{"id":21527,"date":"2025-06-22T09:58:37","date_gmt":"2025-06-22T12:58:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21527"},"modified":"2025-06-22T09:58:37","modified_gmt":"2025-06-22T12:58:37","slug":"futebol-um-recado-carinhoso-para-carlo-ancelotti-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/futebol-um-recado-carinhoso-para-carlo-ancelotti-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"FUTEBOL, UM RECADO CARINHOSO PARA CARLO ANCELOTTI (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Gol hist\u00f3rico de Pel\u00e9 no Maracan\u00e3: foto vendida em leil\u00e3o por mais de R$ 1 milh\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Meus caros, vamos falar s\u00e9rio sobre uma frivolidade profunda: o futebol, ou mais especificamente, o futebol brasileiro. O tal <em>sport<\/em> chegou aqui pelas m\u00e3os \u2013 ou melhor pelos p\u00e9s \u2013 de Charles Miller. Carlinhos, para intimidade, era um caso curioso: filho de ingleses, nascido no Brasil, um p\u00e9 na etiqueta do ch\u00e1 das cinco, outro no barzinho da esquina. Em 1894, o mo\u00e7o desembarcou em Santos. Enquanto a elite pensava em neg\u00f3cios s\u00e9rios, Carlinhos trazia na mala o caos em forma de couro: duas bolas e um manual empoeirado. E foi logo para os clubes elegantes. Imaginem: os bacanas do Paulistano, camisas impec\u00e1veis, cal\u00e7\u00f5es intocados, gritando &#8220;Go, lads, go!&#8221; num ingl\u00eas engasgado. Esporte de elite, coisa de quem bebia u\u00edsque sem careta. O pov\u00e3o assistia confuso, como a uma pe\u00e7a em grego. &#8220;Go, lads, go?&#8221; Que frieza!<\/p>\n<p>Mas a\u00ed entra o g\u00eanio \u201cabrasileirador\u201d. A bola, v\u00edrus contagioso, escapou dos gramados imaculados e caiu na v\u00e1rzea. E a v\u00e1rzea, meus amigos, \u00e9 o \u00fatero criativo da na\u00e7\u00e3o. Sem campo? O meio-fio vira lateral. Sem bola? Uma meia enrolada com trapo, ou uma lata de goiabada vazia. Traves? Dois chinelos velhos ou a imagina\u00e7\u00e3o gritando &#8220;GOLOOOO!&#8221;. E foi assim que deglutimos a tradi\u00e7\u00e3o e tropicalizamos o jogo de bola.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Charles-Miller.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21528\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Charles-Miller-304x450.jpg\" alt=\"\" width=\"304\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Charles-Miller-304x450.jpg 304w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Charles-Miller-203x300.jpg 203w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Charles-Miller.jpg 432w\" sizes=\"auto, (max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Charles Miller<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O futebol brit\u00e2nico, senhor de terno e cartola, sofreu uma lavagem cerebral tupiniquim. A disciplina r\u00edgida? Subvertida pela malandragem. O passe retinho? Estra\u00e7alhado pelo drible que faz o zagueiro rodar como pi\u00e3o b\u00eabado. O &#8220;<em>gentleman agreement<\/em>&#8220;? Substitu\u00eddo pelo &#8220;cala a boca, juiz filho da m\u00e3e!&#8221;. A ginga entrou em campo, de cal\u00e7\u00f5es remendados, e nunca mais saiu. Virou inven\u00e7\u00e3o caseira, como o samba no p\u00e9. O d\u00e2ndi virou her\u00f3i popular, suando a camisa e carregando o sonho de milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Ah, o futebol-arte! Pel\u00e9, Garrincha, Zico&#8230; Artistas pintando o gramado com os p\u00e9s. O passe era um flerte, o drible uma coreografia, o gol um soneto. O mundo nos invejava! A bola cantava, a rede balan\u00e7ava ao ritmo do pandeiro. \u00c9ramos reis da gambiarra criativa.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed, como o primo que volta da Europa falando &#8220;<em>actually<\/em>&#8220;, o futebol brasileiro cresceu. Ou achou que cresceu. Saiu da rua e foi morar no condom\u00ednio fechado da S\u00e9rie A. O menino sapeca vestiu terno Armani. E o terno, meus caros, \u00e9 lindo, mas aperta na ginga.