{"id":20863,"date":"2024-03-24T09:29:01","date_gmt":"2024-03-24T12:29:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20863"},"modified":"2024-03-24T09:34:48","modified_gmt":"2024-03-24T12:34:48","slug":"garcia-marques-e-a-mulher-traidora-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/garcia-marques-e-a-mulher-traidora-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"GARCIA MARQUES E A MULHER TRAIDORA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Me senti assanhado ao tomar conhecimento dessa publica\u00e7\u00e3o, livro p\u00f3stumo, revelador de uma hist\u00f3ria intensa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sou do tipo que externa ang\u00fastias. \u00c9 claro que tenho afli\u00e7\u00f5es, algumas de dif\u00edcil controle, mas&#8230; mas aprendi a me segurar. Pois bem, como de h\u00e1bito, abri o jornal e cumpri o ritual de leitura: editoriais, artigos de fundo, dedilhei caderno por caderno. Depois de conferir que ser brasileiro implica exercitar diuturnamente seu cadinho de paci\u00eancia, cheguei finalmente ao encarte de cultura. Sabe, essa estrat\u00e9gia de leitura \u00e9 muito boa: arte, cr\u00edtica instru\u00edda, teatro, m\u00fasica, indica\u00e7\u00f5es de programas propositivos revitalizam. E foi assim que cheguei \u00e0 not\u00edcia do \u201cnovo\u201d romance de Gabriel Garcia Marques, intitulado \u201cEm agosto nos vemos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAssanhado\u201d \u00e9 uma palavra esquisita, dif\u00edcil de aplicar na oficialidade de texto escrito para jornal, mas foi exatamente o que senti ao tomar conhecimento dessa publica\u00e7\u00e3o, livro p\u00f3stumo, revelador de uma hist\u00f3ria intensa, tramada em modestas 132 p\u00e1ginas. E minha empolga\u00e7\u00e3o galopou mais ao saber da tradu\u00e7\u00e3o foi feita por quem, creio eu, melhor entendeu as sutilezas do complexo Gabo. Eric Nepomuceno \u00e9 um desses casos rar\u00edssimos de tradutor que n\u00e3o se sobrep\u00f5e ao traduzido e incorpora o esp\u00edrito da escrita autoral, coisa fina. Ali\u00e1s, um merece o outro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Gabo-charge-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20871\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Gabo-charge-1-450x336.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Gabo-charge-1-450x336.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Gabo-charge-1-300x224.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Gabo-charge-1-768x573.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Gabo-charge-1.jpg 905w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Livro p\u00f3stumo, revelador de uma hist\u00f3ria intensa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A vida \u00e9 curiosa e for\u00e7a di\u00e1logos complicados com nossos eus invis\u00edveis. Meu primeiro impulso foi sair correndo, esperar a livraria abrir, comprar o livro f\u00edsico (desculpem-me os moderninhos, mas n\u00e3o consigo ler em telas), mas tinha um compromisso inadi\u00e1vel: dentista. Tive que me domar e nem dei bola para a dor, anestesia, inc\u00f4modos de tratamento de canal. Sa\u00ed voando para a livraria mais pr\u00f3xima, com a certeza de encontrar o texto. Deu certo, Papai Noel existe, conclui&#8230;<\/p>\n<p>A volta para a casa me fez lembrar os 17 anos do retorno de Ulisses depois de uma d\u00e9cada longe de casa, mas venci o tempo e a dist\u00e2ncia. Odisseia. Gosto de ler sentado em uma determinada poltrona que me abra\u00e7a com conforto e, com roupas velhas, descal\u00e7o, me deixei flanar. E n\u00e3o poderia ser de outro jeito. O enredo \u00e9 delirante: uma senhora distinta, casada, que a cada m\u00eas de agosto viajava para uma ilha caribenha a fim de depositar ramos de glad\u00edolos na tumba da m\u00e3e. Ano ap\u00f3s ano, a pr\u00e1tica ia se tornando met\u00f3dica, na cad\u00eancia daquela resignada senhora. Repetindo rotinas, servindo-se sempre do mesmo hotel, comendo o mesmo sanduiche, mantendo os mesmos hor\u00e1rios, o \u201cmesmismo\u201d, por fim, um dia, encontrou seu reverso. Aconteceu de uma noite aceitar o convite de um desconhecido que, embalando conversa sedutora misturada com gim, levou a distinta senhora para o quarto. Quarto, cama, sexo e algo se transformou no sentido da vida de Ana Magdalena. E mudou de maneira a compassar o calend\u00e1rio dos pr\u00f3ximos anos, marcando agosto como o m\u00eas desejado, permissivo e revelador de interioridades cat\u00e1rticas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustraaacao.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20865\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustraaacao-450x270.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustraaacao-450x270.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustraaacao-300x180.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustraaacao-768x461.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustraaacao.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Livro com tem\u00e1tica amorosa-sexual que Gabo queria destruir<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sou daqueles leitores cr\u00f4nicos de Garcia Marques e mesmo tendo \u201cCem anos de solid\u00e3o\u201d como um dos cinco livros favoritos, n\u00e3o descarto a aproxima\u00e7\u00e3o de outros complementos essenciais para o entendimento do conjunto da obra daquele Pr\u00eamio Nobel colombiano. E assim conecto a tem\u00e1tica amorosa-sexual deste a dois outros livros irm\u00e3os \u201cDo amor e outros dem\u00f4nios\u201d e o delicioso \u201cMem\u00f3rias de minha putas tristes\u201d; o primeiro de 1994 e o segundo de 2004. N\u00e3o diria que h\u00e1 continuidade nas tramas, posto que os dois primeiros conduzem a narrativa pelo olhar masculino e o \u00faltimo, pela mirada feminina. Mas \u00e9 nisso que reside o brilho desse escrito mal-acabado que, diga-se, foi rejeitado pelo pr\u00f3prio autor que o pretendia em cinzas, como outros considerados ruins, indignos da companhia dos que elegeu public\u00e1veis.<\/p>\n<p>Leitores puristas h\u00e3o de reconhecer \u201ccacos\u201d na reda\u00e7\u00e3o e at\u00e9 incoer\u00eancias, pois o texto n\u00e3o foi finalizado e, em termos biogr\u00e1ficos, situou-se na fronteira da dem\u00eancia do autor. Depois de 10 anos da morte de Gabo, os filhos optaram pela publica\u00e7\u00e3o que, no m\u00ednimo, explicaria a transversal proposta pelo pai que partiu do extraordin\u00e1rio para o ordin\u00e1rio. N\u00e3o mais tratava-se do mundo fant\u00e1stico e m\u00e1gico, do tempo presente perdido no passado tradicional. As travessuras de Ana Magdalena marcam a metamorfose para a modernidade vivida por uma mulher que para homenagear a m\u00e3e, permitiu-se. \u00a0E permiss\u00e3o passa a ser palavra m\u00e1gica, chave, alternativa qualificador da personagem e tamb\u00e9m para significar o ep\u00edlogo de um escritor excepcional que nas imperfei\u00e7\u00f5es de \u201cem agosto nos vemos\u201d humanizou a ilicitude amorosa e a pr\u00f3pria obra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Me senti assanhado ao tomar conhecimento dessa publica\u00e7\u00e3o, livro p\u00f3stumo, revelador de uma hist\u00f3ria intensa N\u00e3o sou do tipo que externa ang\u00fastias. \u00c9 claro que &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20866,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20863","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20863"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20863\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20872,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20863\/revisions\/20872"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20866"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}