{"id":21667,"date":"2025-09-14T09:20:06","date_gmt":"2025-09-14T12:20:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21667"},"modified":"2025-09-14T09:20:06","modified_gmt":"2025-09-14T12:20:06","slug":"viuvo-gracas-a-deus-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/viuvo-gracas-a-deus-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"VIUVO GRA\u00c7AS A DEUS! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Viuvez \u00e9 &#8220;como um oceano de detalhes: o som de um passo, a forma de uma palavra, a textura de uma roupa&#8221; (Roland Barthes)<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Edmauro, meu interlocutor<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 algo estranho em se tornar vi\u00favo: a dor inicial, avassaladora, \u00e9 algo que a sociedade at\u00e9 entende e acolhe. As primeiras semanas s\u00e3o um limbo que a fam\u00edlia e os amigos te cercam, alimentam-te, choram contigo. Voc\u00ea \u00e9 um objeto de luto, e o mundo lhe d\u00e1 o tempo e o espa\u00e7o para que voc\u00ea ocupe esse papel. Mas depois que o passamento se esvai e o tempo come\u00e7a a esticar, o acolhimento social se desfaz. A estranheza reside no fato de que, em uma sociedade que equipara a solid\u00e3o ao sofrimento, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para ser vi\u00favo sem ser, necessariamente, um sofredor.<\/p>\n<p>Voc\u00ea se torna um inc\u00f4modo, um corpo em um lugar onde n\u00e3o deveria estar sozinho. A casa, antes um santu\u00e1rio de duas almas, agora \u00e9 um eco vazio. Voc\u00ea caminha pelos c\u00f4modos e as coisas parecem mudar de lugar por conta pr\u00f3pria. A cadeira favorita, a escova de dentes ao lado da sua, as meias largadas no ch\u00e3o. Tudo carrega um peso que s\u00f3 a aus\u00eancia pode criar. C.S. Lewis, em &#8220;A Sombra do Luto&#8221;, descreve essa experi\u00eancia com uma honestidade brutal: o luto n\u00e3o \u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o \u00fanica, mas uma neblina que distorce a realidade. Ele escreve sobre a dor como algo quase palp\u00e1vel, uma sensa\u00e7\u00e3o de que as entranhas foram reviradas, deixando um vazio doloroso no lugar. \u00c9 quando a press\u00e3o para &#8220;seguir em frente&#8221; come\u00e7a. Com as melhores inten\u00e7\u00f5es, eles sugerem que voc\u00ea saia, conhe\u00e7a pessoas, preencha o &#8220;buraco&#8221;. Eles n\u00e3o veem a sua solid\u00e3o como um estado, mas como um problema a ser resolvido. Eles n\u00e3o entendem que, para voc\u00ea, o sil\u00eancio da casa n\u00e3o \u00e9 vazio, mas preenchido com a mem\u00f3ria de uma presen\u00e7a ausente.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/CS-Lewis.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21668\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/CS-Lewis-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/CS-Lewis-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/CS-Lewis-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/CS-Lewis-768x512.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/CS-Lewis.webp 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>CS Lewis: &#8220;o luto n\u00e3o \u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o \u00fanica, mas uma neblina que distorce a realidade&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Joan Didion, em seu livro &#8220;O Ano do Pensamento M\u00e1gico&#8221;, fala sobre a absurdidade desse per\u00edodo, a nega\u00e7\u00e3o do luto que se manifesta em gestos irracionais. O ato de n\u00e3o doar a roupa do parceiro, a espera inconsciente pelo retorno, a cren\u00e7a m\u00e1gica de que se a casa for mantida como estava, nada realmente mudou. \u00c9 a luta entre a realidade e a mente, que se recusa a aceitar que a hist\u00f3ria do seu amor teve um ponto final. A sociedade, com sua pressa em curar, quer pular essa fase m\u00e1gica e ir direto para a resolu\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1 atalho para a aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O vi\u00favo se torna um estrangeiro em seu pr\u00f3prio ambiente social. Os convites para jantares de casais cessam. Voc\u00ea \u00e9 um lembrete inc\u00f4modo da fragilidade da vida. A sua solid\u00e3o, que para voc\u00ea \u00e9 um estado de introspec\u00e7\u00e3o e, por vezes, at\u00e9 de paz, \u00e9 interpretada por eles como um sinal de que voc\u00ea est\u00e1 &#8220;sofrendo demais&#8221;. H\u00e1 um desconforto coletivo com a ideia de que algu\u00e9m possa estar sozinho sem estar desesperado. Como se a aus\u00eancia do outro n\u00e3o pudesse ser preenchida pela riqueza da pr\u00f3pria mem\u00f3ria. Em &#8220;As Horas Nuas&#8221;, de Lygia Fagundes Telles, h\u00e1 a ideia de que, ap\u00f3s a partida de um grande amor, restam &#8220;horas nuas&#8221; \u2013 um vazio que n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de algo, mas a revela\u00e7\u00e3o do que realmente somos sem a presen\u00e7a do outro. \u00c9 um estado de ser, n\u00e3o um estado de falta. Essa \u00e9 a grande li\u00e7\u00e3o que a sociedade n\u00e3o consegue absorver: o vi\u00favo n\u00e3o \u00e9 um ser incompleto. Ele \u00e9 um ser em processo de reconstru\u00e7\u00e3o, aprendendo a habitar uma solid\u00e3o que pode ser rica.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/lygia-fagundes-telles.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21669\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/lygia-fagundes-telles-450x269.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/lygia-fagundes-telles-450x269.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/lygia-fagundes-telles-300x179.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/lygia-fagundes-telles-768x459.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/lygia-fagundes-telles.webp 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;a partida de um grande amor \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o do que realmente somos sem a presen\u00e7a do outro&#8221; (Lygia F Telles)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Roland Barthes, em seu &#8220;Di\u00e1rio de Luto&#8221;, escreve sobre o luto como um conjunto de fragmentos, notas \u00edntimas sobre o cotidiano da perda de sua m\u00e3e. Ele descreve a dor n\u00e3o como um rio, mas como um oceano de detalhes: o som de um passo, a forma de uma palavra, a textura de uma roupa. A dor est\u00e1 nos pequenos nadas, n\u00e3o nos grandes dramas. O vi\u00favo, ent\u00e3o, aprende a viver entre esses pequenos nadas, reconhecendo a presen\u00e7a do ausente nas min\u00facias da vida.<\/p>\n<p>No fim das contas, a estranheza de ser vi\u00favo \u00e9 que a sua jornada de luto se torna uma jornada para o entendimento de si mesmo, mas em um mundo que prefere te ver como uma pe\u00e7a quebrada. A sociedade quer te consertar, mas voc\u00ea est\u00e1 aprendendo a conviver com as rachaduras. A sua dor \u00e9 s\u00f3 sua, e a sua solid\u00e3o, por mais que tenha vindo da perda, n\u00e3o precisa ser vazia. E \u00e9 nessa descoberta que reside a mais profunda e estranha liberta\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um ser incompleto, apenas um ser que aprendeu a dan\u00e7ar com uma lembran\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viuvez \u00e9 &#8220;como um oceano de detalhes: o som de um passo, a forma de uma palavra, a textura de uma roupa&#8221; (Roland Barthes) Para &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21670,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21667","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21667","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21667"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21667\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21671,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21667\/revisions\/21671"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21670"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}