{"id":21495,"date":"2025-06-01T09:01:52","date_gmt":"2025-06-01T12:01:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21495"},"modified":"2025-06-01T09:08:02","modified_gmt":"2025-06-01T12:08:02","slug":"do-sonho-ao-pesadelo-americano-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/do-sonho-ao-pesadelo-americano-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"DO SONHO AO PESADELO AMERICANO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>No ar, a estranha melancolia de um retorno. Voltar aos Estados Unidos, agora sob o manto da administra\u00e7\u00e3o Trump, soava como pisar em um terreno conhecido, mas sob uma luz inesperada. Aquela rotina de passar pela pol\u00edcia federal, sempre com a confer\u00eancia minuciosa de dados, me deixava em estado de alerta. Minha vinda era, de fato, para uma s\u00e9rie de confer\u00eancias e contatos acad\u00eamicos, mas a precau\u00e7\u00e3o, sussurrada por colegas experientes, ditava uma nova estrat\u00e9gia: declarar turismo. Menos perguntas, menos atritos. Para minha surpresa, o oficial encarregado, com uma agilidade not\u00e1vel, questionou a natureza do meu &#8220;turismo&#8221;. Respondi, sem hesitar, que buscava os shows da Broadway e passeios descontra\u00eddos. Deu certo.<\/p>\n<p>J\u00e1 em solo americano, pretendi reativar contatos com os muitos brasileiros que haviam sido a alma do meu livro &#8220;Brasil fora de si: Experi\u00eancias de Brasileiros em Nova York&#8221;. A pesquisa, iniciada na d\u00e9cada de 1990, permitiu-me acompanhar a vida de centenas de indiv\u00edduos que, impulsionados pelo &#8220;sonho americano&#8221;, buscavam a realiza\u00e7\u00e3o de suas aspira\u00e7\u00f5es. Um peda\u00e7o desse universo de hist\u00f3rias, inclusive, serviu de suporte para a novela &#8220;Am\u00e9rica&#8221;, de Gloria Perez, o que catapultou a visibilidade de uma realidade pouco explorada na cena nacional.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Capa-dolivro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21497\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Capa-dolivro-315x450.jpg\" alt=\"\" width=\"315\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Capa-dolivro-315x450.jpg 315w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Capa-dolivro-210x300.jpg 210w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Capa-dolivro.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Minha curiosidade sobre o andamento dos &#8220;brasucas&#8221; era imensa, especialmente considerando que muitos eram &#8220;indocumentados&#8221;. A primeira coisa a chamar a aten\u00e7\u00e3o foi a not\u00f3ria car\u00eancia de respostas \u00e0s minhas mensagens, antes t\u00e3o entusi\u00e1sticas. Ao indagar dos porqu\u00eas, um sinal doloroso se acendeu: medo. O medo tornara-se um fantasma onipresente, infiltrado em detalhes da vida daqueles que precisavam se esconder, temendo dela\u00e7\u00f5es. A atmosfera de incerteza, amplificada pela ret\u00f3rica anti-imigra\u00e7\u00e3o, criara uma rede de desconfian\u00e7a que antes n\u00e3o existia, ou pelo menos n\u00e3o t\u00e3o explicitamente.<\/p>\n<p>As estrat\u00e9gias de encontros mudaram drasticamente. Se antes eu era convidado para caf\u00e9s e churrascos em suas casas, agora os encontros eram em locais p\u00fablicos e impessoais: igrejas, grandes magazines, ou est\u00e1dios. E o mais intrigante: as pessoas deveriam nos identificar, n\u00e3o n\u00f3s a elas. Uma invers\u00e3o de pap\u00e9is ditada pela cautela e pelo temor. Consegui alguns encontros e, confesso, doeu muito ver o p\u00e2nico instalado em pessoas que relatavam hist\u00f3rias aterrorizantes de trai\u00e7\u00f5es e vingan\u00e7as. Uma tristeza palp\u00e1vel. O que vi \u00e9 um desencanto profundo onde antes havia uma esperan\u00e7a quase irrestrita. Notava-se o desamparo de pessoas que planejavam uma experi\u00eancia positiva, mas que agora, al\u00e9m da perda dos sonhos, viam a volta para casa como uma condena\u00e7\u00e3o. Muitos venderam tudo, fizeram empr\u00e9stimos pesados, come\u00e7aram a se organizar com filhos nas escolas e agora mal podiam sair de casa, vivendo sob o terror da deporta\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quem trabalha com hist\u00f3ria oral de pessoas em vulnerabilidade se acostuma a ouvir tramas tr\u00e1gicas. No entanto, a cada novo relato, eu me enternecia, me compadecia da fragilidade humana diante de for\u00e7as t\u00e3o avassaladoras. O que se presenciava ali era um cap\u00edtulo especialmente triste da aventura capitalista, que n\u00e3o se esgota em triturar subalternos com a explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra barata, mas agora os expulsa, deixando um v\u00e1cuo de incertezas e desestrutura\u00e7\u00e3o social. Surge o questionamento: quem substituir\u00e1 essa m\u00e3o de obra barata, disposta a trabalhos mal remunerados e de alto risco, em setores essenciais da economia americana? O desenho do futuro, mesmo para os cidad\u00e3os americanos, parece inseguro e incerto.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Do-sonho-ao-pesadelo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21498\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Do-sonho-ao-pesadelo.jpg\" alt=\"\" width=\"201\" height=\"251\" \/><\/a><\/p>\n<p>Isso nos convida a analisar o outro lado da moeda. Sempre convivi no ambiente progressista norte-americano, nas universidades. Nunca tive contato continuado com republicanos conservadores, mesmo tendo morado tr\u00eas vezes em lugares diferentes dos Estados Unidos, como Calif\u00f3rnia, Florida e Nova York, regi\u00f5es com perfis pol\u00edticos distintos. Mas a novidade agora \u00e9 que a oposi\u00e7\u00e3o, tradicionalmente entrincheirada nas universidades e nos c\u00edrculos intelectuais, ganha for\u00e7a na medida em que os Estados Unidos se metem de maneira ainda mais ostensiva em dilemas internacionais, provocando rea\u00e7\u00f5es e debates internos que antes eram mais restritos.<\/p>\n<p>Este breve invent\u00e1rio de uma r\u00e1pida passagem pela terra de Tio Sam convida a pensar no futuro das rela\u00e7\u00f5es internacionais e pessoais. A experi\u00eancia dos imigrantes, sob um governo que intensifica a ret\u00f3rica anti-imigra\u00e7\u00e3o, \u00e9 um term\u00f4metro das tens\u00f5es globais. Ela nos lembra que a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas sobre o fluxo de capitais e mercadorias, mas tamb\u00e9m sobre o movimento de pessoas, suas esperan\u00e7as e seus medos. A hist\u00f3ria desses &#8220;brasucas&#8221; em Nova York, outrora um hino \u00e0 esperan\u00e7a, tornou-se um alerta sombrio sobre a fragilidade dos sonhos em face de pol\u00edticas xen\u00f3fobas e da ascens\u00e3o de nacionalismos. A busca pelo &#8220;sonho americano&#8221; para muitos se transformou em um pesadelo, uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 invisibilidade e ao medo constante. O que resta \u00e9 uma profunda reflex\u00e3o sobre o pre\u00e7o das oportunidades e a responsabilidade que as na\u00e7\u00f5es t\u00eam para com os indiv\u00edduos que buscam ref\u00fagio em suas fronteiras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ar, a estranha melancolia de um retorno. 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