{"id":21483,"date":"2025-05-18T08:52:40","date_gmt":"2025-05-18T11:52:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21483"},"modified":"2025-05-18T08:52:40","modified_gmt":"2025-05-18T11:52:40","slug":"argentinos-no-rio-um-samba-tango-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/argentinos-no-rio-um-samba-tango-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"ARGENTINOS NO RIO: UM SAMBA-TANGO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Se h\u00e1 algo mais dram\u00e1tico que um tango bem chorado \u00e9 um argentino no Rio de Janeiro. Basta olhar para <em>los hermanos<\/em> derretendo em Copacabana para entender que &#8220;<em>Mi Buenos Aires querido<\/em>&#8221; era, na verdade, um aviso meteorol\u00f3gico: a cidade deles \u00e9 fria, elegante e cheia de caf\u00e9s \u2014 o oposto completo do que encontram aqui, onde os barzinhos se multiplicam trocando ch\u00e1 por caipirinha.<\/p>\n<p>Como uma legi\u00e3o de outros, os gringos do sul chegam atr\u00e1s do nosso mar e da nossa brisa, mas trazendo consigo uma bagagem emocional digna de &#8220;<em>Caminito<\/em>&#8220;, aquela ruela onde se caminha para o abismo do drama fatal. Cada passo na areia quente parece uma met\u00e1fora para a exist\u00eancia: &#8220;<em>Adi\u00f3s, muchachos, compa\u00f1eros de mi vida<\/em>&#8220;, lamentam, olhando para o chinelo derretendo sob o sol de 40 graus. Em plena praia, fazem fila para comprar \u00e1gua de coco como se estivessem encenando &#8220;<em>Uno<\/em>&#8220;, aquele tango em que o amor e a dor s\u00e3o sin\u00f4nimos, s\u00f3 que aqui o amor \u00e9 pela umidade e a dor \u00e9 ver o pre\u00e7o da garrafinha. &#8220;<em>Uno busca lleno de esperanzas<\/em>&#8230; uma \u00e1gua mineral sem precisar vender um rim, poderiam cantar, se sobrasse f\u00f4lego entre uma insola\u00e7\u00e3o e outra.<\/p>\n<p>E nem adianta oferecer jeitinho brasileiro: argentino raiz quer sofrer. Sofrer \u00e9 status, \u00e9 literatura viva, \u00e9 cr\u00f4nica urbana com trilha sonora de <em>bandone\u00f3n<\/em>. Voc\u00ea oferece uma sombrinha de praia? Eles recusam com um olhar grave, como se dissesse: &#8220;<em>No, gracias. Yo nac\u00ed para el dolor<\/em>.&#8221; Ent\u00e3o ficam ali, torrando como se cada grau a mais no term\u00f4metro fosse uma homenagem a Gardel.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Argentinos-ocupam-praia.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21485\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Argentinos-ocupam-praia-450x253.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Argentinos-ocupam-praia-450x253.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Argentinos-ocupam-praia-300x169.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Argentinos-ocupam-praia-768x432.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Argentinos-ocupam-praia-750x420.webp 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Argentinos-ocupam-praia.webp 928w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No Saara, o com\u00e9rcio popular, vivem seu pr\u00f3prio &#8220;<em>Balada para un loco<\/em>&#8220;. Perdidos entre camel\u00f4s, discutem taxas de c\u00e2mbio e o pre\u00e7o de um short de R$ 60 como se fosse a assinatura do Tratado de devolu\u00e7\u00e3o das Malvinas. Eles n\u00e3o pechincham: interpretam uma pe\u00e7a de teatro triste. Em cada proposta, o olhar longe, a voz embargada, e a certeza de que &#8220;<em>nunca m\u00e1s volver\u00e1 a ser igual<\/em>&#8220;. Tudo para comprar uma sunga que, convenhamos, j\u00e1 viu dias melhores.