{"id":21565,"date":"2025-07-13T09:43:07","date_gmt":"2025-07-13T12:43:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21565"},"modified":"2025-07-13T09:43:07","modified_gmt":"2025-07-13T12:43:07","slug":"um-gemido-de-desassocego-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/um-gemido-de-desassocego-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"UM GEMIDO DE DESASSOCEGO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cec\u00edlia Meireles perguntou: \u201cem que espelho ficou perdida minha face?\u201d O mundo seria assim mesmo?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Dia desses, o sol nascia enquanto eu me sentava com meu caf\u00e9 e o jornal matinal, um ritual di\u00e1rio que, naquela manh\u00e3, carregava um peso diferente. As manchetes eram como dardos: sessenta e tr\u00eas conflitos armados pelo globo, enquanto nossa aten\u00e7\u00e3o m\u00edope se fixava em apenas um ou dois. O mundo parecia um vasto inc\u00eandio, e n\u00f3s, presos em gaiolas douradas.<\/p>\n<p>Minha mente, j\u00e1 calejada de ler p\u00e1ginas te\u00f3ricas, come\u00e7aram a questionar pol\u00edticas friamente calculadas dividindo fam\u00edlias, economias vorazes esmagando sonhos e pulverizando esperan\u00e7as, preconceitos ancestrais envenenando a conviv\u00eancia e a natureza, essa m\u00e3e maltratada, consumida vorazmente, dia ap\u00f3s dia, enquanto n\u00f3s, cegos por indiferen\u00e7as. O mais aterrador \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que tudo isso se tornara banal, normal, aceit\u00e1vel, apenas &#8220;mais um dia&#8221; em um planeta condenado por nossa pr\u00f3pria apatia.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que ouvi uma batida suave na porta. Uma menina, talvez com uns nove anos, em um vestido azul-turquesa, com um caderninho nas m\u00e3os. Seus olhos, grandes e curiosos, carregavam uma pureza que o mundo ainda n\u00e3o havia corrompido. &#8220;Posso fazer uma pergunta importante?&#8221;, disse com uma voz que ainda acreditava, com f\u00e9 inabal\u00e1vel, no poder transformador das palavras. Seu dever de casa era simples, mas brutalmente profundo: entrevistar adultos sobre como alcan\u00e7ar a paz mundial.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/menina-do-questionario.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21568\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/menina-do-questionario-305x450.webp\" alt=\"\" width=\"305\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/menina-do-questionario-305x450.webp 305w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/menina-do-questionario-203x300.webp 203w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/menina-do-questionario.webp 610w\" sizes=\"auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Engoli em seco. Ali estava eu, um historiador aposentado, ex-professor universit\u00e1rio, pessoa que poderia se orgulhar de tantos livros lidos, completamente desarmado diante da simplicidade brutal, quase violenta, daquela pergunta. A m\u00e1scara de intelectual pesou em meu rosto surpreso. &#8220;Bem, eu&#8230; acabaria com todas as armas&#8221;, escapei, engolindo o gosto amargo da mentira, daquela solu\u00e7\u00e3o vazia, na l\u00edngua. A jovem anotou cuidadosamente, mas seus olhos \u2013 grandes, castanhos, implacavelmente honestos \u2013 sugeriam que ela esperava mais. E eu tamb\u00e9m. Eu esperava mais de mim.<\/p>\n<p>O resto do dia passou como um pesadelo acordado. Dois versos ecoavam como um refr\u00e3o de culpa, martelando cada pensamento. O de Drummond, escrito sob os grilh\u00f5es da ditadura varguista, em uma era de sil\u00eancio imposto, de vozes sufocadas: &#8220;Quisera ser uma bomba e com essa bomba romper o sil\u00eancio&#8230;&#8221;. Um clamor por explos\u00e3o, por ru\u00eddo, por uma ruptura desesperada contra o mutismo c\u00famplice. E, em contrapartida, a can\u00e7\u00e3o de Fagner, na voz dilacerante e visceral de Ney Matogrosso: &#8220;O que me resta \u00e9 s\u00f3 um gemido&#8221;. Dois gritos de revolta, separados por d\u00e9cadas, mas unidos na mesma ang\u00fastia paralisante que agora me consumia, me asfixiava.