{"id":21678,"date":"2025-09-28T09:01:13","date_gmt":"2025-09-28T12:01:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21678"},"modified":"2025-09-28T09:02:27","modified_gmt":"2025-09-28T12:02:27","slug":"ninguem-primeiro-tradicao-das-contradicoes-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/ninguem-primeiro-tradicao-das-contradicoes-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"NINGU\u00c9M PRIMEIRO: TRADI\u00c7\u00c3O DAS CONTRADI\u00c7\u00d5ES (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para meu amigo Evaldo Vieira<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>Uma visita que fiz a Barcelona em 2005, para al\u00e9m do esperado encontro acad\u00eamico, se transformou em uma imers\u00e3o na complexa e vibrante geografia pol\u00edtica da cidade. Longe dos roteiros tur\u00edsticos, fui conduzido por colegas a uma zona de conhecimento inesperado: um encontro organizado pela Virus Editorial, uma casa publicadora de livros devotada \u00e0s causas anarquistas. A experi\u00eancia foi uma verdadeira jornada, daquelas que questionam certezas e for\u00e7am a reflex\u00e3o. Mais que a distribui\u00e7\u00e3o gratuita de livros e as falas libert\u00e1rias, o que me capturou a aten\u00e7\u00e3o foi um painel com frases soltas, verdadeiros manifestos de resist\u00eancia. A an\u00e1lise dessas assertivas me for\u00e7ou a confrontar as profundas contradi\u00e7\u00f5es de um projeto anarquista que busca florescer em uma sociedade estruturalmente capitalista.<\/p>\n<p>A primeira frase, \u201cmais vale um mau livro que livro nenhum\u201d, atingiu-me como um aforismo. A princ\u00edpio, o senso comum acad\u00eamico, t\u00e3o afeito \u00e0 curadoria e \u00e0 valida\u00e7\u00e3o da qualidade, exigiu um momento de medita\u00e7\u00e3o. Mas, com a ajuda de um caf\u00e9, a clareza veio. A frase n\u00e3o era sobre a est\u00e9tica ou a erudi\u00e7\u00e3o da obra, mas sobre o ato pol\u00edtico da dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento. Em um mundo onde o livro \u00e9 uma mercadoria, onde o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o \u00e9 mediado pelo pre\u00e7o e o lucro do mercado editorial, a prioridade n\u00e3o \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o, mas a exist\u00eancia. Um &#8220;mau livro&#8221; que circula livremente e alcan\u00e7a as m\u00e3os de muitos \u00e9 uma vit\u00f3ria incontest\u00e1vel sobre o \u201clivro nenhum\u201d que permanece inacess\u00edvel na prateleira de uma livraria, com um pre\u00e7o proibitivo. Era uma declara\u00e7\u00e3o de guerra contra a comodifica\u00e7\u00e3o do saber, defendendo que o valor de um livro reside em sua capacidade de semear ideias, e n\u00e3o em seu valor de mercado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Simbolo-anarquista.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21680\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Simbolo-anarquista-450x363.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Simbolo-anarquista-450x363.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Simbolo-anarquista-300x242.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Simbolo-anarquista-768x620.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Simbolo-anarquista.jpg 811w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Satisfeito com o desdobramento da primeira afirmativa, meu senso de seguran\u00e7a desmoronou diante da segunda, mais arrebatadora: \u201cningu\u00e9m primeiro\u201d. A frase, concisa e radical, demandou outro caf\u00e9 e me lan\u00e7ou a um turbilh\u00e3o de perguntas. Falava-se de uma competi\u00e7\u00e3o sem vencedores? Do fim das aparelhagens de concorr\u00eancia que moldam o capitalismo? Ou seria uma cr\u00edtica mordaz \u00e0 meritocracia? A resposta, em sua ess\u00eancia, parecia ser todas as anteriores. A afirma\u00e7\u00e3o \u201cningu\u00e9m primeiro\u201d \u00e9 a mais pura nega\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica capitalista de acumula\u00e7\u00e3o e hierarquia. Em um sistema que celebra o \u201cvencedor\u201d, o \u201cpioneiro\u201d, o \u201cempreendedor de sucesso\u201d, essa frase \u00e9 um ato de subvers\u00e3o. Ela n\u00e3o defende que todos sejam \u201csegundos\u201d, como a l\u00f3gica bin\u00e1ria do mercado sugeriria, mas que se dissolva a pr\u00f3pria ideia de uma corrida. O objetivo n\u00e3o \u00e9 ser melhor que o outro, mas construir coletivamente. A \u00eanfase \u00e9 na horizontalidade, na autogest\u00e3o e na colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua.