{"id":21614,"date":"2025-08-10T09:15:46","date_gmt":"2025-08-10T12:15:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21614"},"modified":"2025-08-10T09:15:46","modified_gmt":"2025-08-10T12:15:46","slug":"a-mae-de-odete-roitman-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-mae-de-odete-roitman-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A M\u00c3E DE ODETE ROITMAN (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Odete Roitman\u00a0parece destilar veneno com a eleg\u00e2ncia de uma ta\u00e7a de cristal. Qual seu segredo? Por que essa mulher, t\u00e3o elitista, t\u00e3o cheia de desprezo pelo &#8220;jeito&#8221; brasileiro, t\u00e3o esnobe e implac\u00e1vel, nos prende \u00e0 tela?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga, com ares de fil\u00f3sofos de botequim, que n\u00e3o h\u00e1 nada de novo sob o sol. Pois \u00e9, talvez esses estejam mais perto da verdade do que imaginamos. Tudo se transforma, sim, os cen\u00e1rios, as roupas, os sotaques. Mas a ess\u00eancia, ah, essa parece ter um apego invenc\u00edvel aos seus antigos moldes. O mimetismo, dizem os mais sabidos, \u00e9 um jeito elegante de padronizar tipos e situa\u00e7\u00f5es que, embora mudem de um lugar para outro, de uma era para a outra, guardam no cerne a mesma semente. E isso vem de longe, por exemplo, ocupa um lugar singular na teoria liter\u00e1ria, com pensadores como Georges Polti, que em 1895, em seu &#8220;As 36 Situa\u00e7\u00f5es Dram\u00e1ticas&#8221;, j\u00e1 cravava: h\u00e1 apenas 36 enredos poss\u00edveis em toda a vastid\u00e3o da experi\u00eancia humana. Joseph Campbell, com sua &#8220;Jornada do Her\u00f3i&#8221;, e o pr\u00f3prio Carl Jung, com seus arqu\u00e9tipos dan\u00e7ando no inconsciente coletivo, corroboram a tese: n\u00f3s, humanos, estamos condenados a repetir as mesmas hist\u00f3rias, os mesmos dramas, as mesmas paix\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Capa-livro-de-Polti.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21615\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Capa-livro-de-Polti-282x450.jpg\" alt=\"\" width=\"282\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Capa-livro-de-Polti-282x450.jpg 282w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Capa-livro-de-Polti-188x300.jpg 188w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Capa-livro-de-Polti.jpg 736w\" sizes=\"auto, (max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Para Polti, h\u00e1 apenas 36 enredos poss\u00edveis em toda a vastid\u00e3o da experi\u00eancia humana<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Essas reflex\u00f5es, meio devaneio, meio inc\u00f4modo, vieram me assaltar a mente ao analisar um fen\u00f4meno que insiste em se repetir, fascinante e perturbador: o magnetismo que certas figuras do mal exercem sobre a audi\u00eancia. E n\u00e3o falo de dem\u00f4nios alados ou monstros de contos de fadas, n\u00e3o. Refiro a um mal mais mundano, mais palp\u00e1vel, que tem nome e sobrenome, e que, curiosamente, nos cativa.<\/p>\n<p>Peguemos, por exemplo, a catalizadora <strong>Odete Roitman<\/strong>. Ah, Odete! Aquela que, a cada cena, parece destilar veneno com a eleg\u00e2ncia de uma ta\u00e7a de cristal. Qual seu segredo? Por que essa mulher, t\u00e3o elitista, t\u00e3o cheia de desprezo pelo &#8220;jeito&#8221; brasileiro, t\u00e3o esnobe e implac\u00e1vel, nos prende \u00e0 tela? A sanha de suas maldades, suas hipocrisias finas, os danos que ela causa aos outros n\u00e3o s\u00e3o sanguin\u00e1rios no sentido literal. Ela n\u00e3o empunha facas, n\u00e3o atira. Sua arma \u00e9 a palavra afiada, o desprezo no olhar, a manipula\u00e7\u00e3o calculista. A maldade de Odete \u00e9, acima de tudo, <strong>classista<\/strong>. Um nojo da imperfei\u00e7\u00e3o alheia, uma certeza p\u00e9trea da sua pr\u00f3pria superioridade social e intelectual. Ela \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o de um Brasil que muitos temem, mas que existe, e que se reflete em sua crueldade fria e seu desd\u00e9m pelos &#8220;inferiores&#8221;.