{"id":20969,"date":"2024-05-26T08:16:04","date_gmt":"2024-05-26T11:16:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20969"},"modified":"2024-05-26T08:16:04","modified_gmt":"2024-05-26T11:16:04","slug":"acima-do-bem-e-do-mal-o-saci-de-monteiro-lobato-jc-sebe-bom-meihy-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/acima-do-bem-e-do-mal-o-saci-de-monteiro-lobato-jc-sebe-bom-meihy-2\/","title":{"rendered":"ACIMA DO BEM E DO MAL, O SACI DE MONTEIRO LOBATO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Lobato e o saci est\u00e3o acima da simplifica\u00e7\u00e3o rasteira do bem e do mal<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Muito tem se falado a respeito da figura do saci na obra de Monteiro Lobato. No aborrecido debate sobre o racismo, os extremos repontam garantido que o saci seria a primeira manifesta\u00e7\u00e3o do \u201cpreconceito de marca\u201d lobateano, mostrado como um marginal perif\u00e9rico; na outra ponta, alguns entusiastas com igual extremismo o revelam como propositor do \u201cprimeiro her\u00f3i negro da nossa literatura\u201d. Exageros e polariza\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, resta notar a g\u00eanese da cria\u00e7\u00e3o de um personagem capaz de motivar reflex\u00f5es sobre a mem\u00f3ria popular repontada na cultura moderna.<\/p>\n<p>Foi com empenho investigativo que entre os dias 27 de janeiro e 6 de mar\u00e7o de 1917, nas p\u00e1ginas do jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, Lobato fez estampar resultados de enquetes que, afinal, viraram seu primeiro livro \u201cSaci-perer\u00ea: resultado de um inqu\u00e9rito\u201d, publicado em 1918. Caracterizado o personagem, restava dar-lhe uma imagem. Foi neste sentido que o ent\u00e3o estreante escritor prop\u00f4s um concurso capaz de oficializar e sugerir uma forma tang\u00edvel ao saci. Sobretudo, ao diabrete faltava uma figura, ou pelo menos o prot\u00f3tipo de imagem que deveria conter elementos b\u00e1sicos derivados das descri\u00e7\u00f5es colhidas.<\/p>\n<p>Aspecto pouco notado na formula\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica, a jun\u00e7\u00e3o descritiva aliada a imagem demandava resultados pr\u00e1ticos e de efeitos est\u00e9ticos capt\u00e1veis, simples e eficientes. E sem uma figura b\u00e1sica, como marcar o saci na mem\u00f3ria cultural brasileira? Conv\u00e9m n\u00e3o deixar para planos secund\u00e1rios que essa aventura remetia a um tempo em que a imagem passava a integrar os relatos jornal\u00edsticos. Os impressos ent\u00e3o ganhavam fun\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m por juntar texto e representa\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas. Al\u00e9m disso, no momento da elabora\u00e7\u00e3o do \u201cInqu\u00e9rito\u201d, o nascente escritor fazia vezes de cr\u00edtico de arte, lance que exigia argumentos como satisfa\u00e7\u00e3o aos leitores, em particular frente a um dos desafios maiores do tempo: a presen\u00e7a das artes pl\u00e1sticas junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. Uma dessas situa\u00e7\u00f5es, por exemplo, diz respeito a um detalhe pouco explorado no conflito entre nossos modernistas e Monteiro Lobato. O virulento artigo \u201cParanoia ou mistifica\u00e7\u00e3o\u201d, escrito para comentar a Arte Moderna, transparecida na exposi\u00e7\u00e3o de Anita Malfatti aberta em S\u00e3o Paulo em dezembro de 1917, tem servido como certid\u00e3o do rompimento das partes. O que pouco se diz \u00e9 que antes daquela rumorosa publica\u00e7\u00e3o, houve contatos bastante eloquentes entre Lobato e alguns personagens do Modernismo, como Oswald de Andrade e a pr\u00f3pria Anita Malfatti. Um desses elos, ali\u00e1s, se deu exatamente em fun\u00e7\u00e3o do saci, ou melhor do sentido do debate nacionalista que buscava fecundar a cultura com bases folcl\u00f3ricas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Anita_Malfatti_foto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20970\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Anita_Malfatti_foto-301x450.jpg\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Anita_Malfatti_foto-301x450.jpg 301w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Anita_Malfatti_foto-201x300.jpg 201w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Anita_Malfatti_foto.jpg 485w\" sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Anita Malfati: sua cr\u00edtica desapareceu sem deixar vest\u00edgio<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No agitado contexto do \u201cInqu\u00e9rito sobre o saci\u201d, Lobato prop\u00f4s um concurso de pintura e escultura, cujo tema era a promo\u00e7\u00e3o da imagem do saci. Ainda que o certame