{"id":20939,"date":"2024-05-05T08:57:05","date_gmt":"2024-05-05T11:57:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20939"},"modified":"2024-05-05T08:57:05","modified_gmt":"2024-05-05T11:57:05","slug":"o-cronista-a-guerra-e-a-lagrima-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-cronista-a-guerra-e-a-lagrima-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O CRONISTA, A GUERRA E A L\u00c1GRIMA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>H\u00e1 guerras mais divulgadas e outras ocultas por elipses n\u00e3o justificadas moralmente e que s\u00e3o silenciadas e assim deixam de machucar nossos olhares estetizados<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Cr\u00f4nica \u00e9 um g\u00eanero distinguido pela leveza, bom humor, picardia. Cantadora do cotidiano, produzir cr\u00f4nica equivale celebrar as coisas comuns como se fossem pe\u00e7as sagradas. Afora ramos espec\u00edficos que se deleitam em coment\u00e1rios esportivos, hist\u00f3ricos, pol\u00edticos, nossa cr\u00f4nica se abrasileirou como pr\u00e1tica popular a partir de floreios plantados por Machado de Assis, Jo\u00e3o do Rio, Rachel de Queiroz, Cec\u00edlia Meireles. Gera\u00e7\u00f5es seguintes projetaram Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Mill\u00f4r Fernandes, e mais recentemente Fernando Verissimo, Mario Prata, Martha Medeiros, entre muitos outros. Tendo principalmente os jornais e revistas como suportes, a cr\u00f4nica se imp\u00f4s no Brasil anulando inclusive a pecha de \u201cg\u00eanero menor\u201d.<\/p>\n<p>Um olhar anal\u00edtico sobre o vasto bosque de assuntos lan\u00e7ados com frequ\u00eancia, por\u00e9m, sugere um problema que se levanta maior: s\u00e3o apenas planuras as zonas tem\u00e1ticas mapeadas por tanta gente? Nossa cr\u00f4nica se explica apenas pela valoriza\u00e7\u00e3o de capturas do dia a dia, textos p\u00e2ndegas ou brincalh\u00f5es? O exame \u00e9 sutil, pois qualquer viagem pela produ\u00e7\u00e3o desses nossos gigantes mostra que c\u00e1 e l\u00e1 escritos graves comprometem a hipot\u00e9tica lisura tem\u00e1tica e, ent\u00e3o, a topografia se altera vertiginosa, exibindo brados indignados. Ardilosos, nossos cronistas mostram que a estrat\u00e9gia dessas parcas rupturas est\u00e1 exatamente na pontua\u00e7\u00e3o rara, precisa, cir\u00fargica. E foi assim com Rubem Braga, Ant\u00f4nio Callado, Joel Silveira e Carlos Heitor Cony.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Rubem-Braga.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20940\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Rubem-Braga.jpeg\" alt=\"\" width=\"194\" height=\"259\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Rubem Braga ajudou a abrasileirar nossa cr\u00f4nica popular<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Devoto que sou do g\u00eanero, me pergunto sobre a oportunidade de falar de guerras e massacres, de dramas e trag\u00e9dias que sangram a recep\u00e7\u00e3o de leitores que se acostumaram com mensagens encantadoras. E assim, de vez em quando, segundo li\u00e7\u00f5es de mestres, eu que julgo ter voca\u00e7\u00e3o, me vejo autorizado a trocar o passeio <em>voyeur<\/em>, por uma prosa menos coloquial, pela agudeza da cr\u00edtica. Aprendiz de cronista, precisei deste introito para chorar um pouco sobre as desgra\u00e7adas guerras de nosso tempo. Sobre elas e sobre como nos comportamos no tropical ber\u00e7o espl\u00eandido.