{"id":21397,"date":"2025-03-30T11:00:13","date_gmt":"2025-03-30T14:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21397"},"modified":"2025-03-30T11:01:47","modified_gmt":"2025-03-30T14:01:47","slug":"adeus-helo-adeus-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/adeus-helo-adeus-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"ADEUS HEL\u00d4, ADEUS&#8230; (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Bonita \u00e9 pouco, linda; culta \u00e9 pouco, cult\u00edssima; ativista \u00e9 pouco, militante. Falo de Heloisa Teixeira, mulher de letras que um dia foi Buarque de Holanda, nome inc\u00f4modo emprestado do primeiro marido. E vale come\u00e7ar por a\u00ed: incomodada com o nobre aposto, aos 83 anos \u2013 portanto, dois anos passados \u2013, resolveu adotar Teixeira em homenagem a sua m\u00e3e. Nada mais coerente e adequado a uma feminista que, al\u00e9m de alterar os registros, tatuou nas costas o novo aposto. Interessante que n\u00e3o mexeu no primeiro nome, Heloisa, e adivinho o motivo, pois Helo\u00edsa significa &#8220;guerreira brilhante&#8221;, &#8220;aquela que brilha na batalha&#8221;, &#8220;combatente gloriosa&#8221;, &#8220;guerreira famosa&#8221;, &#8220;famosa na guerra&#8221;. Nada mais adequado: Heloisa Teixeira&#8230;<\/p>\n<p>Imagino que n\u00e3o faltar\u00e3o epit\u00e1fios, todos celebrando a imortal da Academia Brasileira de Letras, a aluna graduada com distin\u00e7\u00e3o em Letras Cl\u00e1ssicas pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (1961), com mestrado em Letras, onde foi aluna querida e assistente de Afr\u00e2nio Coutinho, que tamb\u00e9m a orientou no doutorado em Letras (1979). Fez p\u00f3s-doutorado em Sociologia da Cultura na Columbia University (1982-83). Em termos docentes, foi professora de Teoria Cr\u00edtica da Cultura da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e, por um tempo, Coordenadora do Programa Avan\u00e7ado de Cultura Contempor\u00e2nea, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro. N\u00e3o faltar\u00e3o complementos formais que, por mais que se estendam, jamais dar\u00e3o conta do labor dessa feminista assumida, internacionalmente reconhecida.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Sorrindo.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21398\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Sorrindo-450x236.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Sorrindo-450x236.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Sorrindo-300x158.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Sorrindo.webp 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A par de tantas loas, sinto-me convidado a revelar o impacto da amiga Hel\u00f4 em minha vida. Ali\u00e1s, da presen\u00e7a determinante dela numa p\u00e1gina que virou a leitura do Brasil em termos de uma de suas causas mais determinantes: a literatura marginal ou perif\u00e9rica brasileira. Permito-me valer de breve arco hist\u00f3rico para contextualizar melhor nossos encontros. Tudo come\u00e7ou em 1983, quando nos conhecemos na Universidade de Stanford, Calif\u00f3rnia, onde ambos atu\u00e1vamos como professores convidados. Hel\u00f4 \u2013 como gostava de ser reconhecida por amigos \u2013 dava um curso sobre Literatura Brasileira, e eu ministrava outro sobre Monteiro Lobato. Afinamos leituras comuns e repart\u00edamos semin\u00e1rios. Toda essa experi\u00eancia foi inesquec\u00edvel, mas houve um momento em especial quando, frente \u00e0 leitura de\u00a0<em>O Presidente Negro<\/em>, os estudantes, exaltados, questionavam sobre o racismo \u00e0 brasileira.<\/p>\n<p>O tempo passou, retornamos aos nossos nichos docentes: ela na Universidade Federal do Rio de Janeiro, eu na Universidade de S\u00e3o Paulo. Ainda que cordiais, tivemos novo encontro intenso quando eu fui Coordenador Geral do Congresso Am\u00e9rica 92, projeto pretensioso que implicava apresenta\u00e7\u00f5es tanto em S\u00e3o Paulo como no Rio de Janeiro. Com cerca de 5 mil inscritos e mais de 400 convidados internacionais, Hel\u00f4 cuidou da parte carioca e transformou a aventura em sucesso absoluto.