{"id":21222,"date":"2024-11-02T09:00:05","date_gmt":"2024-11-02T12:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21222"},"modified":"2024-11-02T09:06:49","modified_gmt":"2024-11-02T12:06:49","slug":"dia-dos-mortos-a-licao-de-minha-avo-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/dia-dos-mortos-a-licao-de-minha-avo-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"DIA DOS MORTOS, A LI\u00c7\u00c3O DE MINHA AV\u00d3&#8230; (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Nos cemit\u00e9rios h\u00e1 um sil\u00eancio singular que os mais cr\u00e9dulos at\u00e9 podem atestar com as vozes dos que se foram<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sim, o mundo mudou muito. E n\u00e3o s\u00f3 pela crise clim\u00e1tica, pelo avan\u00e7o fren\u00e9tico da tecnologia ou pelas novas din\u00e2micas nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Refleti sobre isso ao pensar nas formas de celebrar o \u201cDia dos Mortos\u201d e percebi como mudamos at\u00e9 nas palavras: \u201cmortos\u201d virou \u201cfinados\u201d e, mais recentemente, apenas \u201cferiado\u201d. De forma discreta, quase sorrateira, o passado me tomou com lembran\u00e7as de outras eras \u2014 um tempo em que a fam\u00edlia, dispersa por v\u00e1rias cidades, se reunia na casa de minha av\u00f3 e, de l\u00e1, como em prociss\u00e3o, caminh\u00e1vamos at\u00e9 o cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Havia muito preparo. Antes, lavava-se o t\u00famulo; no dia, lev\u00e1vamos flores, acend\u00edamos velas e faz\u00edamos ora\u00e7\u00f5es. Eu nunca entendi bem o motivo de tudo isso. Afinal, o que os mortos poderiam fazer com aquelas flores e velas? E por que tanta ora\u00e7\u00e3o? Vov\u00f3, s\u00e1bia, explicava que as flores n\u00e3o eram para os mortos, mas para n\u00f3s, os vivos. \u201c\u00c9 para manter a mem\u00f3ria deles\u201d, dizia com carinho. O tempo passou e, imagino, hoje minha av\u00f3 zelosa tamb\u00e9m espera por esse ritual sagrado. Presumo, contudo, que tenha suas decep\u00e7\u00f5es. Nada \u00e9 como antes&#8230;<\/p>\n<p>Ainda assim, para mim, o Dia dos Mortos traz recorda\u00e7\u00f5es intensas, e minha mem\u00f3ria revive rostos que marcaram minha vida. A data, sob essa perspectiva, traz um misto de saudade e conforto. Para quem j\u00e1 viveu bastante, como eu, a nostalgia \u00e9 uma companheira constante, mas no Dia dos Mortos ganha um sentido especial. Parece que, neste dia espec\u00edfico, os que partiram se fazem mais presentes, como se viessem nos visitar.<\/p>\n<p>J\u00e1 me despedi de muitos: meu grande amor, amigos de inf\u00e2ncia, parentes queridos. A vida vai somando essas aus\u00eancias. Alguns dizem que o tempo cura tudo, mas eu acredito que ele apenas nos ensina a conviver com as cicatrizes. \u00c9 como se nossas mem\u00f3rias fossem pe\u00e7as de um museu que visitamos uma vez por ano. Mesmo com o passar do tempo, h\u00e1 ainda uma beleza melanc\u00f3lica nos cemit\u00e9rios, um sil\u00eancio singular entre t\u00famulos que os mais cr\u00e9dulos at\u00e9 podem atestar com as vozes dos que se foram. Nos murm\u00farios dessas lembran\u00e7as, sorrisos presos se libertam, e at\u00e9 velhas desaven\u00e7as ganham novos contornos. Nesses momentos, sinto-me cercado por uma multid\u00e3o invis\u00edvel, composta por todos que amei e que se desprenderam do tempo infinito.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Dia-dos-mortos-Mexico.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21223\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Dia-dos-mortos-Mexico-450x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Dia-dos-mortos-Mexico-450x300.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Dia-dos-mortos-Mexico-300x200.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Dia-dos-mortos-Mexico-768x512.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Dia-dos-mortos-Mexico-1536x1023.jpeg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Dia-dos-mortos-Mexico.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>No M\u00e9xico se comemora com muita m\u00fasica e pratos t\u00edpicos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O Dia dos Mortos parece ser, de certa forma, um per\u00edodo em que as fronteiras entre este mundo e o outro se afrouxam um pouco. Talvez por isso, no M\u00e9xico, as pessoas celebrem com tanta vitalidade, montando altares decorados com flores de cempas\u00fachil, m\u00fasica e pratos t\u00edpicos. Aqui no Brasil, a tradi\u00e7\u00e3o sempre foi mais discreta, mas n\u00e3o menos significativa. N\u00e3o h\u00e1 banquetes, mas h\u00e1 visitas.<\/p>\n<p>A moderniza\u00e7\u00e3o trouxe transforma\u00e7\u00f5es fatais. Para envelhecidos como eu, ir aos cemit\u00e9rios tornou-se um programa dif\u00edcil. A dist\u00e2ncia imposta por mudan\u00e7as, a idade avan\u00e7ada e as emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele tornaram essa ida mais um fardo do que um consolo. Mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo. Na solitude do meu lar, criei meu pr\u00f3prio ritual: enfeito a casa com flores, acendo uma vela no parapeito da janela e desde o amanhecer busco o sil\u00eancio. A flor \u00e9 sempre uma rosa amarela, como minha amada gostava, um tributo \u00e0s velhas manias que cultiv\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Os jovens de hoje \u2014 eu at\u00e9 entendo \u2014 \u00e0s vezes olham para essas rever\u00eancias como uma tradi\u00e7\u00e3o ultrapassada, algo que n\u00e3o combina com o ritmo acelerado dos tempos modernos. Eu, por\u00e9m, vejo nisso uma chance de lembrar que a vida \u00e9 breve e que o tempo \u00e9 implac\u00e1vel. A morte \u00e9 a \u00fanica certeza que temos, mas isso n\u00e3o significa que seja o fim. Enquanto lembramos de algu\u00e9m, essa pessoa continua, de algum modo, a existir, seja em nossas mem\u00f3rias, seja em nossos gestos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, aqui estou eu, velho e refletindo sobre o tempo que passou e o que me resta. Em \u00eaxtase sereno, sinto-me cercado por uma companhia invis\u00edvel, uma legi\u00e3o de fantasmas amorosos que me acompanham desde os tempos de menino. E, por um instante, sinto que a dist\u00e2ncia entre o agora e o eterno n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande assim. Hoje, os mortos n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o longe, e a voz de minha av\u00f3 reacende em mim o verdadeiro sentido da celebra\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos cemit\u00e9rios h\u00e1 um sil\u00eancio singular que os mais cr\u00e9dulos at\u00e9 podem atestar com as vozes dos que se foram Sim, o mundo mudou muito. &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21226,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21222","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21222"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21222\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21225,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21222\/revisions\/21225"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21226"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}