{"id":21539,"date":"2025-06-29T11:15:38","date_gmt":"2025-06-29T14:15:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21539"},"modified":"2025-06-29T11:15:38","modified_gmt":"2025-06-29T14:15:38","slug":"bruxo-do-cosme-velho-ou-machadao-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/bruxo-do-cosme-velho-ou-machadao-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"BRUXO DO COSME VELHO OU MACHAD\u00c3O? (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Ana Regina Fagnani<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A obra &#8220;Machado de Assis Afrodescendente&#8221;, de Eduardo Duarte, nos leva a uma quest\u00e3o fundamental: como um homem de apar\u00eancia fr\u00e1gil, construiu uma das literaturas mais poderosas do Brasil? A resposta est\u00e1 na genialidade que dois apelidos revelam: Machad\u00e3o e Bruxo do Cosme Velho. Essas alcunhas desvendam as camadas de um escritor que revolucionou nossa forma de ver a sociedade e a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Nascido em 1839, filho de um pintor de paredes mulato e uma portuguesa lavadeira, Joaquim Maria Machado de Assis desafiava todos os estere\u00f3tipos do intelectual brasileiro do s\u00e9culo XIX. Seus 1,62m de altura, complei\u00e7\u00e3o franzina, tra\u00e7os afrodescendentes, epilepsia e gagueira formavam um conjunto que a sociedade da \u00e9poca dificilmente associaria \u00e0 genialidade liter\u00e1ria. Curiosamente, essa mesma sociedade que o discriminava em vida tratou de embranquecer sua imagem ap\u00f3s sua morte, em retratos que suavizavam seus tra\u00e7os negros \u2013 tentativa flagrante de adequar o maior escritor nacional ao padr\u00e3o europeizante da elite cultural.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Campanha-da-Caixa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21540\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Campanha-da-Caixa-450x320.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Campanha-da-Caixa-450x320.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Campanha-da-Caixa-300x214.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Campanha-da-Caixa.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O apelido Machad\u00e3o surge justamente como contraponto a essa fragilidade f\u00edsica aparente. Seu peso simb\u00f3lico \u00e9 ineg\u00e1vel: evoca for\u00e7a, impacto, capacidade de corte. A escrita machadiana age como um machado afiado que abre caminho atrav\u00e9s das hipocrisias sociais. Em Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas (1881), revoluciona a literatura brasileira ao colocar um defunto como narrador, criando uma perspectiva \u00fanica para criticar a sociedade carioca. O romance come\u00e7a com uma dedicat\u00f3ria ir\u00f4nica &#8220;ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cad\u00e1ver&#8221;, estabelecendo desde as primeiras linhas o tom c\u00e1ustico que caracteriza o &#8220;Machad\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Essa for\u00e7a contundente se manifesta plenamente em Dom Casmurro (1899), onde transforma uma aparente hist\u00f3ria de ci\u00fame num labirinto narrativo que at\u00e9 hoje divide cr\u00edticos e leitores sobre a suposta trai\u00e7\u00e3o de Capitu. J\u00e1 em Quincas Borba (1891), satiriza tanto as filosofias pretensiosas (atrav\u00e9s do &#8220;Humanitismo&#8221;) quanto a gan\u00e2ncia da elite cafeeira, mostrando como o &#8220;Machad\u00e3o&#8221; podia ser ao mesmo tempo filos\u00f3fico e socialmente engajado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Embranquicado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21541\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Embranquicado-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Embranquicado-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Embranquicado-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Embranquicado-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Embranquicado.