<\/p>\n<p>J\u00e1 no cal\u00e7ad\u00e3o, tentam jogar futebol com os cariocas. Tentam. Mas como coordenar um jogo alegre quando a alma canta &#8220;<em>Volver<\/em>&#8220;, cheia de nostalgia e lamentos? Para eles, cada chute errado \u00e9 um lembrete cruel: a vida \u00e9, inevitavelmente, uma sucess\u00e3o de fracassos ternos. &#8220;<em>Que veinte a\u00f1os no es nada<\/em>&#8220;, grita um, tentando correr. Mas, convenhamos, com trinta e sete graus \u00e0 sombra, vinte anos \u00e9 muito, muito tempo para aguentar.<\/p>\n<p>E o mais curioso \u00e9 ver a rela\u00e7\u00e3o deles com o samba. O samba \u00e9 para eles o que o tango \u00e9 para n\u00f3s: uma linguagem estrangeira. Um carioca levanta da cadeira e come\u00e7a a sambar? O argentino olha horrorizado, como se estivesse presenciando um sacril\u00e9gio. Sorrir diante da dor? Improvisar diante da trag\u00e9dia? \u201c<em>Qu\u00e9 falta de respeto, qu\u00e9 atropello a la raz\u00f3n<\/em>\u201d, recitaria Disc\u00e9polo. No fundo, eles acham que a gente vive na fronteira perigosa entre a alegria irrespons\u00e1vel e a perda total da dignidade \u2014 mas ficam balan\u00e7ando o ombro escondido quando acham que ningu\u00e9m est\u00e1 vendo.<\/p>\n<p>Mesmo a gastronomia vira drama: oferecem-lhes a\u00e7a\u00ed e eles fazem cara de quem foi informado do fim da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. &#8220;<em>Esto es comida?<\/em>&#8221; perguntam, como se estiv\u00e9ssemos oferecendo mingau de ra\u00e7\u00e3o. Eles querem carne, vinho, empanada \u2014 \u201c<em>comida de verdade<\/em>\u201d. Tudo mais \u00e9 apenas alegoria, algo ex\u00f3tico: imagine arroz e feij\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bandeira-argentina-em-Copacabana.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21486\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bandeira-argentina-em-Copacabana-450x269.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bandeira-argentina-em-Copacabana-450x269.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bandeira-argentina-em-Copacabana-300x179.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bandeira-argentina-em-Copacabana-768x459.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bandeira-argentina-em-Copacabana.webp 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No fim, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o amar essa trag\u00e9dia ambulante. O argentino m\u00e9dio no Brasil \u00e9 como um tango fora de contexto: um solo de tristeza em meio a um carnaval. \u00c9 t\u00e3o fora do tom, t\u00e3o deliciosamente deslocado, que acaba fazendo sentido. \u00c9 o tango do absurdo: &#8220;<em>No me ver\u00e1s caer<\/em>&#8220;, cantam eles, trope\u00e7ando na areia fofa. N\u00e3o cair\u00e3o \u2014 eles se esparramar\u00e3o, dramaticamente, como conv\u00e9m aos grandes her\u00f3is do exagero.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que, no pr\u00f3ximo ver\u00e3o, esperamos por eles de novo. Queremos mais drama nas areias, mais tango nas filas do mercado, mais l\u00e1grimas diante da maquininha de cart\u00e3o. Afinal, como diria o pr\u00f3prio Carlos Gardel, &#8220;<em>Cuesta abajo<\/em>&#8220;, mas de sunga e chinelo, \u00e9 ainda mais divertido.<\/p>\n<p>Que venha o pr\u00f3ximo ato desse espet\u00e1culo tropical! E se algum <em>hermano<\/em> resolver reclamar demais, a gente resolve f\u00e1cil: bota para tocar &#8220;<em>La Cumparsita<\/em>&#8221; no ukulele e oferece uma cerveja gelada. Se n\u00e3o aceitar, pelo menos teremos o prazer de assistir a mais um ato dessa com\u00e9dia portenha \u2014 t\u00e3o triste, mas t\u00e3o alegre, como s\u00f3 os bons tangos (e os bons carnavais) sabem ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se h\u00e1 algo mais dram\u00e1tico que um tango bem chorado \u00e9 um argentino no Rio de Janeiro. 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