{"id":20949,"date":"2024-05-12T09:17:43","date_gmt":"2024-05-12T12:17:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20949"},"modified":"2024-05-12T09:17:43","modified_gmt":"2024-05-12T12:17:43","slug":"machado-de-assis-e-monteiro-lobato-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/machado-de-assis-e-monteiro-lobato-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"MACHADO DE ASSIS E MONTEIRO LOBATO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Admirado por uns e detratado por outros; sempre reverenciado e\/ou maldito, Lobato \u00e9 dos autores mais comentados da fortuna cr\u00edtica nacional. E nem seria exagero dizer que n\u00e3o h\u00e1 meio termo: amor ou \u00f3dio. Seja por sua obra ou pelas atitudes p\u00fablicas que assumiu, dif\u00edcil achar uma antologia ou an\u00e1lise panor\u00e2mica da cultura brasileira que n\u00e3o o mencione. Os que o querem bem promovem uma chuva aben\u00e7oada, versando sobre a vasta produ\u00e7\u00e3o, provocante sempre, e retomada por gera\u00e7\u00f5es. Os que o detratam recorrem a aspectos ligados ao racismo e indefini\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, ao aludido machismo e defesa de uma elite indecisa entre a tradi\u00e7\u00e3o e a modernidade.<\/p>\n<p>A pesquisa \u201cRetratos de Leitura no Brasil\u201d, considerando o ano de 2020, revela que depois de Machado de Assis (1839 \u2013 1908), Monteiro Lobato (1882 \u2013 1948) \u00e9 o autor mais lido e comentado entre n\u00f3s. O perfilamento de ambos se mostra convite aberto a aproxima\u00e7\u00f5es, e assim, considerando que Lobato se projetou depois de Machado, pergunta-se do impacto deste sobre aquele. Autores como Jos\u00e9 Montello, Geovana Gentili Santos, Regina Helena Pires de Brito, entre outros, garantem retumbante \u201csim\u201d. Na conveni\u00eancia do questionamento, contudo, algumas quest\u00f5es perturbam a l\u00f3gica linear e convocam medidas sobre o grau e intensidade da proje\u00e7\u00e3o de Machado sobre lobato.<\/p>\n<p>Como demonstra Camila Spagnoli, s\u00e3o fecundas e precoces as cita\u00e7\u00f5es de Lobato sobre Machado, mas h\u00e1 sutilezas. Partamos do suposto que a alentada correspond\u00eancia de Lobato para Godofredo Rangel contida nos dois volumes da \u201cBarca de Gleyre\u201d \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o que, mesmo fragmentada, permite ver al\u00e9m de lances anal\u00edticos importantes da personalidade de Lobato. Tudo no af\u00e3 de humanizar o escritor sempre visto como homem p\u00fablico, valente defensor de causas nacionais. Por outras cartas, menos oficializadas, nota-se um cidad\u00e3o menos p\u00fablico, muito mais doce e af\u00e1vel, algu\u00e9m capaz de torcer a realidade para agradar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20950\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli-450x450.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli-450x450.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli-300x300.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli-150x150.jpeg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli-768x768.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli-80x80.jpeg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli-360x360.jpeg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli-750x750.jpeg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Camila-Spagmoli.jpeg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Para a pesquisadora Camila Spagnoli, h\u00e1 sutilezas nas cita\u00e7\u00f5es de Lobato<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico da percep\u00e7\u00e3o de Lobato sobre Machado, h\u00e1 algumas pe\u00e7as que revelam usos diversos do ju\u00edzo lobateano sobre o Bruxo de Cosme Velho. Conv\u00e9m prud\u00eancia no exame que, aos desprevenidos, pode parecer contraceno ou contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas cartas para Rangel, desde 1903, logo no in\u00edcio da correspond\u00eancia, Lobato exaltava Machado conclamando-o como maioral de nossa literatura. E s\u00e3o exaustivos os elogios como os contidos em missiva de 14\/08\/1909 onde se l\u00ea:<\/p>\n<p>\u201cMachado de Assis \u00e9 o mais perfeito modelo de concilia\u00e7\u00e3o estil\u00edstica; seu classicismo transparece de leve e nunca ofende os nossos narizes modernos. Como vivemos neste s\u00e9culo e neste continente, n\u00e3o podemos, sem uma h\u00e1bil e manhosa t\u00e1tica, usar express\u00f5es lusitanas e de tempos j\u00e1 muito remotos.