00e7\u00e3o se enche de gratid\u00e3o pelos meus alunos \u2013 centenas de rostos que se tornaram adultos e seguiram seus caminhos, alguns at\u00e9 para a \u00e1rea do ensino \u2013, neste Dia dos Professores, toda a minha vis\u00e3o se volta para aqueles que me legaram a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o: meus velhos mestres.<\/p>\n<p>Nunca me ajustei ao termo \u201cmestre\u201d. A palavra rever\u00eancia exagerada me soa quase par\u00f3dia. Mas, ao juntar as pontas de minha jornada, percebo que meus professores faziam parte de algo maior, uma verdadeira linhagem de mediadores do futuro. Eles n\u00e3o foram apenas funcion\u00e1rios; eram seres singular\u00edssimos que conseguiam, com a for\u00e7a de sua personalidade, provocar um deslumbramento genu\u00edno nos estudantes.<\/p>\n<p>Sobre eles, constru\u00edamos mitologias. Lembro-me de uma professora de Literatura, que usava echarpes dram\u00e1ticas como se estivesse sempre prestes a subir ao palco. Recordo-me do professor de Hist\u00f3ria, com seus cabelos empastados de brilhantina e uma frieza amedrontadora, como se os fatos do passado estivessem sob julgamento de hoje. E como esquecer do professor de Matem\u00e1tica, que parecia medir o apocalipse em n\u00fameros e f\u00f3rmulas? Ali\u00e1s, esse professor padeceu a fatalidade de um ataque mortal em plena aula. Eram todos eternizados por seus cigarros, seus gestos enf\u00e1ticos, tiques, roupas que se tornavam a marca de uma alma \u00fanica. Foram seres distintos em uma \u00e9poca em que ser singular era, paradoxalmente, a regra de ouro da autenticidade. E d\u00e1vamos apelidos deliciosos, declin\u00e1vamos lendas e eles se consagravam em nosso imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-giz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21697\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-giz-450x220.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-giz-450x220.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-giz-300x146.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-giz.jpg 615w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Minha gera\u00e7\u00e3o de professores, por\u00e9m, viu essa gra\u00e7a se esvair. De repente, todos pareciam ter perdido suas marcas ex\u00f3ticas: o mesmo corte de cabelo funcional, os mesmos olhares comedidos, a roupa sem hist\u00f3ria. Perdeu-se a deliciosa e produtiva excentricidade. Contudo, \u00e9ramos ainda, \u00e0 nossa maneira, far\u00f3is alongados, pois a miss\u00e3o nos envolvia em um halo de prop\u00f3sito presencial e intransfer\u00edvel.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a mais crucial entre meus mestres e o que se exigiu da minha gera\u00e7\u00e3o residia na alma da pedagogia. Eles n\u00e3o estavam obcecados em nos preparar para o capitalismo exigente de profissionais capacitados. Eles eram, acima de tudo, humanistas. Preocupavam-se menos em nos transformar em m\u00e1quinas eficientes e mais em nos forjar como cidad\u00e3os \u00edntegros. A nota era um detalhe lateral; a forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter, a prioridade absoluta.<\/p>\n<p>Nossa gera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, assistiu \u00e0 ascens\u00e3o do vestibular ao posto de meta suprema. A seria\u00e7\u00e3o de aprovados passou a reger o valor das escolas. A educa\u00e7\u00e3o virou uma corrida de campe\u00f5es, e o professor, um mero treinador. Foi a grande quebra de encanto que testemunhei: o saber deixou de ser um fim em si mesmo para se tornar uma ferramenta para vencer o outro, para chegar primeiro, para ser l\u00edder a qualquer custo.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 ao voltar minha lente anal\u00edtica ao presente que a nostalgia se torna uma dor f\u00edsica. Vejo o professor de hoje, em sua maioria, desprestigiado e mal pago, perdedor de sua luz natural, compelido a uma uniformidade desesperan\u00e7osa. A luta pela sobreviv\u00eancia, pela carga hor\u00e1ria extra e pela burocracia excessiva, os aproxima em uma irmandade sem charme. O of\u00edcio perdeu sua aura social e \u00e9, hoje, mais heroico do que po\u00e9tico.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Paulo-Freire.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21698\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Paulo-Freire-450x450.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Paulo-Freire-450x450.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Paulo-Freire-300x300.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Paulo-Freire-150x150.jpeg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Paulo-Freire-80x80.jpeg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Paulo-Freire-360x360.jpeg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Paulo-Freire.jpeg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>E ent\u00e3o, fecho os olhos e vejo meus velhos mestres. Sinto o calor de sua paix\u00e3o, a firmeza de seu prop\u00f3sito. Imagino os professores deles, talvez ainda mais austeros, mas igualmente movidos por uma f\u00e9 inabal\u00e1vel no poder da educa\u00e7\u00e3o. O que nos unia, e o que eles me deixaram, n\u00e3o foi um m\u00e9todo, mas uma chama imaterial: o entendimento de que educar \u00e9 um ato de resist\u00eancia contra a mediocridade e o pragmatismo vazio.<\/p>\n<p>Eles me ensinaram que a verdadeira voca\u00e7\u00e3o est\u00e1 em provocar, em incomodar, em desorganizar a certeza dos jovens para que eles construam um pensamento cr\u00edtico. Hoje, enquanto celebro a data, n\u00e3o lamento o tempo que passou, mas a perda de um modelo onde o professor era, acima de tudo, um indiv\u00edduo livre, cuja dedica\u00e7\u00e3o era o reflexo de um valor inestim\u00e1vel dado \u00e0 sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta homenagem silenciosa, sinto que o \u00fanico legado que posso honrar \u00e9 prosseguir a busca daquela gra\u00e7a perdida, aquela fa\u00edsca de originalidade que fazia de cada aula um evento e de cada mestre, um ser inesquec\u00edvel. \u00c9 na mem\u00f3ria dos nossos velhos mestres que encontro a coragem para acender a luz da dignidade em um presente que insiste em ofusc\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Suzana Lopes Salgado Ribeiro Ser velho professor \u00e9 ter a alma marcada pelo compasso lento e sagrado da educa\u00e7\u00e3o. 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