{"id":21166,"date":"2024-10-06T10:35:24","date_gmt":"2024-10-06T13:35:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21166"},"modified":"2024-10-06T10:35:24","modified_gmt":"2024-10-06T13:35:24","slug":"a-eternidade-da-decada-de-1980-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-eternidade-da-decada-de-1980-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A ETERNIDADE DA D\u00c9CADA DE 1980 (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>para Paulo de Tarso Venceslau<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Se tivesse que escolher uma m\u00fasica para simbolizar os anos 1980 no Brasil seria &#8220;Que Pa\u00eds \u00e9 Este&#8221; (1987)&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Para muitos, os anos 1980 chegaram como quem desce do trem numa esta\u00e7\u00e3o sem pressa, mas tamb\u00e9m sem saber exatamente para ond&#8221;e ir. Era um tempo marcado pela espera, pela incerteza do futuro e pela urg\u00eancia de mudan\u00e7as. \u00c9poca perplexa em que o Brasil ensaiava seus primeiros passos fora da escurid\u00e3o do autoritarismo. No ar, a Abertura pol\u00edtica enchia os pulm\u00f5es democratas e mostrava a l\u00edngua para militares em marcha de sa\u00edda. Em cada canto, o aroma de mudan\u00e7a se misturava \u00e0 incerteza, e, para quem viveu aquele transe, era como se o futuro nunca estivesse t\u00e3o pr\u00f3ximo e t\u00e3o distante ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Lembro-me dos dias de hiperinfla\u00e7\u00e3o, em que o pre\u00e7o dos alimentos parecia obedecer ao ritmo do rel\u00f3gio. Reinava uma sensa\u00e7\u00e3o estranha como se o ch\u00e3o pudesse se mover sob os nossos p\u00e9s, inst\u00e1vel, inquieto, mas indicativo de possibilidades. Ao mesmo tempo, surgia um novo avante, embalado pelo grito incontido que ecoava dos com\u00edcios pela liberdade, pela recep\u00e7\u00e3o dos exilados e volta dos soldados aos quarteis. Na cena pol\u00edtica, uma nova estrela brilhava prometendo um tempo melhor. Aqueles anos, pois, desenharam mosaicos de contradi\u00e7\u00f5es, onde cabiam recome\u00e7os \u2013 dura realidade para quantos viram seus sonhos triturados na d\u00e9cada anterior. Mas o que ficou na mem\u00f3ria n\u00e3o foi apenas a euforia da redemocratiza\u00e7\u00e3o ou o caos econ\u00f4mico \u2013 foi a sensa\u00e7\u00e3o de estar vivendo um tempo \u00fanico, intenso, que pulsava nas esquinas, nos becos e em versos cantados por jovens que renasciam para a sociedade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anos-80.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21168\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anos-80-450x399.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anos-80-450x399.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anos-80-300x266.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anos-80.webp 631w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o rastro sinistro da hiperinfla\u00e7\u00e3o riscava o c\u00e9u amedrontado pelo desemprego e instabilidades pol\u00edticas. Tamb\u00e9m era dif\u00edcil apagar as marcas da desigualdade e da viol\u00eancia urbana expressas no crescimento da dist\u00e2ncia entre pobres e ricos, ambos sujeitos ao neoliberalismo e aos avan\u00e7os da esfomeada globaliza\u00e7\u00e3o. E t\u00e3o inseguro est\u00e1vamos que acabamos na cilada de Collor de Mello, eleito exatamente no fechar dos anos 1980.<\/p>\n<p>A par de tantos extremos e incertezas, por\u00e9m, cintilava a juventude que no caso brasileiro foi marcada pelo auge do rock nacional, pelo ressurgimento de nova safra de cancioneiros e pela defini\u00e7\u00e3o da qualidade de nossa televis\u00e3o. Ali\u00e1s, novelas se sucederam em sucessos galopantes como \u201cS\u00e9timo Sentido\u201d (1982-83), \u201cGuerra dos sexos\u201d (1983-84), \u201cBrega e Chique\u201d (1987) at\u00e9 o \u00e1pice com \u201cRoque Santeiro\u201d (1988-89). Em todos os lugares ouvia-se \u201cMenina veneno\u201d, \u201cFaz parte do meu show\u201d, \u201cFora da Lei\u201d. Ent\u00e3o \u201cLegi\u00e3o urbana\u201d concorria como \u201cParalamas do sucesso\u201d, que concorria com \u201cTit\u00e3s\u201d, que concorria com \u201cBar\u00e3o vermelho\u201d, \u201cBlitz\u201d, \u201cKid Abelha\u201d, \u201cCapital inicial\u201d, \u201cUltraje a rigor\u201d, \u201cEngenheiros do Hawaii\u201d, uff, e tantos outros.