{"id":21295,"date":"2024-12-29T08:30:52","date_gmt":"2024-12-29T11:30:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21295"},"modified":"2024-12-29T08:30:52","modified_gmt":"2024-12-29T11:30:52","slug":"2025-e-o-inventario-do-descartavel-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/2025-e-o-inventario-do-descartavel-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"2025 E O INVENT\u00c1RIO DO DESCART\u00c1VEL (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Foi r\u00e1pido, muito r\u00e1pido. 2024 j\u00e1 est\u00e1 indo embora, como se tivesse sido um borr\u00e3o no tempo. Uma frase de Clarice Lispector parece perfeita para descrever esse ano que se comprime em instantes: o segundo dentro de minuto, dentro da hora, dentro da semana, do m\u00eas e do ano que cabe no segundo presente. E 2025 j\u00e1 se aproxima, cauteloso, carregando as heran\u00e7as pesadas do ano que alonga sua sombra.<\/p>\n<p>Pensando nisso, decidi n\u00e3o fazer promessas irreais nem me perder em utopias improv\u00e1veis. Resolvi me centrar no que n\u00e3o quero para o pr\u00f3ximo ano. Porque, no fundo, a verdadeira mudan\u00e7a n\u00e3o nasce de listas de desejos, mas do abandono do que nos prende, sufoca e confunde. \u00c9 no &#8220;n\u00e3o quero&#8221; que mora a liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero mais perder tempo com bobagens. N\u00e3o quero viver no desalinho das redes sociais, tampouco me deixar arrastar pela superficialidade dos <em>likes<\/em> e das opini\u00f5es que evaporam ao menor sopro. N\u00e3o quero distra\u00e7\u00f5es que n\u00e3o somam, nem bajula\u00e7\u00f5es que corroem a honestidade. O sil\u00eancio que busco n\u00e3o \u00e9 o vazio da indiferen\u00e7a, mas aquele que fala. O sil\u00eancio do paradoxo: discreto, mas profundo, que ouve antes de responder, que permite o espa\u00e7o necess\u00e1rio para pensar. N\u00e3o quero me sentir obrigado a reagir a toda provoca\u00e7\u00e3o, como se todo est\u00edmulo externo exigisse um eco.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Clarice-Lispector.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21296\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Clarice-Lispector-450x338.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Clarice-Lispector-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Clarice-Lispector-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Clarice-Lispector.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam&#8221;, Clarice Lispector<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o quero acumular mais pap\u00e9is, roupas, objetos in\u00fateis, nem, sobretudo, rela\u00e7\u00f5es vazias. Tudo o que n\u00e3o serve, o que pesa, ficar\u00e1 para tr\u00e1s. Lembro, com ironia, da frase de Sartre que animou meus verdes anos: \u201cda vida s\u00f3 quero os excessos\u201d. Hoje, percebo que o excesso, longe de ser libertador, \u00e9 uma pris\u00e3o disfar\u00e7ada. N\u00e3o quero mais demasias; quero o essencial.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero uma vida atolada de pend\u00eancias. Quero (ou melhor, n\u00e3o quero deixar de) organizar os arm\u00e1rios da casa e da alma. N\u00e3o quero a falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a que vem do ac\u00famulo. Quero abrir espa\u00e7o para o que realmente importa. Desapegar n\u00e3o \u00e9 perda; \u00e9 descoberta.<\/p>\n<p>E no mundo das ideias, o que n\u00e3o quero? N\u00e3o quero alimentar o \u00f3dio, a raiva, ou as hostilidades que enfraquecem a alma. N\u00e3o quero fazer parte das trincheiras ideol\u00f3gicas que apenas refor\u00e7am divis\u00f5es. As contradi\u00e7\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es continuam l\u00e1, e \u00e9 verdade que elas muitas vezes nos exasperam. Mas n\u00e3o quero engrossar os gritos de quem semeia tumulto sem prop\u00f3sito, de quem ergue o caos apenas para garantir sua pr\u00f3pria voz.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o quero cair no sil\u00eancio alienante. Prefiro o sil\u00eancio que reflete, que permite conex\u00e3o e clareza. N\u00e3o quero respostas prontas, mas perguntas que inquietem e inspirem. Quero argumentar com os bons e s\u00e1bios, com aqueles que procuram, n\u00e3o com os que acham que j\u00e1 encontraram todas as verdades.<\/p>\n<p>E a arte? N\u00e3o quero mais a arte alienante, que reduz nossa sensibilidade \u00e0 mera contempla\u00e7\u00e3o vazia. Mas tampouco quero uma arte aprisionada em sectarismos, que sintetiza sua ess\u00eancia ao panfleto. N\u00e3o quero arte que se fecha em dogmas, mas aquela que nos abre ao mundo e a n\u00f3s mesmos, que nos desafia, emociona e faz crescer.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero correr sem dire\u00e7\u00e3o, nem revisitar sempre os mesmos lugares. O novo faz sentido quando nos transforma. N\u00e3o quero apenas acumular milhas; quero viagens que me levem para dentro de mim mesmo, que revelem o que ainda n\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero amizades de fachada, rela\u00e7\u00f5es que se medem por quantidade. Prefiro poucos amigos, mas profundos. Aqueles que sabem que a verdadeira festa est\u00e1 na simplicidade, no momento compartilhado, no riso despretensioso, no abra\u00e7o sincero. N\u00e3o quero a felicidade quim\u00e9rica que vem e vai. Quero a alegria serena, aquela que se instala devagar e permanece.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Silvio-Tendler.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21297\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Silvio-Tendler-338x450.jpg\" alt=\"\" width=\"338\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Silvio-Tendler-338x450.jpg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Silvio-Tendler-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Silvio-Tendler-768x1024.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Silvio-Tendler-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Silvio-Tendler.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Silvio Tendler, um utopista inveterado e militante, amigo do Mestre Sebe<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E quanto ao dinheiro? N\u00e3o quero mais. Nem mais posses, nem mais poses. N\u00e3o quero a corrida insana por coisas que parecem essenciais, mas que apenas capitalizam o vazio. N\u00e3o quero um ninho assediado por aves barulhentas, mas um espa\u00e7o pequeno, acolhedor, onde s\u00f3 cabe o que realmente tem valor.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o quero para 2025 \u00e9 essa busca sem fim por mais. N\u00e3o quero a press\u00e3o de responsabilidades que n\u00e3o escolhi. Quero menos pressa, menos caos, menos confus\u00e3o. Assim, 2025 ser\u00e1 o ano de aprender a viver com menos: menos distra\u00e7\u00f5es, menos excessos, menos ru\u00eddo. N\u00e3o quero seguir os mesmos caminhos de sempre. N\u00e3o quero me perder na busca pelo que n\u00e3o importa. N\u00e3o quero repetir os erros do passado.<\/p>\n<p>Sei que isso exige coragem. Abrir m\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil do que pedir. Mas \u00e9 no \u201cn\u00e3o quero\u201d que pretendo encontrar o que realmente faz sentido.<\/p>\n<p>E voc\u00ea, o que n\u00e3o quer?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi r\u00e1pido, muito r\u00e1pido. 2024 j\u00e1 est\u00e1 indo embora, como se tivesse sido um borr\u00e3o no tempo. Uma frase de Clarice Lispector parece perfeita para &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21298,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21295","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21295"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21295\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21299,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21295\/revisions\/21299"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}