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Se o &#8220;Machad\u00e3o&#8221; representa o impacto brutal da cr\u00edtica machadiana, o Bruxo do Cosme Velho revela sua dimens\u00e3o mais sutil e psicol\u00f3gica. A lenda urbana que lhe deu origem &#8211; de que queimava cartas em um caldeir\u00e3o na Rua Cosme Velho &#8211; pode ser falsa, mas capta perfeitamente o aspecto m\u00e1gico de sua literatura. Machado operava transforma\u00e7\u00f5es alqu\u00edmicas com as palavras, convertendo o trivial em profundo, o cotidiano em universal.<\/p>\n<p>Esta faceta se manifesta com especial brilho nos contos. Em O Alienista (1882), questiona os limites entre sanidade e loucura, mostrando como a raz\u00e3o pode ser t\u00e3o arbitr\u00e1ria quanto a desraz\u00e3o. Em O Espelho (1882), explora a fragilidade da identidade atrav\u00e9s de um jovem que, ao se ver refletido como alferes, passa a duvidar de seu pr\u00f3prio eu. S\u00e3o narrativas que agem como feiti\u00e7os liter\u00e1rios: depois de lidas, o leitor j\u00e1 n\u00e3o v\u00ea o mundo da mesma forma.<\/p>\n<p>A genialidade de Machado est\u00e1 justamente na s\u00edntese dessas duas dimens\u00f5es. Uma frase emblem\u00e1tica de Mem\u00f3rias P\u00f3stumas ilustra isso: &#8220;A vida \u00e9 um trem que corre para a esta\u00e7\u00e3o da morte, mas o importante s\u00e3o os passageiros que vamos encontrando pelo caminho&#8221;. Aqui convivem o &#8220;Machad\u00e3o&#8221; (a crueza sobre a mortalidade) e o &#8220;Bruxo&#8221; (a sutileza sobre os encontros humanos). Essa dualidade explica por que sua obra resiste a qualquer tentativa de simplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capa-o-bruxo-do-cosme-velho.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21542\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capa-o-bruxo-do-cosme-velho-307x450.webp\" alt=\"\" width=\"307\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capa-o-bruxo-do-cosme-velho-307x450.webp 307w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capa-o-bruxo-do-cosme-velho-205x300.webp 205w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capa-o-bruxo-do-cosme-velho.webp 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 307px) 100vw, 307px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mais que um escritor, Machado tornou-se um espelho do Brasil. Seu mulatismo (como definiu Roberto Schwarz) reflete nossa mesti\u00e7agem cultural. Sua ambiguidade moral espelha nossas contradi\u00e7\u00f5es sociais. Seu ceticismo elegante antecipou nosso desencanto moderno.<\/p>\n<p>Hoje, mais de um s\u00e9culo ap\u00f3s sua morte, Machado de Assis transcende a mera figura de um \u00edcone liter\u00e1rio. Ele se estabelece como um s\u00edmbolo perene de resist\u00eancia intelectual e humana. A obra que brotou de um corpo fr\u00e1gil, de um mulato gago e epil\u00e9ptico que a sociedade tentou embranquecer, \u00e9 um testamento de uma for\u00e7a brutal e de uma magia inigual\u00e1vel. Seus apelidos, Machad\u00e3o e Bruxo do Cosme Velho, n\u00e3o s\u00e3o apenas carinhosas alcunhas; s\u00e3o a s\u00edntese de sua grandeza. Eles celebram o escritor que, com um machado afiado, dissecou as entranhas de um Brasil complexo e, com a sagacidade de um feiticeiro, revelou as verdades ocultas em cada alma. Sentir o Machad\u00e3o \u00e9 reconhecer o poder de sua cr\u00edtica; sentir o Bruxo \u00e9 mergulhar na profundidade de sua perspic\u00e1cia. Ambos s\u00e3o a mesma ess\u00eancia de um g\u00eanio que, com o feiti\u00e7o das letras, n\u00e3o apenas mudou a literatura brasileira, mas nos ensinou a olhar mais fundo para n\u00f3s mesmos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Ana Regina Fagnani A obra &#8220;Machado de Assis Afrodescendente&#8221;, de Eduardo Duarte, nos leva a uma quest\u00e3o fundamental: como um homem de apar\u00eancia fr\u00e1gil, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21543,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21539","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21539","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21539"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21539\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21544,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21539\/revisions\/21544"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21543"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}