<\/p>\n<p>E essa constata\u00e7\u00e3o, a de que Odete Roitman ainda ecoa em nosso imagin\u00e1rio, nos leva a supor outras &#8220;hero\u00ednas&#8221;, m\u00e3es e matriarcas que, na matriz da literatura brasileira, tamb\u00e9m se destacam por exercerem um fasc\u00ednio perverso. As linguagens s\u00e3o, \u00e9 l\u00f3gico, diferentes \u2013 a literatura e a televis\u00e3o \u2013 e os tempos das tramas s\u00e3o outros. Mas a ess\u00eancia, aquela que Georges Polti e Jung tanto estudaram, essa permanece. Aquele fasc\u00ednio pela crueldade, pelo esnobismo, pelo desprezo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Memorias-postumas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21616\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Memorias-postumas-283x450.jpg\" alt=\"\" width=\"283\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Memorias-postumas-283x450.jpg 283w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Memorias-postumas-189x300.jpg 189w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Memorias-postumas.jpg 293w\" sizes=\"auto, (max-width: 283px) 100vw, 283px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Dona Gl\u00f3ria encarna a hipocrisia, o preconceito e a futilidade da elite carioca do s\u00e9culo XIX<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na vastid\u00e3o da nossa literatura, h\u00e1 figuras que compartilham desse DNA, mas uma chama mais a aten\u00e7\u00e3o. Pensemos em <strong>Dona Gl\u00f3ria, de &#8220;Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas&#8221;<\/strong>, de Machado de Assis. Ela n\u00e3o \u00e9 uma vil\u00e3 de folhetim, dessas que esfaqueiam amantes na calada da noite. N\u00e3o. Sua maldade \u00e9 mais sutil, mais machadiana. Dona Gl\u00f3ria encarna a <strong>hipocrisia<\/strong>, o <strong>preconceito<\/strong> e a <strong>futilidade<\/strong> da elite carioca do s\u00e9culo XIX. Ela \u00e9 a matriarca que despreza Br\u00e1s Cubas por sua falta de ambi\u00e7\u00e3o material e que valoriza a apar\u00eancia e as conven\u00e7\u00f5es sociais acima de tudo. Sua crueldade se manifesta na forma como ela manipula os relacionamentos de sua filha, Virg\u00edlia, para garantir um bom casamento, sem considerar os sentimentos que eram, para ela, meros caprichos. H\u00e1 nela um refinado desd\u00e9m por tudo que n\u00e3o se encaixa em seu mundo de apar\u00eancias e status, um eco distante e jeitoso da arrog\u00e2ncia de Odete Roitman pelo &#8220;jeito&#8221; brasileiro e pela classe m\u00e9dia. Ela n\u00e3o mata ou tortura, mas sua frieza calculista e seu desprezo pelas emo\u00e7\u00f5es alheias, em nome das &#8220;boas apar\u00eancias&#8221; e do prest\u00edgio social, s\u00e3o uma forma de crueldade que gela a alma, tal qual um olhar altivo de Odete.<\/p>\n<p>Conectar essas figuras nos faz perceber como a crueldade pode ter m\u00faltiplas faces, transcendendo o derramamento de sangue para atingir as estruturas sociais e psicol\u00f3gicas. O fasc\u00ednio por elas reside, talvez, na nossa pr\u00f3pria confronta\u00e7\u00e3o com a sombra. O mal, quando bem constru\u00eddo, n\u00e3o \u00e9 apenas repulsa; \u00e9 um espelho perturbador de aspectos que preferir\u00edamos n\u00e3o reconhecer em n\u00f3s mesmos ou na sociedade que constru\u00edmos. \u00c9 a velha hist\u00f3ria, recontada de mil maneiras, que nos lembra que a maldade \u00e9, sim, uma das tramas mais antigas e persistentes da face da terra. E, por vezes, a mais sedutora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Odete Roitman\u00a0parece destilar veneno com a eleg\u00e2ncia de uma ta\u00e7a de cristal. Qual seu segredo? Por que essa mulher, t\u00e3o elitista, t\u00e3o cheia de desprezo &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21617,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21614","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21614"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21614\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21618,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21614\/revisions\/21618"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21617"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}