\u201d<\/p>\n<p>Em termos definitivos, contudo, a grande manifesta\u00e7\u00e3o de Lobato sobre Machado se deu pela encomenda de artigo solicitado pelo jornal argentino \u201cLa Prensa\u201d, em 1939, ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio de Machado. Nesse texto, Lobato se derrama em elogios que padecem de filtros se comparado com uma outra carta, esta dirigida \u00e0 jovem Regina, filha do amigo querid\u00edssimo, Lino Moreira. Em linhas ternas, com contundente objetividade, Lobato critica a mo\u00e7a postulante a contista. A estrat\u00e9gia lobateana estabelecia uma compara\u00e7\u00e3o entre o jovem Machado e o maduro e consagrado escritor. A revela\u00e7\u00e3o \u00e9 espantosa, disfar\u00e7ando o apre\u00e7o desmedido pelo Bruxo. Vejamos os seguintes dizeres:<\/p>\n<p>\u201cTive encomenda da Argentina dum estudo s\u00f4bre Machado de Assis, cujo. centen\u00e1rio vai ser comemorado em abril.<\/p>\n<p>\u2014 Machado de Assis? Quem ser\u00e1?<\/p>\n<p>Fui a uma livraria.<\/p>\n<p>\u2014 Tem a\u00ed obras dum tal Machado de Assis?<\/p>\n<p>O caixeiro arregalou o \u00f4lho.<\/p>\n<p>\u2014 Claro que temos, respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 E presta, \u00easse autor? Vale a pena?\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Monteiro-Lobato.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20951\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Monteiro-Lobato-450x253.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Monteiro-Lobato-450x253.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Monteiro-Lobato-300x169.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Monteiro-Lobato-768x432.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Monteiro-Lobato-750x420.webp 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Monteiro-Lobato-1140x641.webp 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Monteiro-Lobato.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>De maneira did\u00e1tica, tentando animar a autora que teve o conto reprovado com solene \u201cn\u00e3o presta\u201d, Lobato se mostra suavemente cr\u00edtico.<\/p>\n<p>\u201cAfinal voltei para casa, resmungando, com meia d\u00fazia dos volumes do tal Machado de Assis, uns da sua primeira fase, uns da fase de apogeu, e outros do per\u00edodo final post-Carolina. E pus-me a ler, E espantei-me de como \u00easse escritor come\u00e7ou bestamente em seus primeiros romances; e como foi ascendendo, como foi se desmulatando, como ficou maravilhoso nos contos da maturidade, nas \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, em \u201cQuincas Borba\u201d e em \u201cD.\u00a0 Casmurro.\u201d<\/p>\n<p>Nem parece o mesmo Lobato, ali\u00e1s, pode-se dizer que n\u00e3o \u00e9 mesmo, pois um \u00e9 o senhor da cr\u00edtica liter\u00e1ria, o capit\u00e3o empreendedor que falava de ferro e petr\u00f3leo, o editor bandeirante, e, bem diferente, o outro esp\u00e9cie de padrinho de uma autora iniciante.<\/p>\n<p>S\u00e3o plurais as possibilidades de conclus\u00e3o: uma remete aos fundamentos das cartas afetivas como atestado de intimidades; outra, segunda alternativa sugere a diferen\u00e7a entre as missivas espont\u00e2neas e as, como a s\u00e9rie da \u201cBarca de Gleyre\u201d, reeditadas, \u201cpousadas\u201d, aprumadas para um p\u00fablico amplo. H\u00e1 outras vis\u00f5es, menores, por sugerir um Lobato c\u00ednico, mentiroso e contradit\u00f3rio. Caso opte-se pelo olhar humano, contudo, tem-se um Lobato mais dom\u00e9stico, amigo a ponto de criar uma outra realidade para se manter leal a seus valores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Admirado por uns e detratado por outros; sempre reverenciado e\/ou maldito, Lobato \u00e9 dos autores mais comentados da fortuna cr\u00edtica nacional. 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