{"id":20904,"date":"2024-04-14T09:13:50","date_gmt":"2024-04-14T12:13:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20904"},"modified":"2024-04-14T09:13:50","modified_gmt":"2024-04-14T12:13:50","slug":"o-racismo-cordial-brasileiro-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-racismo-cordial-brasileiro-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O RACISMO CORDIAL BRASILEIRO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Mas existe isto? Racismo cordial, como assim? Por defini\u00e7\u00e3o qualquer ato racista \u00e9 excludente e express\u00e3o de viol\u00eancia f\u00edsica ou cultural. A primeira manifestada pela for\u00e7a bruta; a segunda por pr\u00e1ticas amiudadas no trato corriqueiro. E de sa\u00edda recomenda-se pensar que nossa raiz racista \u00e9 t\u00e3o velha como a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que efetivou a escraviza\u00e7\u00e3o negra que, iniciada em 1535, atravessou 353 anos, at\u00e9 1888, implicando cerca de 5 milh\u00f5es de cativos.<\/p>\n<p>Cadenciados pelo processo abolicionista que nos situa na rabeira, produzimos uma pr\u00e1tica perversa enquadradora de lugares sociais: \u201ccada macaco no seu galho\u201d, \u201ctrabalho de preto\u201d, \u201ccada qual no seu quadrado\u201d. E assim, inventamos um tratamento perversamente ameno, justificado num tropicalismo bobo, deitado no ber\u00e7o esplendido de suposta democracia racial. Seria ing\u00eanuo, contudo, dizer que n\u00e3o reconhec\u00edamos a quest\u00e3o. At\u00e9 como defesa, para garantir a apar\u00eancia contrastante, em vez de contemplar nossas mazelas, anotamos a exist\u00eancia do racismo como algo ex\u00f3tico, coisa de fora.<\/p>\n<p>A obsessiva compara\u00e7\u00e3o com manifesta\u00e7\u00f5es norte-americanas, por exemplo, tem servido de par\u00e2metro para nos entreter. Como se f\u00f4ssemos espectadores, nos expressamos com horror e at\u00e9 nos aplaudindo pelo avesso disso, exaltando-nos \u201cmoreninhos\u201d, colaborativos, com toques de permissiva malandragem. E fartamos de assinalar \u201ccontribui\u00e7\u00f5es\u201d: no samba, no futebol, nas comidas, na religiosidade e trejeitos. Assim nos esquecemos que l\u00e1 foram cerca de 10 % do nosso total e que aquele processo se iniciou d\u00e9cadas depois do nosso, em 1619.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Martin-Luther-King.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20905\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Martin-Luther-King-450x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Martin-Luther-King-450x300.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Martin-Luther-King-300x200.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Martin-Luther-King.jpeg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Martin Luther King, um \u00edcone da luta contra o racismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Demorou at\u00e9 que assum\u00edssemos que o <em>virus<\/em> do preconceito tamb\u00e9m nos acomete, ainda que por raz\u00f5es hist\u00f3ricas desiguais. As treze col\u00f4nias do norte foram povoadas por pioneiros que logo trataram de institucionalizar a distin\u00e7\u00e3o entre senhores e subalternos. Por aqui, a aparente informalidade nuan\u00e7ou diferen\u00e7as, mascarando agressividades sempre notadas como pontuais. L\u00e1, como motivo constante de conflitos entre o norte e o sul, o tema da aboli\u00e7\u00e3o comp\u00f4s raz\u00f5es da Guerra da Secess\u00e3o (1861 \u2013 1865). Definido o vencedor, um conjunto de normas \u2013 Leis Jim Crow \u2013 detalhou lugares sociais e assim, sob o rigor legal, os negros norte-americanos se emprenharam numa pauta de direitos a conquistar. No Brasil, na fluidez do cotidiano controlado por brancos e por uma cultura contornadora de diferen\u00e7as, sequer articulamos elementos capazes de reconhecer o alongado supremacismo branco.<\/p>\n<p>Recentemente, engrossando a voz, o movimento negro brasileiro se ergueu propagando feroz campanha contra Monteiro Lobato, propondo combate sistem\u00e1tico ao criador do S\u00edtio do Picapau amarelo. Como rastilho de p\u00f3lvora, o tema ganhou p\u00fablico que logo se dividiu em pr\u00f3 e contra. De maneira despreparada e at\u00e9 surpresos, os defensores de Lobato entabularam um discurso defensivo negando racismo na obra daquele que \u00e9 um dos cinco mais lidos autores nacionais. Nesse compasso, a car\u00eancia pr\u00e9via de argumentos sobre o jeito brasileiro de ser racista se apresenta como denunciador do despreparo para o debate sobre esse efervescente dilema.<\/p>\n<p>Sim Lobato foi racista, n\u00e3o h\u00e1 como ou porque negar, e o foi como era a maioria de uma gera\u00e7\u00e3o banhada pelos modos eug\u00eanicos em voga. A sa\u00fade do entendimento da quest\u00e3o, por\u00e9m, pressup\u00f5e contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A quest\u00e3o que ressalta, e ainda n\u00e3o foi sequer bem formulada, \u00e9: qual o tipo de racismo lobateano? Certamente n\u00e3o nos ajuda valores da cultura norte-americana, pois trata-se de manifesta\u00e7\u00e3o historicamente diferentes, ainda que l\u00e1 tamb\u00e9m livros da literatura infantil sejam apedrejados \u2013 como \u00e9 o caso de \u201cTom Sawyer\u201d de Mark Twain.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/negrinha.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20906\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/negrinha.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"405\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/negrinha.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/negrinha-222x300.webp 222w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No ambiente brasileiro, mais do que propor retocar a obra, substituir passagens, trocar palavras, cabe pensar que o evidente racismo de Lobato respondia a uma din\u00e2mica que apontava sa\u00eddas. O incomensur\u00e1vel esfor\u00e7o pela educa\u00e7\u00e3o \u00e9 mostra de que, pela educa\u00e7\u00e3o escolar, a quest\u00e3o racial poderia ser assumida de maneira pol\u00edtica com indica\u00e7\u00f5es de integra\u00e7\u00e3o. A literatura, nesse diapas\u00e3o, seria a chave capaz de indicar caminhos e da\u00ed a incessante campanha de Lobato pela difus\u00e3o da leitura. As muitas refer\u00eancia ao negro Machado de Assis \u2013 e Lobato foi dos primeiros a n\u00e3o lhe negar o tom da pele \u2013 mostram a estrat\u00e9gia lobateana para pensar um novo <em>ethos<\/em> brasileiro, civilizado pelo conhecimento.<\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que todo racismo \u00e9 crime, mas crime t\u00e3o grande \u2013 ou maior \u2013 \u00e9 n\u00e3o reconhecer alternativas, no caso de Lobato, instru\u00eddas por leituras cr\u00edticas, na complexidade hist\u00f3rica, e em di\u00e1logo com leitores que poderiam propor respeito e aboli\u00e7\u00e3o de novos preconceitos que, ali\u00e1s, se limitam em propor cancelamentos que, afinal, implicariam recalques e n\u00e3o resolveriam o drama.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas existe isto? Racismo cordial, como assim? Por defini\u00e7\u00e3o qualquer ato racista \u00e9 excludente e express\u00e3o de viol\u00eancia f\u00edsica ou cultural. 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