{"id":20961,"date":"2024-05-19T07:48:07","date_gmt":"2024-05-19T10:48:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20961"},"modified":"2024-05-19T07:48:07","modified_gmt":"2024-05-19T10:48:07","slug":"branco-de-alma-preta-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/branco-de-alma-preta-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"BRANCO DE ALMA PRETA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Franz Fanon escreveu &#8220;Pele negra, m\u00e1scaras brancas&#8221; e &#8220;Os condenados da terra&#8221;, uma prova de seu compromisso com o enfrentamento da viol\u00eancia colonial<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Fiquei pensando: e se me dissessem que sou um \u201cbranco de alma negra\u201d? A quest\u00e3o surgiu depois de ler uma refer\u00eancia de Monteiro Lobato &#8211; \u201cnegro de alma branca\u201d &#8211; dirigida a um dos personagens mais tocantes da tradi\u00e7\u00e3o contista brasileira, o \u201cJardineiro Tim\u00f3teo\u201d. Para qualificar o negro de tradi\u00e7\u00e3o escravizada, Lobato o enquadrou em uma das mais perversas mem\u00f3rias do linguajar brasileiro descolando, contudo, a pecha negativa da compatibilidade entre a cor da pele e a suposta escurid\u00e3o da alma. No lugar, extrapolando os limites do racismo t\u00edpico do primeiro quartel do s\u00e9culo XX, o escritor evocava a branquitude como sin\u00f4nimo do que era puro, apropriado, ideal e, como exce\u00e7\u00e3o, a bondade daquele negro preenchia os quesitos necess\u00e1rios. O enredo do conto, ali\u00e1s, mostra a sensibilidade de Lobato afei\u00e7oando o cultivador das mais lindas flores a situa\u00e7\u00f5es da vida da fam\u00edlia do senhor fazendeiro, dono de tudo. Tim\u00f3teo, sem saber ler e escrever, marcava com canteiros os acontecimentos da vida senhorial.<\/p>\n<p>Fala-se hoje em \u201cracismo reverso\u201d, ou seja, na considera\u00e7\u00e3o do avesso das formas brancas plasmadas no jeito brasileiro de classificar os tipos nacionais. Identificar nos agredidos a invers\u00e3o das pr\u00e1ticas ofensivas \u00e9 um subterf\u00fagio bandido que, n\u00e3o obstante, tem sido usado em diferentes situa\u00e7\u00f5es. Dizer por exemplo que porque h\u00e1 \u201cDia das mulheres\u201d deve haver \u201cDia dos homens\u201d, ou porque h\u00e1 \u201cDia das Crian\u00e7as\u201d deve ser criado \u201cDia dos adultos\u201d, \u00e9 apelar para uma correspond\u00eancia conservadora, atrasada, atenta a deixar tudo como est\u00e1. E isso se agrava quando o debate racial se apresenta como ordem do dia. E como \u00e9 necess\u00e1rio abordar tais assuntos, em particular no momento em que o movimento negro recrudesce sua luta por justi\u00e7a social e desafia nosso apoio. Sim, a luta \u00e9 de todos e n\u00e3o vamos melhor sem a ades\u00e3o geral.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negro-de-alma-branca-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20962\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negro-de-alma-branca-2-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negro-de-alma-branca-2-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negro-de-alma-branca-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negro-de-alma-branca-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negro-de-alma-branca-2-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negro-de-alma-branca-2-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negro-de-alma-branca-2.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o, contudo, poucos os entraves que temos em nossa cultura despreparada para discutir essa quest\u00e3o. Ali\u00e1s, o persistente e secular sil\u00eancio sobre a contenda \u00e9 uma das mais sutis e complexas dimens\u00f5es do problema. Nunca falamos seriamente sobre o assunto e at\u00e9 insistimos em ser um pa\u00eds sem problemas raciais, como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos cerca de 56% da popula\u00e7\u00e3o sub-representada em quase todas as esferas da vida p\u00fablica. Desde que isto tenha se plasmado no metabolismo nacional, por s\u00e9culos acreditando que nossa hist\u00f3ria \u00e9 incruenta, sem derramamento de sangue, ostentando aos berros a farsa da \u201cdemocracia racial\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto em outras zonas o problema racial ganhou contornos mais n\u00edtidos &#8211; como nos Estados Unidos ou na \u00c1frica do Sul &#8211; no Brasil a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e o disfarce cultural nos poupou de enfrentamentos que, latentes, agora explodem de forma a desnortear o contexto que exige mudan\u00e7as. Lembrando que nos Estados Unidos desde 1877 as Leis Jim Crow marcaram juridicamente os lugares de cada um, determinou-se exatamente o comportamento das partes definindo a supremacia branca. Tudo claramente demarcado pelo crivo legal. O mesmo ocorreu na \u00c1frica do Sul com o Apartheid que, desde 1910, pelo direito \u00e0 terra segregava negros, despossu\u00eddos, postos contra propriet\u00e1rios brancos (brit\u00e2nicos e holandeses). No Brasil, ainda que leis pontuais existissem, jamais houve clareza na pr\u00e1tica. Tudo se resolvia \u201ctradicionalmente\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negros-de-alma-branca-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20963\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negros-de-alma-branca-01-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negros-de-alma-branca-01-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negros-de-alma-branca-01-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negros-de-alma-branca-01-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negros-de-alma-branca-01-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negros-de-alma-branca-01-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Negros-de-alma-branca-01.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A ativista Cida Bueno explica o efeito da longa dura\u00e7\u00e3o do nosso tipo de racismo dizendo que constitu\u00edmos \u201cum estado passivo, uma estrutura de facilidades que os brancos t\u00eam, queiram eles ou n\u00e3o\u201d.\u00a0 E mais adiante conclui \u00e9 \u201cuma heran\u00e7a presente na vida de todos os brancos, sejam eles pobres ou antirracistas\u201d. Resta-nos, portanto abalar os pilares dessa condi\u00e7\u00e3o explicada na \u201ccumplicidade silenciosa\u201d que nos ambienta resultando o chamado \u201cmedo branco\u201d.<\/p>\n<p>Aproveitei as reflex\u00f5es permitidas por defensores da quest\u00e3o negra atual para medir minha percep\u00e7\u00e3o sobre o racismo. Sem d\u00favida, acatar Lobato racista &#8211; ainda que dono de chaves que abriam portas como a educa\u00e7\u00e3o e o acesso aos livros \u2013 me levou pensar na oportunidade de enegrecer minha alma cidad\u00e3. Mais, espero o dia em que tenha a honra de ser apontado pelos negros como um entre os brancos que merecem ter alma da cor da pele daqueles construtores do Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Franz Fanon escreveu &#8220;Pele negra, m\u00e1scaras brancas&#8221; e &#8220;Os condenados da terra&#8221;, uma prova de seu compromisso com o enfrentamento da viol\u00eancia colonial Fiquei pensando: &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20965,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20961","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20961","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20961"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20961\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20966,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20961\/revisions\/20966"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20965"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}