{"id":21571,"date":"2025-07-20T09:21:53","date_gmt":"2025-07-20T12:21:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21571"},"modified":"2025-07-20T09:21:53","modified_gmt":"2025-07-20T12:21:53","slug":"cronica-de-um-copacabanense-apaixonado-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/cronica-de-um-copacabanense-apaixonado-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"CR\u00d4NICA DE UM COPACABANENSE APAIXONADO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Sempre soube que morar no Rio de Janeiro seria uma experi\u00eancia e tanto. Mas ningu\u00e9m me avisou que escolher Copacabana, a \u201cprincesinha do mar\u201d, seria como assinar um contrato inalter\u00e1vel para ser figurante num <em>reality show<\/em> de ver\u00e3o eterno.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando me mudei para um apartamento perto de uma das entradas do bairro. Inocente eu, pensando que seria apenas mais um morador an\u00f4nimo, um cidad\u00e3o aposentado que resolveu gozar a vida. Mal sabia que me tornaria o ponto de apoio n\u00e3o-oficial da di\u00e1spora tur\u00edstica global. Parentes? L\u00f3gico, a casa \u00e9 do tamanho do cora\u00e7\u00e3o. Amigos? Claro, sempre bem-vindos e at\u00e9 me nomeei &#8220;embaixador da amizade&#8221;. Amigos de amigos? Ok, a casa aguenta. Mas quando o cunhado do amigo do porteiro aparece com tr\u00eas mochilas e um &#8220;\u00e9 rapidinho, s\u00f3 vou deixar minhas coisas aqui&#8221;, ou &#8220;posso usar o banheiro&#8221;, voc\u00ea percebe que seu lar virou um lugar oportuno, um dep\u00f3sito de bagagens com vista para o mar.<\/p>\n<p>A praia, aquela faixa de areia que nos cart\u00f5es postais parece um o\u00e1sis de tranquilidade, na realidade \u00e9 um campo de batalha. O morador de Copacabana n\u00e3o vai \u00e0 praia \u2013 ele desembarca nela, como um general t\u00e1tico. Precisa calcular a mar\u00e9, o movimento dos ambulantes, a densidade demogr\u00e1fica em volta dos postos 1 ao 6. Um metro quadrado de areia vale mais que bilhete de viagem interplanet\u00e1ria. E pior: voc\u00ea sabe que aquele espa\u00e7o que conquistou com suor e protetor solar fator 70 ser\u00e1 invadido por um grupo de argentinos armados de &#8220;s\u00ed, s\u00ed, como non&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ppPraia-de-Copacabana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21572\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ppPraia-de-Copacabana-450x254.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ppPraia-de-Copacabana-450x254.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ppPraia-de-Copacabana-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ppPraia-de-Copacabana-768x433.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ppPraia-de-Copacabana-1536x866.jpg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ppPraia-de-Copacabana-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ppPraia-de-Copacabana.jpg 1638w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os eventos s\u00e3o cap\u00edtulos \u00e0 parte nessa epopeia dantesca. Quando anunciam um show na praia, o morador experiente j\u00e1 come\u00e7a a estocar mantimentos, como se preparasse para o apocalipse. Madonna, a rainha do pop que nos presenteou com sucessos globais como &#8220;Like a Virgin&#8221;, arrastou milh\u00f5es. Lady Gaga, a Mother Monster, conhecida por hinos como &#8220;Poker Face&#8221;, nem precisou de um show oficial para ter sua legi\u00e3o de admiradores marcando presen\u00e7a e elevando a frequ\u00eancia sonora do bairro.<\/p>\n<p>E o R\u00e9veillon? Ah, o R\u00e9veillon. A virada do ano n\u00e3o \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma <em>blitzkrieg<\/em>. Aquele bairro com 160 mil habitantes se transforma em uma zona de guerra festiva que acolhe 2 milh\u00f5es de pessoas. Garrafas de espumante voam como granadas, e o banheiro mais pr\u00f3ximo \u00e9 qualquer muro. No dia seguinte, a orla parece cen\u00e1rio de filme p\u00f3s-bombardeio, com restos de churrasquinho e copos descart\u00e1veis. Nem vou falar dos odores, dos apertos e dos celulares que mudam de donos.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio local, sempre esperto, encara a alta temporada como uma licen\u00e7a po\u00e9tica para a criatividade financeira. Aquele caf\u00e9 que custava R$ 3,50 em novembro, em janeiro vira &#8220;expresso artesanal&#8221; a R$ 12. A \u00e1gua de coco sofre uma infla\u00e7\u00e3o que humilharia o governo. E o pior: voc\u00ea, morador, paga o mesmo pre\u00e7o que o turista \u2013 afinal, no carnaval da economia, todos s\u00e3o foli\u00f5es.<\/p>\n<p>O barulho \u00e9 outra constante. Copacabana n\u00e3o dorme \u2013 ela cochila entre um funk \u00e0s 3h e o primeiro helic\u00f3ptero da TV Globo sobrevoando algum evento \u00e0s 6h. Dias de jogo no Maracan\u00e3 transformam a orla num est\u00e1dio ao ar livre, onde torcedores de todos os times (e alguns que nem sabem qual jogo est\u00e1 rolando) discutem futebol em volume de est\u00e1dio. E quando n\u00e3o \u00e9 o futebol, \u00e9 o ensaio da escola de samba, o carro de som pol\u00edtico, o vendedor de queijo coalho que insiste em usar o mesmo <em>jingle<\/em> h\u00e1 15 anos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/caminhar-em-copacabana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21573\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/caminhar-em-copacabana-450x254.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/caminhar-em-copacabana-450x254.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/caminhar-em-copacabana-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/caminhar-em-copacabana-768x433.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/caminhar-em-copacabana.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o, por que insistimos nessa vida? Por que n\u00e3o nos mudamos para algum bairro tranquilo, onde o maior evento da semana \u00e9 a feira org\u00e2nica? Por que n\u00e3o montamos casa na serra? Nos confins de um hotel fazenda? Por que, meu Deus?<\/p>\n<p>Ah, mas a\u00ed vem o passeio no cal\u00e7ad\u00e3o, o sambinha nos quiosques, aquele momento em que o c\u00e9u pega fogo e o mar vira espelho, e por um instante at\u00e9 os vendedores ambulantes fazem sil\u00eancio. Ou a manh\u00e3 de semana fora da temporada, quando a praia \u00e9 s\u00f3 sua e de mais meia d\u00fazia de madrugadores. Ou aquele bar da esquina que conhece seu pedido antes de voc\u00ea abrir a boca.<\/p>\n<p>Copacabana \u00e9 assim: uma rela\u00e7\u00e3o amor-\u00f3dio que voc\u00ea n\u00e3o troca por nada. \u00c9 como aquela paix\u00e3o adolescente \u2013 te enlouquece, te esgota, mas quando pensa em terminar, ela te d\u00e1 um beijo e tudo recome\u00e7a. E voc\u00ea, resignado, aceita seu destino de anfitri\u00e3o involunt\u00e1rio do mundo, sabendo que no fundo \u2013 bem no fundo, entre uma reclama\u00e7\u00e3o e outra \u2013 adora cada minuto desse caos e, confesso, queria que minhas cinzas ficassem por l\u00e1&#8230; para sempre!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre soube que morar no Rio de Janeiro seria uma experi\u00eancia e tanto. Mas ningu\u00e9m me avisou que escolher Copacabana, a \u201cprincesinha do mar\u201d, seria &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21574,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21571","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21571","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21571"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21571\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21575,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21571\/revisions\/21575"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21574"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}