<\/p>\n<p>No entanto, a mais profunda reflex\u00e3o sobre o projeto da Virus Editorial reside na sua contradi\u00e7\u00e3o existencial. Um projeto anarquista, por defini\u00e7\u00e3o, op\u00f5e-se \u00e0s estruturas de poder e ao sistema capitalista. Mas como uma editora, por mais alternativa que seja, sobrevive sem entrar em contato com o mercado? Eles precisam de papel, tinta, equipamentos, e os alugu\u00e9is em Barcelona, mesmo para espa\u00e7os ocupados, implicam custos e negocia\u00e7\u00f5es. A pr\u00f3pria distribui\u00e7\u00e3o de livros, mesmo que gratuita, exige uma infraestrutura que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, se apoia sobre o sistema que busca subverter. A Virus Editorial se encontra em uma aporia: para resistir ao capitalismo, ela precisa existir em seu interior, navegando e negociando com suas regras, mesmo que de forma simb\u00f3lica. O paradoxo \u00e9 o seu motor: a resist\u00eancia se d\u00e1 no ato de criar uma brecha dentro do sistema, um pequeno enclave de valores coletivistas em meio a um oceano de individualismo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Eleicao-e-fersa.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21681\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Eleicao-e-fersa-428x450.webp\" alt=\"\" width=\"428\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Eleicao-e-fersa-428x450.webp 428w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Eleicao-e-fersa-285x300.webp 285w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Eleicao-e-fersa.webp 684w\" sizes=\"auto, (max-width: 428px) 100vw, 428px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Essa tens\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel em outros espa\u00e7os de Barcelona, como as cooperativas de moradia e os centros autogeridos como Can Batll\u00f3, que transformam f\u00e1bricas abandonadas em <em>hubs<\/em> de cultura e colabora\u00e7\u00e3o. Esses locais s\u00e3o a materializa\u00e7\u00e3o da ideia de \u201cningu\u00e9m primeiro\u201d. Neles, a tomada de decis\u00f5es \u00e9 horizontal, os recursos s\u00e3o compartilhados e o sucesso \u00e9 medido pela vitalidade da comunidade, e n\u00e3o pelo lucro. No entanto, a sobreviv\u00eancia desses projetos \u00e9 uma luta di\u00e1ria contra as for\u00e7as do mercado imobili\u00e1rio e a constante amea\u00e7a da gentrifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia em Barcelona, portanto, foi um lembrete de que o anarquismo n\u00e3o \u00e9 uma utopia distante, mas uma pr\u00e1tica di\u00e1ria de resist\u00eancia, cheia de complexidades. As frases no painel da Virus Editorial n\u00e3o eram meros slogans; eram manifestos radicais contra a meritocracia e a comodifica\u00e7\u00e3o do saber. Elas nos for\u00e7am a questionar o \u201cvencedor\u201d e a celebrar o coletivo, mesmo que a luta para sustentar essa vis\u00e3o seja travada no terreno do pr\u00f3prio inimigo. O projeto de Barcelona \u00e9, assim, uma prova de que a utopia pode ser real, mas que sua exist\u00eancia \u00e9, por ess\u00eancia, uma constante e paradoxal batalha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para meu amigo Evaldo Vieira \u00a0Uma visita que fiz a Barcelona em 2005, para al\u00e9m do esperado encontro acad\u00eamico, se transformou em uma imers\u00e3o na &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21679,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21678","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21678"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21678\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21682,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21678\/revisions\/21682"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21679"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}