{"id":21135,"date":"2024-09-08T08:51:48","date_gmt":"2024-09-08T11:51:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=21135"},"modified":"2024-09-08T08:51:48","modified_gmt":"2024-09-08T11:51:48","slug":"o-cansaco-nosso-de-cada-dia-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-cansaco-nosso-de-cada-dia-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O CANSA\u00c7O NOSSO DE CADA DIA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos cansados, e esta \u00e9 uma verdade que se exibe a cada dia mais esticada. At\u00e9 onde chegaremos sem uma solu\u00e7\u00e3o? \u00c0s vezes me surpreendo olhando meus pares de vida e vejo todo mundo correndo de c\u00e1 pra l\u00e1, todos com compromissos atrasados, tudo muito coerente com a for\u00e7a da express\u00e3o brit\u00e2nica \u201c<em>time is Money<\/em>\u201d. Convidei-me a pensar minha imagem projetada nessas agendas contempor\u00e2neas e me vi confrontando a rela\u00e7\u00e3o entre o tempo emocional e o f\u00edsico. E achei que vivemos uma fase doente. Comecei o diagn\u00f3stico do mal pela \u201cm\u00e1quina de medir o tempo\u201d como diria Vitor Hugo. Ser\u00e1 que a culpa \u00e9 do aparelho?<\/p>\n<p>E considerei bizarras algumas manias atuais como o pre\u00e7o de alguns rel\u00f3gios e a pr\u00e1tica de colecionadores desse objeto t\u00e3o pass\u00edvel de ju\u00edzo. Coisa estranha o rel\u00f3gio, pensei. Foi assim que dei corda nessa inven\u00e7\u00e3o e aprendi que no Egito, j\u00e1 em 1500 a.C., media-se o tempo com sombras solares. Lembrei-me das ampulhetas medievais e avaliei o significado dos pesos e engrenagens usados para precisar os marcadores mec\u00e2nicos. Ocorreu-me o sucesso dos rel\u00f3gios de p\u00eandulos na Inglaterra vitoriana que colocava a pontualidade como virtude civilizada. Ao mesmo tempo, prezei o significado metaf\u00f3rico dos rel\u00f3gios de pulso, aqueles dispositivos carregados \u00e0 m\u00e3o. De um ou de outro jeito ficou aceit\u00e1vel que a luta pela precis\u00e3o explica a obsess\u00e3o por medi\u00e7\u00f5es de quartzo, ou mesmo rel\u00f3gios at\u00f4micos movidos pela vibra\u00e7\u00e3o dos \u00e1tomos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ampulheta.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21136\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ampulheta-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ampulheta-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ampulheta-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ampulheta-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ampulheta.jpg 1300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos rel\u00f3gios permitiu a passagem dos aparelhos para a significa\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica e, ent\u00e3o, me vi convocado \u00e0 outra m\u00e9trica. Como ponto de partida periodizei o cansa\u00e7o coletivo a partir de uma refer\u00eancia recente, resposta \u00e0 pandemia. N\u00e3o que viv\u00eassemos descansados antes do Covid 19, mas em termos de express\u00e3o coletiva foi depois da peste que parece chegada a hora marcada para o coletivo expressar manifesta\u00e7\u00f5es como o <em>burnout<\/em>. Repararam como as s\u00edndromes do p\u00e2nico e os processos depressivos cresceram? E que tal medirmos isso pelo aumento, nos dois \u00faltimos anos, de 5,2% de pessoas com animais dom\u00e9sticos, ou cerca de 3% do aumento de estabelecimentos que vendem produtos relacionados \u00e0s plantas? Estranha a rela\u00e7\u00e3o entre a solid\u00e3o e raiva embutida.