{"id":21232,"date":"2024-11-17T08:20:44","date_gmt":"2024-11-17T11:20:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21232"},"modified":"2024-11-17T08:20:44","modified_gmt":"2024-11-17T11:20:44","slug":"e-se-eu-fosse-negro-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/e-se-eu-fosse-negro-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"E SE EU FOSSE NEGRO! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Foi com certo pesar que ouvi cr\u00edticas contra a celebra\u00e7\u00e3o do Dia da Consci\u00eancia Negra. Surpreendi-me ainda mais ao perceber que o protesto vinha de algu\u00e9m que, a princ\u00edpio, eu considerava esclarecido \u2014 uma pessoa que imaginei capaz de compreender o significado do 20 de novembro, dia que homenageia Zumbi dos Palmares e representa a luta pela dignidade e igualdade para a comunidade negra no Brasil. N\u00e3o contive minha indigna\u00e7\u00e3o e respondi como quem acredita firmemente que as causas identit\u00e1rias s\u00e3o parte do caminho para uma sociedade mais justa e democr\u00e1tica. Sim, estou ao lado de quem respeita as diferen\u00e7as e reconhece, na hist\u00f3ria, o valor fundamental da negritude brasileira. E n\u00e3o tenho como negar que sim, somos um pa\u00eds racista, ainda que nos percamos nas sutilezas de uma tropicalidade fantasiosa.<\/p>\n<p>Desde menino, cresci ouvindo que o Brasil era um pa\u00eds exemplo, onde diferentes \u201cra\u00e7as\u201d conviviam harmoniosamente. Essa imagem parecia um consenso: o \u201cpa\u00eds mesti\u00e7o\u201d que encontrou sua paz em meio \u00e0s diferen\u00e7as, como se tiv\u00e9ssemos resolvido as quest\u00f5es raciais por uma conviv\u00eancia pac\u00edfica quase natural. Na escola e nas conversas de fam\u00edlia, aprendemos cedo sobre essa narrativa. Mesmo sendo filho de imigrantes, n\u00e3o me era dado pensar no trabalho compuls\u00f3rio dos ex escravizados como algo ex\u00f3tico. Mas, com o tempo, fui compreendendo as armadilhas do mito da \u201cdemocracia racial\u201d, atribu\u00eddo a Gilberto Freyre, que, embora tenha valorizado a mistura, tamb\u00e9m disfar\u00e7ava desigualdades e injusti\u00e7as persistentes. Aceitei as rela\u00e7\u00f5es sociais que via ao meu redor e, por vezes, me escapava a percep\u00e7\u00e3o de que, no conforto da palavra \u201ctoler\u00e2ncia\u201d, podia haver embutida uma crueldade sutil. O que eu via como toler\u00e2ncia, muitos poderiam sentir como uma aceita\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, que obscurecia a realidade de exclus\u00e3o e resist\u00eancia do povo negro. E, num desses momentos de reflex\u00e3o, me perguntei: e se eu fosse negro?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Miscigenacao-de-Gilberto-Freyre.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21233\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Miscigenacao-de-Gilberto-Freyre-450x236.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Miscigenacao-de-Gilberto-Freyre-450x236.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Miscigenacao-de-Gilberto-Freyre-300x157.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Miscigenacao-de-Gilberto-Freyre-768x402.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Miscigenacao-de-Gilberto-Freyre.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Para Gilberto Freyre, o Brasil seria a &#8220;mais avan\u00e7ada democracia racial do mundo&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Se, em vez de branco, eu tivesse nascido negro, viveria desde cedo o peso de ser constantemente visto como um \u201coutro\u201d, algu\u00e9m que deveria se ajustar a padr\u00f5es que n\u00e3o foram pensados para inclui-lo. A cor da minha pele deixaria de ser apenas uma caracter\u00edstica: ela se tornaria um s\u00edmbolo e, em alguns contextos, um fardo. Desde jovem, eu saberia que minha pele me colocaria numa posi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia e, ao mesmo tempo, de vulnerabilidade. Saber que minha identidade, marcada por uma hist\u00f3ria que n\u00e3o escolhi, poderia ser usada para me limitar e categorizar seria uma li\u00e7\u00e3o dura e constante.<\/p>\n<p>Se eu fosse negro, talvez precisasse estar atento a cada movimento, sabendo que poderia ser interpretado atrav\u00e9s de estere\u00f3tipos constru\u00eddos por uma sociedade que ainda insiste em ver o negro como subalterno. Passaria a vida sob olhares que, muitas vezes, perpetuam um sistema que oprime e distorce tudo o que n\u00e3o corresponde ao padr\u00e3o hegem\u00f4nico, euroc\u00eantrico. E, desde muito cedo, eu saberia que at\u00e9 as situa\u00e7\u00f5es mais cotidianas \u2014 caminhar pela rua, sentar-se em um restaurante ou ser abordado por uma autoridade \u2014 poderiam ganhar interpreta\u00e7\u00f5es que, para muitos, seriam impens\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas sendo branco, reconhe\u00e7o que minha posi\u00e7\u00e3o traz responsabilidades. Atravesso a vida sem pensar na cor da minha pele ao sair de casa ou ao ocupar um espa\u00e7o p\u00fablico. Esse privil\u00e9gio, essa liberdade de transitar sem ser questionado por minha apar\u00eancia, me faz ver o quanto sou beneficiado por uma estrutura que ainda distribui oportunidades de maneira desigual. Tomar consci\u00eancia desses privil\u00e9gios \u00e9 desconfort\u00e1vel, mas necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Desejo, ent\u00e3o, que o Dia da Consci\u00eancia Negra n\u00e3o seja apenas um momento de celebra\u00e7\u00e3o para a comunidade negra, mas tamb\u00e9m um chamado \u00e0 reflex\u00e3o para aqueles que, como eu, comp\u00f5em a branquitude e se sentem ao menos inquietos com o estado de coisas. Que possamos fazer desse dia uma data de compromisso, uma oportunidade de reconhecer nosso papel na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. Saudando a negritude, reconhe\u00e7o tamb\u00e9m que minha pr\u00f3pria identidade precisa ser revisitada. A branquitude, constru\u00edda \u00e0 custa da nega\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d, carrega uma desafiante responsabilidade hist\u00f3rica. Em um pa\u00eds que ostenta cicatrizes profundas da escravid\u00e3o e que, at\u00e9 hoje, ignora as contribui\u00e7\u00f5es e a plena humanidade dos negros, n\u00e3o posso ser conivente com a continuidade desse sistema.<\/p>\n<p>Sonho com um futuro em que possamos caminhar lado a lado, verdadeiramente livres, em um pa\u00eds onde a identidade de cada pessoa seja motivo de orgulho e n\u00e3o de opress\u00e3o. Avan\u00e7ar para esse futuro \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua, sim, mas necess\u00e1ria. E se reconhe\u00e7o que sou parte do problema, acredito, tamb\u00e9m, que posso ser parte da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi com certo pesar que ouvi cr\u00edticas contra a celebra\u00e7\u00e3o do Dia da Consci\u00eancia Negra. 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