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio andou, e novamente nos encontramos, desta vez com consequ\u00eancias determinantes em nossos projetos pessoais. Fui ao Rio para entregar a uma editora interessada os originais do meu livro sobre\u00a0<em>Cinderela Negra: a saga de Carolina Maria de Jesus<\/em>. Marcamos um inocente caf\u00e9, e, conversa vai, conversa vem, ela come\u00e7ou a dissertar sobre seu projeto afeito \u00e0 literatura marginal. Meu Deus, como ela &#8220;denvaniava&#8221;! Olhos brilhantes, gestos largos, dissertava sobre a ambival\u00eancia da cultura brasileira, que tinha um arsenal perif\u00e9rico inigual\u00e1vel e apenas celebrava a norma culta, a express\u00e3o da elite. E eu com o texto da Carolina na m\u00e3o. Trocando conversas, eis que, num repente quase abrupto, Hel\u00f4 rouba-me o pacote e, taxativa, diz: &#8220;Eu quero publicar esse livro&#8221;. Mais eloquente, pontificou: &#8220;Z\u00e9quinha&#8221; \u2013 era assim que ela me chamava \u2013, &#8220;este trabalho tem que ter o selo da Universidade. Nada de publicar um texto de Carolina por uma editora burguesa&#8230; Pense no significado simb\u00f3lico de ressuscitar Carolina pela Editora da UFRJ, e eu sou a respons\u00e1vel&#8221;. De tal forma foi convincente que tive que me explicar com a outra parte interessada. E, de fato, o livro saiu lindo, trabalhad\u00edssimo, por ela, a quem agradeci como &#8220;madrinha&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Carolina-Maria-de-Jesus-JPEG.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21399\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Carolina-Maria-de-Jesus-JPEG-450x354.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"354\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Carolina-Maria-de-Jesus-JPEG-450x354.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Carolina-Maria-de-Jesus-JPEG-300x236.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Carolina-Maria-de-Jesus-JPEG-768x605.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Carolina-Maria-de-Jesus-JPEG.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer que Hel\u00f4 j\u00e1 estava emprenhada na tal literatura marginal, empreendimento que depois a levou a se dedicar a trabalhos com a &#8220;Universidade das Quebradas&#8221;, mas o not\u00e1vel \u00e9 que, mesmo sem consultar o probo corpo editorial, ela me incentivou a lan\u00e7ar os poemas de Carolina segundo uma\u00a0<em>Antologia Pessoal<\/em>\u00a0\u2013 ou seja, de acordo com uma sele\u00e7\u00e3o feita pela pr\u00f3pria autora. E foi um sucesso enorme, capaz de quebrar paradigmas. E a cada encontro que tive com a amiga do cora\u00e7\u00e3o, ela dava dois beijinhos, dizendo: &#8220;Um pelo\u00a0<em>Cinderela Negra<\/em>, outro pela\u00a0<em>Antologia Pessoal<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Hoje, me despe\u00e7o da Hel\u00f4, duplamente amargurado. Digo meu adeus: um pelo reconhecimento de uma afinidade que chega a termo sem o devido agradecimento em vida; outro pelo sucesso de sua luta pela ponte estabelecida por ela entre a elite da cultura erudita e a periferia.<\/p>\n<p>E termino dizendo que o nome do meio de Heloisa \u00e9 Severo. E como ela foi severa na luta por uma literatura brasileira mais democr\u00e1tica e integrativa. Adeus, Hel\u00f4. Estou chorando e sorrindo: chorando de saudade antecipada e sorrindo pelo que fizemos juntos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bonita \u00e9 pouco, linda; culta \u00e9 pouco, cult\u00edssima; ativista \u00e9 pouco, militante. 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