<\/p>\n<p>O drible inspirado virou &#8220;alto risco&#8221; na planilha. O passe de calcanhar, lampejo de g\u00eanio, agora calculado por <em>software<\/em> com PhD. T\u00e9cnicos? Engenheiros da NASA com pranchetas incluindo a fase da lua e o humor da sogra do goleiro. O jogo por m\u00fasica, fluindo como pagode, foi engolido pelo jogo por algoritmo, frio como planilha de imposto.<\/p>\n<p>E os gols? Ah, os gols! Ainda arrancam gargalhadas e l\u00e1grimas. Mas o grito espont\u00e2neo &#8220;GOOOOOOOL!&#8221; vem seguido de&#8230; sil\u00eancio. Todos olham para a tela, esperando o veredito do VAR. O atacante tava com o fio de cabelo do mindinho 0,3mm \u00e0 frente? Suspense digno de Hitchcock, s\u00f3 que menos divertido. Como impor c\u00f3digo de vestimenta no carnaval.<\/p>\n<p>O jogador-her\u00f3i virou ativo financeiro. A paix\u00e3o virou pacote de TV, com dez inser\u00e7\u00f5es por minuto e narradores de sotaque &#8220;neutro&#8221; \u2013 insosso como chiclete sem a\u00e7\u00facar. Clubes viraram corpora\u00e7\u00f5es. O gramado, tabuleiro de xadrez com pe\u00e7as mais caras que o PIB de Tuvalu.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Bola-de-capotao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21529\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Bola-de-capotao-440x450.jpg\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Bola-de-capotao-440x450.jpg 440w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Bola-de-capotao-293x300.jpg 293w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Bola-de-capotao.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Bola de capot\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, sobra o qu\u00ea de brasileiro? O desarme do zagueiro que, no desespero, d\u00e1 um bic\u00e3o milagroso. O meia que, no meio de c\u00e1lculos errados, tira um drible que trava o software advers\u00e1rio. O gol de bicicleta num cl\u00e1ssico, desafiando l\u00f3gica, gravidade e bom senso. O time quebrado que arranca um empate do l\u00edder com gol nos acr\u00e9scimos, feito de alma, suor e sorte. A torcida que, mesmo na zona do rebaixamento, canta, xinga com rimas criativas e acredita que o ano que vem come\u00e7a diferente (spoiler: raramente come\u00e7a).<\/p>\n<p>Sim, pagantes de ingressos caros e v\u00edtimas do <em>pay-per-view. <\/em>A alma do futebol brasileiro ainda pulsa. Pode estar engravatada, cheia de estat\u00edsticas e com o VAR soprando no ouvido. Mas por baixo desse terno caro, ainda se v\u00ea a barra do cal\u00e7\u00e3o rasgado da v\u00e1rzea e a camisa desbotada do time do cora\u00e7\u00e3o. A ginga, essa malandra, sempre acha uma fresta. Num passe de primeira, num desarme de trivela, na loucura coletiva da torcida. O futebol brasileiro pode ter virado adulto respons\u00e1vel, mas, no fundo, ainda \u00e9 o moleque que chuta lata no meio-fio e sonha com o gol mais bonito \u2013 ou o mais esquisito. Afinal, s\u00f3 aqui um gol de joelho, torto, sujo, que bate em tr\u00eas zagueiros e no juiz, \u00e9 celebrado como obra-prima. Isso \u00e9 arte com humor. E a gente n\u00e3o troca por nada. Vai, Sele\u00e7\u00e3o! (Mas, pelo amor de Deus, solta a mulecada pra brincar!)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gol hist\u00f3rico de Pel\u00e9 no Maracan\u00e3: foto vendida em leil\u00e3o por mais de R$ 1 milh\u00e3o Meus caros, vamos falar s\u00e9rio sobre uma frivolidade profunda: &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21530,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21527","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21527"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21527\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21531,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21527\/revisions\/21531"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21530"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}