{"id":21466,"date":"2025-05-11T08:24:20","date_gmt":"2025-05-11T11:24:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21466"},"modified":"2025-05-11T08:24:20","modified_gmt":"2025-05-11T11:24:20","slug":"maes-entre-cancoes-livros-e-lagrimas-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/maes-entre-cancoes-livros-e-lagrimas-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"M\u00c3ES: ENTRE CAN\u00c7\u00d5ES, LIVROS E L\u00c1GRIMAS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Quando me sentei para escrever sobre o Dia das M\u00e3es, percebi que estava diante de um desafio inesperado. Como compor um texto que desse conta do incont\u00e1vel? Como capturar em palavras o que sempre foi mat\u00e9ria de sil\u00eancios e gestos? A primeira imagem que me veio foi a da cozinha de casa \u00e0s seis da manh\u00e3, com ela em p\u00e9 diante do fog\u00e3o antes de qualquer um acordar. N\u00e3o havia m\u00fasica, apenas o som discreto da colher mexendo o caf\u00e9. Mas anos depois, ao ouvir por acaso &#8220;Mam\u00e3e&#8221; de Agnaldo Tim\u00f3teo (1973) num programa de r\u00e1dio antigo, aquela cena me voltou com uma nitidez que do\u00eda. A can\u00e7\u00e3o, que na inf\u00e2ncia me parecia apenas brega e ris\u00edvel, agora soava como um documento preciso de algo essencial que eu n\u00e3o sabia nomear. E no melhor de mim ecoava a voz aveludada do int\u00e9rprete: mam\u00e3e, mam\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Agnaldo-Timoteo-jpeg.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21467\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Agnaldo-Timoteo-jpeg.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Agnaldo-Timoteo-jpeg.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Agnaldo-Timoteo-jpeg-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Agnaldo-Timoteo-jpeg-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Agnaldo-Timoteo-jpeg-80x80.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>H\u00e1 tanto amor, tanta bondade<\/em><br \/>\n<em>Em teu viver oh mam\u00e3e<\/em><br \/>\n<em>Enquanto a vida em mim florir<\/em><br \/>\n<em>Tua lembran\u00e7a h\u00e1 de existir (Agnaldo Tim\u00f3teo)<\/em><\/p>\n<p>Entendi a sensibilidade de Coelho Neto ao intitular seu livro &#8220;Ser M\u00e3e \u00c9 Padecer no Para\u00edso&#8221; (1919). O t\u00edtulo sempre me pareceu exagerado at\u00e9 come\u00e7ar a observar minha pr\u00f3pria m\u00e3e com olhos de adulto. Lembro-me de quando ela ficou acordada tr\u00eas noites seguidas durante minha pneumonia, alternando compressas e medica\u00e7\u00e3o sem nunca reclamar. Ou quando, anos depois, descobri que havia vendido a \u00fanica joia que tinha para pagar uma caprichosa viagem minha ao exterior. Esse paradoxo &#8211; sofrer em sil\u00eancio por amor &#8211; \u00e9 o que define melhor a maternidade que conheci.<\/p>\n<p>Fernando Sabino em &#8220;A Falta que Ela Me Faz&#8221; (1956) escreveu: &#8220;N\u00e3o \u00e9 saudade o que sinto. \u00c9 uma esp\u00e9cie de amputa\u00e7\u00e3o&#8221;. Li isso pela primeira vez aos dezessete anos e achei dram\u00e1tico. Hoje, depois de perder minha m\u00e3e, entendo cada palavra. H\u00e1 uma qualidade particular na aus\u00eancia materna &#8211; como se o mundo perdesse seu eixo e tudo ficasse levemente descentrado, para sempre. \u00c0s vezes, ao imaginar em del\u00edrio, um telefonema para ela e acordar lembrando que n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m do outro lado da linha, sinto exatamente o que Sabino descreveu: uma esp\u00e9cie de amputa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Em &#8220;Tudo sobre Minha M\u00e3e&#8221; (1999), Almod\u00f3var mostra que o essencial da maternidade est\u00e1 nos atos, n\u00e3o no sangue. Isso me faz pensar na professora de portugu\u00eas que, percebendo minha timidez, inventou um clube de leitura s\u00f3 para me fazer falar. Na vizinha de casa, uma tal dona Carolina que sempre sabia quando eu estava doente e aparecia com uma canja, embora nunca tiv\u00e9ssemos maiores intimidades. Na dona da banca de jornal que guardava revistas de quadrinhos para mim quando eu era crian\u00e7a, sem eu precisar pedir. Essas mulheres n\u00e3o substitu\u00edam minha m\u00e3e &#8211; ningu\u00e9m poderia. Mas elas teciam uma rede invis\u00edvel de cuidados que, vista de longe, compunha um mapa de afetos t\u00e3o necess\u00e1rio quanto o amor familiar. E de certa forma foram tamb\u00e9m minhas m\u00e3es.<\/p>\n<p>Carlos Drummond de Andrade em &#8220;Minha M\u00e3e&#8221; (1933) conseguiu o que parecia imposs\u00edvel: falar do universal atrav\u00e9s do particular. Seu poema n\u00e3o \u00e9 sobre todas as m\u00e3es, mas sobre a dele &#8211; e por isso mesmo fala da minha, da sua, de tantas outras. \u00c9 assim que a mem\u00f3ria funciona: o cheiro do bolo que s\u00f3 ela fazia, o jeito particular como amarrava os cadar\u00e7os dos meus sapatos novos, o tom de voz que usava quando eu estava doente &#8211; detalhes m\u00ednimos que carregam todo um mundo. E como esquecer o sabor do quibe, da esfirra, do doce de pistache. Como?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Carlos-D-Amdrade.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21468\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Carlos-D-Amdrade.png\" alt=\"\" width=\"251\" height=\"201\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 um prov\u00e9rbio iorub\u00e1 que diz: &#8220;A crian\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 abra\u00e7ada pela sua aldeia queima-a para sentir calor&#8221;. Minha m\u00e3e era minha aldeia inteira. E quando ela se foi, levei anos para entender que o amor que ela me deu era justamente o que me permitiria seguir em frente &#8211; mesmo que sempre com esse frio nas costas que nenhum casaco aquece.<\/p>\n<p>Escrever sobre m\u00e3es \u00e9 tentar domesticar o indom\u00e1vel. Toda palavra parece pequena diante do amor materno. Talvez por isso recorramos tanto \u00e0 arte &#8211; m\u00fasicas, livros, filmes &#8211; na esperan\u00e7a de que outros tenham encontrado a f\u00f3rmula que nos escape. Mas no fim, o que fica s\u00e3o os sil\u00eancios compartilhados, os olhares entendidos.<\/p>\n<p>Neste Dia das M\u00e3es, n\u00e3o tenho presentes grandiosos nem declama\u00e7\u00f5es elaboradas. Tenho apenas a mem\u00f3ria de uma mulher comum que fez coisas extraordin\u00e1rias todos os dias sem nunca esperar reconhecimento. E a certeza de que, em algum lugar entre o cheiro do caf\u00e9 da manh\u00e3 e o som das panelas ao anoitecer, est\u00e1 a defini\u00e7\u00e3o mais verdadeira do que significa amar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando me sentei para escrever sobre o Dia das M\u00e3es, percebi que estava diante de um desafio inesperado. 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