fosse dirigido exclusivamente a artistas nacionais, o vencedor foi um imigrante radicado em S\u00e3o Paulo, o italiano Cipicchia, que apresentou uma figura\u00e7\u00e3o denominada \u201cO Saci e a Cavalhada\u201d. Anita Malfatti foi das poucas concorrentes a enviar um trabalho que, por dif\u00edceis explica\u00e7\u00f5es, desapareceu sem deixar vest\u00edgios f\u00edsicos. Dela apenas se sabe exatamente pelo parecer de Lobato, em artigo publicado na Revista do Brasil, onde revelava que, no setor de pintura, o trabalho da concorrente fora desclassificado mas, segundo Cassiano Elek Machado, mereceu extenso coment\u00e1rio, antecipando a insist\u00eancia na quest\u00e3o dos \u201cmodismos\u201d:<\/p>\n<p><em>\u201cA sra. Malfatti tamb\u00e9m deu sua contribui\u00e7\u00e3o emismo. Um viandante e o seu cavalo, em pacato jornadear por uma estrada vermelha degringolam-se numa crise de terror ao deparar-se-lhes pendente duma vara de bambu uma coisa do outro mundo. Degringola-se o cavaleiro, degringola-se o cavalo tentando arrancar-se do pesco\u00e7o, o qual estira-se longo como feito da melhor borracha do Par\u00e1. G\u00eanero degringolismo. Como todos os quadros do g\u00eanero ismo, cubismo, futurismo, impressionismo, marinetismo, est\u00e1 hors-concours\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Num esfor\u00e7o de concilia\u00e7\u00e3o, sem se desmentir, mas abrindo caminho para algum di\u00e1logo, finalmente, Lobato pontificava:<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o cabe \u00e0 cr\u00edtica falar dele porque o n\u00e3o entende: a cr\u00edtica neste pormenor corre parelha com o p\u00fablico que tamb\u00e9m n\u00e3o entende. \u00c9 de crer que os artistas autores entendam-nos tanto como a cr\u00edtica e o p\u00fablico. Em meio deste n\u00e3o entendimento geral \u00e9 de bom aviso tirar o chap\u00e9u e passar adiante\u201d&#8230;<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Saci-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20971\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Saci-2-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Saci-2-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Saci-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Saci-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Saci-2-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Saci-2.jpg 906w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ainda que o \u201cInqu\u00e9rito\u201d, somado aos escritos para crian\u00e7as, se porte como marco inaugurador da inven\u00e7\u00e3o do saci brasileiro, n\u00e3o h\u00e1 como escapar dos efeitos daquele certamente art\u00edstico que tanto remetia ao gosto de uma crescente classe m\u00e9dia como de uma sociedade urbanizada em busca de padr\u00f5es culturais pr\u00f3prios. Pela dimens\u00e3o pl\u00e1stica, a iniciativa de Lobato dava forma a caracteriza\u00e7\u00f5es que at\u00e9 ent\u00e3o eram, majoritariamente, escritas ou oralizadas. Isso n\u00e3o bastava mais. A revela\u00e7\u00e3o da materialidade pela pintura, escultura, cinema e fotografia, revela tamb\u00e9m a obstina\u00e7\u00e3o de Lobato para a atualiza\u00e7\u00e3o do estatuto cultural brasileiro moderno integrando v\u00e1rios c\u00f3digos. O apelo para o chamado folclore \u2013 ou como preferia Lobato \u201cmitologia bras\u00edlica\u201d \u2013 implicava escolhas de personagens assimil\u00e1veis pelo gosto geral e, nesse sentido, entende-se que a marca do estere\u00f3tipo nacional entraria como argumento debelador das tradi\u00e7\u00f5es importadas.<\/p>\n<p>Mais do que discutir racismo em Lobato, antes de tudo h\u00e1 de se buscar fundamentos de sua obra e trajet\u00f3ria de seus personagens, condi\u00e7\u00e3o capaz de tirar do limbo simplifica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o param de incomodar. Tanto h\u00e1 a se explorar no campo da investiga\u00e7\u00e3o sobre a obra do mais importante escritor latino-americano na \u00e1rea da literatura infantil que chega a ser exaustivo coloc\u00e1-lo entre o bem e o mal. Lobato est\u00e1 acima disso. E o saci tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lobato e o saci est\u00e3o acima da simplifica\u00e7\u00e3o rasteira do bem e do mal \u00a0Muito tem se falado a respeito da figura do saci na &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20972,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20969","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20969"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20973,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20969\/revisions\/20973"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20972"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}