{"id":21415,"date":"2025-04-06T11:45:22","date_gmt":"2025-04-06T14:45:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21415"},"modified":"2025-04-06T12:09:02","modified_gmt":"2025-04-06T15:09:02","slug":"primeiro-de-abril-e-a-historia-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/primeiro-de-abril-e-a-historia-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PRIMEIRO DE ABRIL E A HIST\u00d3RIA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria \u00e9 um grande palco onde fatos e fic\u00e7\u00f5es dan\u00e7am juntos como um casal estranho: \u00e0s vezes em harmonia, \u00e0s vezes pisando no p\u00e9 um do outro. Desde os prim\u00f3rdios, narrativas foram usadas para explicar o mundo, justificar atos question\u00e1veis e at\u00e9 entreter. Mas ser\u00e1 que toda hist\u00f3ria precisa ser verdadeira? Ou ser\u00e1 que algumas s\u00e3o apenas uma bela mentira bem contada, como um tio exagerado contando vantagem no almo\u00e7o de domingo? Afinal, se acreditamos que Pedro \u00c1lvares Cabral &#8220;descobriu&#8221; um lugar onde j\u00e1 moravam milh\u00f5es de pessoas, por que n\u00e3o podemos brincar um pouco com a verdade?<\/p>\n<p>Vejamos o caso do Dia da Mentira, celebrado em 1\u00ba de abril. Suas origens s\u00e3o um verdadeiro enigma, digno de uma investiga\u00e7\u00e3o no estilo Sherlock Holmes \u2013 ou melhor, no estilo Inspetor Clouseau, j\u00e1 que a confus\u00e3o aqui reina absoluta. Uma das vers\u00f5es mais conhecidas remonta \u00e0 Fran\u00e7a do s\u00e9culo XVI. At\u00e9 1564, os franceses comemoravam o Ano Novo em 25 de mar\u00e7o, esticando a festa at\u00e9 1\u00ba de abril, porque, convenhamos, qualquer desculpa para mais uma festinha \u00e9 v\u00e1lida. Mas a\u00ed veio Carlos IX e decretou que o Ano Novo deveria come\u00e7ar em 1\u00ba de janeiro. O problema? Sem WhatsApp, Twitter ou mesmo um pombo-correio eficiente, muita gente continuou comemorando no antigo calend\u00e1rio e virou motivo de chacota. Recebiam convites falsos, presentes esquisitos e, claro, eram chamados de &#8220;tolos de abril&#8221;. Em outras palavras, o primeiro grande caso documentado de <em>fake news<\/em> hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o para por a\u00ed! Existem explica\u00e7\u00f5es ainda mais antigas. Na Roma Antiga, havia a Hil\u00e1ria, um festival no dia 25 de mar\u00e7o onde as pessoas usavam disfarces e riam de tudo e de todos, uma esp\u00e9cie de Carnaval. Enquanto isso, na \u00cdndia, o Holi, com suas cores e bagun\u00e7a, marcava o fim de mar\u00e7o com um clima perfeito para brincadeiras. Coincid\u00eancia? Talvez. Ou talvez a humanidade sempre tenha gostado de um bom motivo para enganar os outros sem culpa. Quem nunca contou uma hist\u00f3ria para evitar uma bronca? &#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/02-Holi-indiano.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21416\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/02-Holi-indiano-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/02-Holi-indiano-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/02-Holi-indiano-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/02-Holi-indiano-768x513.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/02-Holi-indiano.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Na \u00cdndia, o Holi marcava o fim de mar\u00e7o com um clima perfeito para brincadeiras<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas eis a grande quest\u00e3o: ser\u00e1 que a hist\u00f3ria sempre nos conta a verdade? Santo Agostinho, l\u00e1 no s\u00e9culo IV, j\u00e1 pensava sobre o tempo e dizia que o passado s\u00f3 existe na mem\u00f3ria, o futuro \u00e9 s\u00f3 uma ideia e o presente&#8230; bem, ele mal dura o suficiente para a gente peg\u00e1-lo. Em outras palavras, o tempo \u00e9 um conceito t\u00e3o escorregadio quanto um sabonete no banho. Isso quer dizer que a hist\u00f3ria, sendo um amontoado de passados, pode muito bem ser