{"id":20890,"date":"2024-04-07T11:20:05","date_gmt":"2024-04-07T14:20:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20890"},"modified":"2024-04-07T11:20:05","modified_gmt":"2024-04-07T14:20:05","slug":"prostata-o-cancer-do-homem-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/prostata-o-cancer-do-homem-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PR\u00d3STATA O C\u00c2NCER DO HOMEM (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cirurgia de c\u00e2ncer da pr\u00f3stata<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pois \u00e9, aconteceu comigo. Conto: metodicamente cumpria a rotina de exames de sa\u00fade. De tal maneira levava a s\u00e9rio esse compromisso que, para n\u00e3o me esquecer, escolhia o m\u00eas de anivers\u00e1rio para as vias-sacras. A pandemia, por\u00e9m, fez com que interrompesse o h\u00e1bito e assim deixei passar 1921 e 22. Foi fatal. Retomando a pr\u00e1tica, em 23 marquei hora e confiante comecei a sequ\u00eancia de consult\u00f3rios pelo urologista. O exame de toque foi r\u00e1pido, como r\u00e1pido foi o apagamento do sorriso do m\u00e9dico. \u201cN\u00e3o tenho boas not\u00edcias\u201d, disse-me ele em tom grave. E n\u00e3o eram mesmo animadoras as informa\u00e7\u00f5es seguintes. A palavra \u201curgente\u201d fez ligar o sinal de alerta e comecei os tr\u00e2mites para empatar autoriza\u00e7\u00e3o do seguro, hospital e cirurgi\u00e3o. Em tr\u00eas semanas eu era apresentado a um rob\u00f4 que serviria de instrumento para a \u201copera\u00e7\u00e3o radical\u201d.<\/p>\n<p>E a cabe\u00e7a? Ah, a cabe\u00e7a!&#8230; Tudo atropelado, confus\u00e3o com agendamento, exames preparat\u00f3rios, mudan\u00e7as de compromissos j\u00e1 definidos. Tudo enfim motivava a pressa, e a pressa tratava de impedir maiores reflex\u00f5es. Independente dos embara\u00e7os burocr\u00e1ticos, por\u00e9m, havia a noite, o sil\u00eancio e nele a crescente cobran\u00e7a: \u201ccomo deixei isto acontecer\u201d. Determinei de sa\u00edda que n\u00e3o externaria preocupa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, e estava decidido a n\u00e3o afetar familiares e amigos com as explos\u00f5es que em mim se armavam. Se consegui? Fiz o que pude, e at\u00e9 onde deu. Mas foi pouco, acho.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Prostata.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20891\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Prostata-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Prostata-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Prostata-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Prostata.webp 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><b>Gl\u00e2ndula presente apenas nos homens, localizada na frente do reto, abaixo da bexiga<\/b><\/em><\/p>\n<p>Tendo passado por processo pr\u00f3ximo com minha esposa que morreu de c\u00e2ncer de mama, supus ter aprendido trabalhar com a opini\u00e3o de amigos. Sempre achei estranho o trato dado por pessoas de fora dos contextos pessoais. O medo da palavra c\u00e2ncer, as recomenda\u00e7\u00f5es de m\u00e9dicos e rem\u00e9dios revolucion\u00e1rios, as mandingas e truques m\u00e1gicos, eram pr\u00e1ticas que julgava dominadas. Mas isso foi pouco, logo chegou o momento de desatino, e ent\u00e3o repeti a ladainha dos acometidos: \u201cpor que eu? \u201c e \u201ccomo vai ser daqui para frente\u201d?