{"id":21448,"date":"2025-04-20T09:09:29","date_gmt":"2025-04-20T12:09:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21448"},"modified":"2025-04-20T09:14:18","modified_gmt":"2025-04-20T12:14:18","slug":"a-prostata-e-o-silencio-que-mata-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-prostata-e-o-silencio-que-mata-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A PR\u00d3STATA E O SIL\u00caNCIO QUE MATA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Muitos homens se recusam a fazer regularmente o exame de toque<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico veio como um soco no est\u00f4mago. &#8220;C\u00e2ncer de pr\u00f3stata&#8221; &#8211; duas palavras que mudaram minha vida em 2022, quando as consultas m\u00e9dicas voltaram ap\u00f3s o isolamento da pandemia. Eu havia negligenciado os exames de rotina naqueles anos conturbados, e agora pagava o pre\u00e7o. Enquanto o urologista explicava os pr\u00f3ximos passos com voz calma, meus olhos fixavam nas estat\u00edsticas que saltavam da folha: 71 mil novos casos por ano no Brasil, 16 mil mortes. Um em cada nove homens. N\u00fameros frios que, de repente, tinham meu nome.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, entre exames e preparativos para a cirurgia, decidi me armar de conhecimento. Desconfiado de informa\u00e7\u00f5es rasas da internet, mergulhei em livros especializados. O primeiro foi &#8220;C\u00e2ncer de Pr\u00f3stata: O Que Voc\u00ea Precisa Saber&#8221;, da Sociedade Brasileira de Urologia &#8211; um manual claro que me mostrou o que esperar. Depois veio &#8220;Pr\u00f3stata: Tudo o Que Voc\u00ea Queria Saber e Tinha Medo de Perguntar&#8221;, do Dr. Fernando Vaz, que rasgou v\u00e9us de tabus. Mas foi &#8220;The Prostate Cancer Owner&#8217;s Manual&#8221;, de Scholz e Blum, que me deu algo raro: esperan\u00e7a sem ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Quinze dias ap\u00f3s o diagn\u00f3stico, eu entrava no centro cir\u00fargico para uma prostatectomia rob\u00f3tica. Lembro-me de fazer uma piada ruim com o anestesista &#8211; &#8220;Ainda tenho livros pra escrever, n\u00e3o me deixe dormir pra sempre&#8221; &#8211; mas por tr\u00e1s do humor f\u00e1cil, havia um tremor que s\u00f3 eu sentia. A cirurgia foi bem-sucedida, mas os dois dias na UTI foram dif\u00edceis. Tubos em todo corpo, incapacidade de controlar fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, aquele cheiro hospitalar que gruda na pele.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Cancer-prostata.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21449\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Cancer-prostata-450x210.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Cancer-prostata-450x210.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Cancer-prostata-300x140.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Cancer-prostata-768x359.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Cancer-prostata.jpg 1036w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No CTI, dividi espa\u00e7o com quatro homens que, como eu, tinham hist\u00f3rias marcadas a ferro pela doen\u00e7a. Foi ali que nasceu o grupo &#8220;Prost\u00e1ticos N\u00e3o Prostrados&#8221; &#8211; uma tentativa desesperada de criar la\u00e7os onde s\u00f3 havia medo e expectativa. Miguel, 56 anos, era o mais jovem do grupo. Casado, pai de duas meninas, ele confessou numa noite insone: &#8220;Como ser o homem da casa quando nem sequer consigo ser homem na cama?&#8221;. A disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til p\u00f3s-cirurgia o consumia mais que o c\u00e2ncer. Seu Marinho, 83, mineiro de sorriso cansado, dizia querer &#8220;morrer perto do mar&#8221;. Vi\u00favo, vivia com o filho, e sua maior dor era o peso que representava. Antonio, 66, devoto de Santo Ant\u00f4nio, tinha o conforto de uma esposa enfermeira que conhecia cada detalhe do tratamento. E ent\u00e3o havia &#8220;Corinthiano&#8221;, 67, que jurava de p\u00e9 junto que n\u00e3o morreria antes de ver seu time campe\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi o Corinthiano quem partiu primeiro. A not\u00edcia veio por mensagem no grupo, seguida por um sil\u00eancio pesado. Durante semanas, evitamos falar sobre ele, como se mencionar sua morte fosse conjurar nossos pr\u00f3prios fantasmas. Mas quando Miguel, nosso companheiro mais jovem, se suicidou no in\u00edcio de 2024, o sil\u00eancio se tornou insustent\u00e1vel. Soube que Miguel havia ligado para Antonio na noite anterior. &#8220;Estou brocha, minha esposa me olha com pena, minhas filhas n\u00e3o veem mais um pai &#8211; veem um doente&#8221;, confessara. Dif\u00edcil imaginar que aquela seria sua despedida.<\/p>\n<p>Essas mortes me fizeram enxergar o abismo que nos separa das mulheres quando o assunto \u00e9 c\u00e2ncer. Enquanto elas transformam mastectomias em bandeiras, criam redes de apoio, publicam mem\u00f3rias e ocupam espa\u00e7os, n\u00f3s homens seguimos mordendo o l\u00e1bio e engolindo o choro. Quantas vezes ouvi colegas de tratamento dizerem que preferiam morrer a fazer o exame de toque? Quantos, como Miguel, escolheram de fato essa op\u00e7\u00e3o? Nossa masculinidade fr\u00e1gil nos condena ao isolamento. Falamos de futebol, de pol\u00edtica, de carros &#8211; mas n\u00e3o falamos do medo que nos corr\u00f3i por dentro. Nas livrarias, encontrei centenas de relatos sobre c\u00e2ncer de mama &#8211; hist\u00f3rias de dor, mas tamb\u00e9m de supera\u00e7\u00e3o e sororidade. Para n\u00f3s, homens? Quase nada. Como se nossa dor fosse menos digna de registro. Como se virilidade e vulnerabilidade n\u00e3o pudessem coexistir.<\/p>\n<p>Hoje, olho para tr\u00e1s e vejo que sobrevivi n\u00e3o apenas ao c\u00e2ncer, mas \u00e0 armadilha do sil\u00eancio. O grupo &#8220;Prost\u00e1ticos N\u00e3o Prostrados&#8221; ainda existe, embora as mensagens sejam raras. \u00c0s vezes, algu\u00e9m pergunta como estou. Outras vezes, compartilho artigos sobre novos tratamentos. Mas o que realmente importa \u00e9 que mantemos a porta entreaberta &#8211; um convite para que outros homens ousem entrar e, quem sabe, comecem a falar.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros continuam l\u00e1: 71 mil novos casos por ano. 16 mil mortes. Um em cada nove homens. Por tr\u00e1s de cada estat\u00edstica, h\u00e1 uma hist\u00f3ria como a minha, como a do Miguel, como a do Corinthiano. At\u00e9 quando vamos insistir em enfrent\u00e1-las sozinhos?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitos homens se recusam a fazer regularmente o exame de toque O diagn\u00f3stico veio como um soco no est\u00f4mago. &#8220;C\u00e2ncer de pr\u00f3stata&#8221; &#8211; duas palavras &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21452,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21448","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21448"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21451,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21448\/revisions\/21451"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21452"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}