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que antes havia sondagens anunciando o n\u00edvel de certas tens\u00f5es com enfermidades e que o abuso promovido pela produtividade sem limite acabava por impor respostas dos corpos expostos a produtividade a qualquer pre\u00e7o. Em 1910, o sul-coreano Byung-Chul Han teve sua obra \u201cA Sociedade do cansa\u00e7o\u201d lan\u00e7ada no Brasil e em p\u00e1ginas s\u00f3brias relacionava o estresse \u00e0s exig\u00eancias extremas, sutis, impostas pela cultura da concorr\u00eancia e premia\u00e7\u00e3o de vencedores. As cobran\u00e7as sociais, em todos os n\u00edveis, a come\u00e7ar pelas pr\u00f3prias fam\u00edlias, revelam a viol\u00eancia da positividade que seria respons\u00e1vel por produzir pessoas mecanizadas e centradas no que \u00e9 essencial para um sistema capitalista: a busca pelo lucro. Transgredindo o tempo de gesta\u00e7\u00e3o do atual estado emocional para o p\u00f3s-pandemia, temos um quadro cr\u00f4nico, doente mesmo, acionado pelas press\u00f5es presentes em nossas mentes, regendo o conv\u00edvio social.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21137\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher-450x450.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher-450x450.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher-300x300.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher-150x150.png 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher-768x768.png 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher-80x80.png 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher-360x360.png 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher-750x750.png 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Smart-watcher.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>As inef\u00e1veis polariza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sempre existiram ao longo da hist\u00f3ria. Oposi\u00e7\u00f5es se multiplicaram sempre em rela\u00e7\u00e3o progressiva, mas o \u00f3dio coletivizado nunca atingiu graus t\u00e3o consequentes e graves. \u00c9 como se gest\u00e1ssemos o cansa\u00e7o que no p\u00f3s-evento viralizou-se pelos meios eletr\u00f4nicos. Dentro de c\u00edrculos familiares, de rela\u00e7\u00f5es antes amistosas, em todos os espa\u00e7os estamos fracionados. Sei de hist\u00f3rias de amores desfeitos, de brigas de pais e filhos, at\u00e9 de vizinhos que deixaram de se falar por quest\u00f5es ligadas \u00e0 pol\u00edtica. E passamos a culpar a pol\u00edtica por situa\u00e7\u00f5es que t\u00eam outros motores.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil falar no reabastecimento do amor social, muito f\u00e1cil ali\u00e1s, mas de onde tirar seiva para alimentar a nova \u00e1rvore da vida social? Por ir\u00f4nico que pare\u00e7a, \u00e9 na pol\u00edtica que encontraremos sa\u00eddas. Certamente n\u00e3o mudaremos o sistema capitalista que, afinal, \u00e9 o cen\u00e1rio continuado de nossos comportamentos, mas podemos pensar em programas sociais em que personalismos sejam minorados. E tal mudan\u00e7a ideal vir\u00e1 por novas caras que, na renova\u00e7\u00e3o, deixem veicular programas que relativizem a concorr\u00eancia e a competitividade. Quando se condena o neoliberalismo ou o estado m\u00ednimo, o que se prop\u00f5e \u00e9 um estado mais atuante em programas sociais, oportunidades e renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Byung-Chul-Han.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21138\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Byung-Chul-Han-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Byung-Chul-Han-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Byung-Chul-Han-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Byung-Chul-Han-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Byung-Chul-Han-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Byung-Chul-Han-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Byung-Chul-Han.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Reabastecendo a utopia, o cansa\u00e7o que nos assume apenas ser\u00e1 sol brilhante no horizonte de uma nova juventude que com os mecanismos modernos saiba exercitar formas menos tensas de conv\u00edvio, mais justas, com menores dist\u00e2ncias sociais. Quem sabe a energia da gera\u00e7\u00e3o que desponta seja o relaxante necess\u00e1rio para aliviar o cansa\u00e7o nosso de cada dia? Quem sabe?!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos cansados, e esta \u00e9 uma verdade que se exibe a cada dia mais esticada. 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