<\/p>\n<p>E comecei a bronquear, a maldizer o mundo, a ficar bravo. Soltei as amarras que prendiam minha paci\u00eancia. N\u00e3o deve ter sido f\u00e1cil para amigos que se achegavam com mimos carinhos, exercitei, com alguns, a rispidez e lembro-me de certa visita que me trouxe um presente e zangado com meu interior fiz quest\u00e3o de n\u00e3o abri-lo de imediato. Outro muito querido contava casos de curas e na medida da declama\u00e7\u00e3o de supera\u00e7\u00f5es, eu bufava de raiva, rezando para que ele parasse com aqueles \u201ccontos da carochinha\u201d. Demorou at\u00e9 que domesticasse impulsos e achasse meu pr\u00f3prio caminho de aceita\u00e7\u00e3o. Duas atitudes me ajudaram: uma primeira, e mais intimista, foi ler muito do que escrevi vida afora: di\u00e1rios, cartas, trabalhos acad\u00eamicos, livros. Outra, esta mais consequente, a organiza\u00e7\u00e3o de um grupo de homens que passavam pela mesma experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o da cirurgia, em situa\u00e7\u00f5es comuns de orienta\u00e7\u00e3o para a continuidade do tratamento, acabei por conhecer mais 4 parceiros que atravessavam a mesma prova. O mais velho tinha 83 anos, eu com 80 e os demais, um 67, outro 56 e um ainda mais jovem, com 52 anos. Trocamos telefones, organizamos um grupo de WhatsApp e iniciamos uma conversa marcada a cada semana. A proposta era discutir os desdobramentos da cirurgia, rea\u00e7\u00e3o aos medicamentos e, sobretudo, a troca de experi\u00eancias das altera\u00e7\u00f5es de nossos corpos.<\/p>\n<p>Confesso que minha primeira atitude foi buscar o que existe escrito sobre o assunto e fiquei surpreso com a fartura de publica\u00e7\u00f5es sobre a doen\u00e7a (tipos de c\u00e2ncer, tratamento natural, como vencer o problema, fim da hiperplasia prost\u00e1tica), mas nada, nada, sobre aspectos pessoais, psicol\u00f3gicos. E foi imediata a organiza\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica do grupo: quest\u00f5es ligadas \u00e0 masculinidade. A pot\u00eancia sexual e os relacionamentos com pessoas do c\u00edrculo afetivo \u00edntimo afloraram de imediato e a car\u00eancia absoluta de grupos de apoio, se mostrou fatal. De igual maneira a falta absoluta de escritos ou abordagens sobre aquela\/nossa realidade. Tudo se instalou logo no primeiro contato, o mais jovem soltou a pergunta: \u201cvou ficar broxa?\u201d e era not\u00e1vel o desespero de quem queria saber mais do que os efeitos recomendados por tratamentos com a tadalafila.<\/p>\n<p>Faz hoje exatamente um ano que o grupo existe e durante este tempo aprendemos a nos segurar e abertamente discutir intimidades necess\u00e1rias e interditas na nossa cultura. Em uma das sess\u00f5es n\u00e3o faltou o desespero de um dos nossos que disse \u201cestamos muito atr\u00e1s das mulheres, olhem quantos trabalhos, livros, artigos existem sobre mulheres com c\u00e2ncer e n\u00f3s homens nada sabemos\u201d. Os seguidos debates ampliaram o escopo tem\u00e1tico e, mesmo buscando informa\u00e7\u00f5es fora do campo relativo \u00e0 pr\u00f3stata, tivemos dificuldade em situar a problem\u00e1tica da masculinidade t\u00f3xica. Por certo existem antrop\u00f3logos atentos ao tema em geral, mas ningu\u00e9m capaz de visitar os interiores da experi\u00eancia dos homens com problemas de pr\u00f3stata, o c\u00e2ncer do homem.<\/p>\n<p>Aconteceu de h\u00e1 tr\u00eas meses um dos nosso vir a \u00f3bito e, ainda que os demais aparentem bom estado de sa\u00fade, foi-nos um choque. Choramos juntos. E muito. E serviu de consolo o dizer que saudou o grupo como suporte para tanta fala de di\u00e1logo. Continuamos e, al\u00e9m dos tratamentos regulares, aprendemos superar a prostra\u00e7\u00e3o que ali\u00e1s \u00e9 palavra pr\u00f3xima a pr\u00f3stata.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cirurgia de c\u00e2ncer da pr\u00f3stata Pois \u00e9, aconteceu comigo. Conto: metodicamente cumpria a rotina de exames de sa\u00fade. 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