uma grande fic\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>E falando em fic\u00e7\u00e3o, Santo Agostinho tinha uma teoria curiosa sobre a mentira. Em seu livro &#8220;Sobre a Mentira&#8221; (De Mendacio), ele separava o embuste \u2013 a mentira maldosa usada para enganar \u2013 da mentira generosa, aquela contada por um bom motivo. Para ele, mentir para oprimir ou trapacear era pecado, mas aquela mentirinha para salvar um amigo, para aliviar um sofrimento, ou at\u00e9 mesmo para contar uma boa hist\u00f3ria? Essa j\u00e1 n\u00e3o parecia t\u00e3o conden\u00e1vel. Ou seja, se sua av\u00f3 disser que o mingau de aveia que ela fez \u00e9 delicioso e voc\u00ea, para n\u00e3o mago\u00e1-la, responder &#8220;Humm, que maravilha!&#8221;, Santo Agostinho provavelmente te absolveria.<\/p>\n<p>Se aplicarmos isso \u00e0 hist\u00f3ria, ser\u00e1 que algumas vers\u00f5es um pouco distorcidas n\u00e3o poderiam ser vistas como &#8220;mentiras do bem&#8221;? Vamos a um exemplo cl\u00e1ssico: Tiradentes. A imagem que temos dele, com longos cabelos e barba de profeta, foi criada muito tempo depois de sua morte para refor\u00e7ar seu papel de m\u00e1rtir da Inconfid\u00eancia Mineira. Essa &#8220;mentira generosa&#8221; ajudou a construir um s\u00edmbolo nacional. Ent\u00e3o, foi um embuste ou apenas uma bela narrativa para inspirar?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Santo-Agostinho.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21417\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Santo-Agostinho-450x212.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"212\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Santo-Agostinho-450x212.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Santo-Agostinho-300x141.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Santo-Agostinho-768x361.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Santo-Agostinho.jpg 850w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Agora voltemos ao Dia da Mentira. Ele pode ter nascido na Fran\u00e7a, em Roma ou na \u00cdndia, mas o que importa \u00e9 que existe, e n\u00f3s o usamos para pregar pe\u00e7as nos outros \u2013 tudo dentro dos limites do bom humor (ou quase). E no final, a hist\u00f3ria \u00e9 uma grande colcha de retalhos onde se misturam verdades, exageros e inven\u00e7\u00f5es descaradas. E, \u00e0s vezes, o que acreditamos ser um fato \u00e9 apenas uma mentira que sobreviveu tempo suficiente para virar tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, podemos concluir que a hist\u00f3ria \u00e9 como um grande teatro onde os fatos reais e as f\u00e1bulas dividem o mesmo palco. Alguns relatos s\u00e3o criados para justificar mudan\u00e7as pol\u00edticas, outros para nos fazer rir, e muitos simplesmente porque algu\u00e9m achou que seria mais divertido assim. No final, a pergunta permanece: se acreditamos em certas vers\u00f5es, isso as torna verdadeiras? Santo Agostinho talvez nos dissesse que, se o tempo \u00e9 uma ilus\u00e3o, a hist\u00f3ria pode ser tamb\u00e9m. Mas, enquanto filosofamos sobre isso, seguimos contando hist\u00f3rias, misturando verdades e fic\u00e7\u00f5es \u2013 e, claro, nos divertindo com tudo isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria \u00e9 um grande palco onde fatos e fic\u00e7\u00f5es dan\u00e7am juntos como um casal estranho: \u00e0s vezes em harmonia, \u00e0s vezes pisando no p\u00e9 &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21418,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21415","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21415","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21415"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21415\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21419,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21415\/revisions\/21419"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21418"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}