<\/p>\n<p>Essa ang\u00fastia, ali\u00e1s, n\u00e3o era apenas um eco do passado. Ela ressoava com for\u00e7a no presente. Pensei, por exemplo, nas manchetes que abordavam a recente carta de Donald Trump ao presidente Lula, tratando do &#8220;tarifa\u00e7o&#8221;. Era um lembrete contundente de como as tens\u00f5es globais se manifestam em a\u00e7\u00f5es concretas que impactam a vida de milh\u00f5es, adicionando mais uma camada a esse cen\u00e1rio de incertezas e desassossego. A pr\u00f3pria ideia de um &#8220;gemido&#8221; ganha nova dimens\u00e3o quando confrontada com a complexidade das rela\u00e7\u00f5es internacionais e as decis\u00f5es que moldam a economia e a pol\u00edtica global, como as implicadas em um tarifa\u00e7o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Trump_anuncia_tarifas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21569\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Trump_anuncia_tarifas-450x322.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"322\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Trump_anuncia_tarifas-450x322.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Trump_anuncia_tarifas-300x214.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Trump_anuncia_tarifas.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O tarifa\u00e7o provoca manifesta\u00e7\u00f5es porque impacta a vida de milh\u00f5es<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na madrugada seguinte eu me vi encarando o vazio da tela do computador e o dever de dizer algo. A jovem menina, sem querer, havia exposto minha inoper\u00e2ncia essencial. Eu poderia descrever todos os males do mundo com pretens\u00e3o did\u00e1tica, como um m\u00e9dico que diagnostica a doen\u00e7a, mas n\u00e3o encontra a cura. Eu era incapaz de propor uma \u00fanica solu\u00e7\u00e3o verdadeira, palp\u00e1vel, realiz\u00e1vel. Quando foi que desistimos de tentar mudar as coisas? Lembrei-me de Cec\u00edlia Meireles perguntando \u201cem que espelho ficou perdida minha face?\u201d, e fui al\u00e9m: quando aceitamos, com uma resigna\u00e7\u00e3o covarde, que o mundo seria assim mesmo?<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o veio como uma epifania grandiosa, mas como um pequeno clar\u00e3o de lucidez, um fio de luz na escurid\u00e3o da minha pr\u00f3pria cegueira. Talvez a paz comece justamente com a coragem de encarar perguntas dif\u00edceis. Talvez o primeiro passo seja admitir, com humildade, que n\u00e3o temos respostas prontas, mas nos recusamos, obstinadamente, a parar de perguntar. A n\u00e3o deixar que o sil\u00eancio ven\u00e7a. Aquela jovem menina me devolveu algo que eu havia perdido h\u00e1 muito tempo: a capacidade de me indignar verdadeiramente. De n\u00e3o aceitar o inaceit\u00e1vel. De acreditar que podemos \u2013 que devemos \u2013 fazer melhor. Sua tarefa escolar se revelou a li\u00e7\u00e3o mais importante, mais dolorosa e mais transformadora que recebi em anos. E eu, que em toda a minha vida me vi como o mestre, fui humildemente relegado ao papel crucial de aprendiz. E ali, na quietude da contempla\u00e7\u00e3o, compreendi que a verdadeira bomba n\u00e3o era de destrui\u00e7\u00e3o, mas de luz: a que explodia o sil\u00eancio da minha pr\u00f3pria alma. E entendi a necessidade de ampliar meu gemido. \u00c9 por isto que escrevo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cec\u00edlia Meireles perguntou: \u201cem que espelho ficou perdida minha face?\u201d O mundo seria assim mesmo? 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