<\/p>\n<p>Em que mundo vivemos?! Sup\u00fanhamos que finda a Guerra Fria ter\u00edamos um tempo de paz e constru\u00e7\u00e3o social. Nada. Qualquer olhar pouco mais atento mostra que convivemos com conflitos graves \u2013 uns mais notados que outros, ainda que todos igualmente catastr\u00f3ficos. H\u00e1 guerras mais divulgadas, ou \u201cfotog\u00eanicas\u201d, e outras ocultas por elipses n\u00e3o justificadas moralmente e que s\u00e3o silenciadas e assim deixam de machucar nossos olhares estetizados. Refiro-me, por exemplo, ao conflito Azerbaij\u00e3o com Arm\u00eania em Nagomo-Karabakh; \u00e0 guerra civil do I\u00eamen; da Eti\u00f3pia contra TPLF; de Burkina Faso (que envolve 10 pa\u00edses); da Som\u00e1lia; do Sud\u00e3o; de Mianmar. E as que se alongam em desgra\u00e7as herdadas como a infind\u00e1vel guerra da S\u00edria. Isso sem falar, \u00e9 claro, dos recentes enfrentamentos, escandalosos, entre a R\u00fassia com Ucr\u00e2nia e principalmente de Israel e o Hamas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Mario-Prata.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20941\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Mario-Prata-450x270.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Mario-Prata-450x270.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Mario-Prata-300x180.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Mario-Prata.webp 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Mario Prata come\u00e7ou com livros antes de abra\u00e7ar a rapidez e criatividade dos di\u00e1rios<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas o que pode fazer um modesto cronista frente a tanta lazeira? Lembro-me de um verso de Drummond que ajuda pensar na nulidade pessoal frente a formid\u00e1vel ind\u00fastria de guerras \u2013 sim, porque h\u00e1 quem lucre muito com tais desordens \u2013 e ent\u00e3o retomo a pequenez que se abateu sobre alguns intelectuais brasileiros frente a guerra civil espanhola (1936 \u2013 39) e, ent\u00e3o, para mim mesmo declamo como prescreveu o poeta \u201c<em>Ah, se eu tivesse navio! Ah, se eu soubesse voar! Mas tenho apenas meu canto, e que vale um canto? O poeta im\u00f3vel dentro do verso, cansado de v\u00e3 pergunta farto de contempla\u00e7\u00e3o, quisera fazer do poema n\u00e3o uma flor: uma bomba e com esta bomba romper o muro que envolve Espanha<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, esta cr\u00f4nica \u00e9 atestado de minha impot\u00eancia, prova viva da nulidade que represento no complexo jogo de poder exercitado por grupos poderos\u00edssimos em disputas por compet\u00eancia fundamentadas em raz\u00f5es esp\u00farias. Mas, mesmo assim alento meu esfor\u00e7o e o junto \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o de jovens estudantes universit\u00e1rios que se mostram valentes para pressionar institui\u00e7\u00f5es idealmente feitas para o zelo da conc\u00f3rdia, mas que n\u00e3o conseguem se impor. E ent\u00e3o penso que a cr\u00f4nica vale como uma v\u00edrgula ou breve parada, pausa fluida sim, mas capaz de evocar os deuses das guerras pedindo que leitores rezem junto comigo. \u00c9 frustrante admitir que t\u00e3o pouco podemos fazer. No mais, cabe apelar pela paci\u00eancia de eventuais leitores que h\u00e3o de me desculpar pela troca do riso ou do entretenimento. Cumpro a li\u00e7\u00e3o dos cronistas mestres e pontuo minhas falas rotineiras com uma l\u00e1grima. Afinal, que mais posso fazer sen\u00e3o chorar com palavras cr\u00f4nicas?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 guerras mais divulgadas e outras ocultas por elipses n\u00e3o justificadas moralmente e que s\u00e3o silenciadas e assim deixam de machucar nossos olhares estetizados Cr\u00f4nica &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20942,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20939","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20939"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20939\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20943,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20939\/revisions\/20943"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20942"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}