<\/p>\n<p>Os anos 1980, com todas as suas viravoltas, indo e vindo, mas sempre avan\u00e7ando, deixaram marcas profundas na identidade do Brasil que vivemos agora. Ainda que em termos de economia tenha sido per\u00edodo apelidado de \u201cd\u00e9cada perdida\u201d e tenhamos suportado grande \u00eaxodo de brasileiros que deixaram o pa\u00eds, foi um momento de transi\u00e7\u00e3o, de tens\u00f5es e de esperan\u00e7as. Tudo em busca de um pa\u00eds melhor porque politicamente mais aberto.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/diretas-ja.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21169\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/diretas-ja-450x277.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"277\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/diretas-ja-450x277.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/diretas-ja-300x185.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/diretas-ja-768x473.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/diretas-ja.webp 780w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Entre a virada de p\u00e1gina da ditadura c\u00edvico-militar e o renascimento da cultura, entre a euforia da redemocratiza\u00e7\u00e3o e as sombras do desemprego, vivemos uma d\u00e9cada que parecia suspensa no ar, como se o pa\u00eds estivesse \u00e0 beira de um futuro promissor, mas incerto e algo medroso. No entanto, foi justamente essa mistura de desafios e conquistas que forjou uma gera\u00e7\u00e3o de brasileiros resilientes, capazes de olhar para tr\u00e1s com a consci\u00eancia de que, apesar dos trope\u00e7os, a caminhada em dire\u00e7\u00e3o a uma sociedade mais livre e diversa havia, enfim, (re)come\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso n\u00e3o perder o arco hist\u00f3rico daquela d\u00e9cada, daquele tempo de busca da cara nova que o pa\u00eds buscava e ent\u00e3o pode-se dizer que se come\u00e7amos com o basta ao autoritarismo, se conseguimos finalmente eleger um Presidente pelo voto direto, foi com o mesmo impulso que em 1992 vimos os cara-pintadas nas ruas, creditando significado \u00e0 luta anterior. Se tivesse que escolher uma m\u00fasica para simbolizar os anos 1980 no Brasil seria &#8220;Que Pa\u00eds \u00e9 Este&#8221; (1987), do Legi\u00e3o Urbana. A letra expressa a indigna\u00e7\u00e3o com as injusti\u00e7as sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas daquele ent\u00e3o, ecoando o sentimento de insatisfa\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a de novos tempos democr\u00e1ticos. Essa can\u00e7\u00e3o reflete bem o esp\u00edrito cr\u00edtico e contestador de uma gera\u00e7\u00e3o que viveu a transi\u00e7\u00e3o da ditadura para a redemocratiza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de encapsular o senso de incerteza e revolta diante das desigualdades ainda presentes. Ali\u00e1s, rendendo tributos aos anos de 1980 vale reprisar o refr\u00e3o \u201cque pa\u00eds \u00e9 este?\u201d. Temos respostas?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>para Paulo de Tarso Venceslau &#8220;Se tivesse que escolher uma m\u00fasica para simbolizar os anos 1980 no Brasil seria &#8220;Que Pa\u00eds \u00e9 Este&#8221; (1987)&#8221; \u00a0Para &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21170,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21166","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21166","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21166"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21166\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21171,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21166\/revisions\/21171"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21170"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21166"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21166"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21166"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}