{"id":20847,"date":"2024-03-10T08:53:57","date_gmt":"2024-03-10T11:53:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20847"},"modified":"2024-03-10T08:53:57","modified_gmt":"2024-03-10T11:53:57","slug":"500-anos-sem-camoes-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/500-anos-sem-camoes-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"500 ANOS SEM CAM\u00d5ES (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Lembro-me, garoto ainda, no grupo escolar, crian\u00e7ada em fila cantando antes das aulas. Era lindo e eu gostava muito. Em dias especiais havia declama\u00e7\u00e3o e discursos, e assim tomei conhecimento de poetas como Castro Alves, Gon\u00e7alves Dias e sobretudo Casimiro de Abreu. O diretor, imponente, dava esclarecimentos breves sobre os homenageados e algum aluno destacado dizia versos que ainda ecoam em mim. E era tudo preparado com esmero. Havia torcida para ser escolhido, para estar \u201cl\u00e1 na frente\u201d, ao lado dos professores.<\/p>\n<p>Compondo uma de minhas lembran\u00e7as favoritas, logo no come\u00e7o de um ano perdido na mem\u00f3ria, eu fui o indicado e ent\u00e3o ouvi pela primeira vez o nome do \u201cPr\u00edncipe dos poetas portugueses\u201d, um tal de Luiz Vaz de Cam\u00f5es. Com o poema impresso, como se \u201cOs Lus\u00edadas\u201d com seus 8816 versos coubesse em meia p\u00e1gina recortada, ensaiei mil vezes em casa e proclamava aos berros \u201cAs armas e os bar\u00f5es assinalados\/ Que da Ocidental praia Lusitana\/ Por mares nunca dantes navegados\/ Passaram ainda al\u00e9m da Taprobana\u201d&#8230; Treinei muito para n\u00e3o trope\u00e7ar na \u201cTa-pro-ba-na\u201d. Nossa&#8230;<\/p>\n<p>O tempo soube correr e j\u00e1 aluno do gin\u00e1sio, no col\u00e9gio interno, voltei \u00e0quela ode examinando os versos em decass\u00edlabos com as t\u00f4nicas na 6\u00ba e 10\u00aa, junto com detalhes das 1102 estrofes em oitavas com rimas cruzadas. E me maravilhava, ali\u00e1s maravilhava mais vendo a incoer\u00eancia entre a disciplina m\u00e9trica de um autor em contraste com uma vida t\u00e3o impr\u00f3pria, digna de alucinante personagem de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Oa-lusiadas.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20848\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Oa-lusiadas-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Oa-lusiadas-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Oa-lusiadas-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Oa-lusiadas.webp 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nascido em Lisboa aos 12 de mar\u00e7o de 1524, morto aos 56 anos, como soldado passou 17 anos nas col\u00f4nias portuguesas: \u00cdndia, Macau, Mo\u00e7ambique e em pontos da Ar\u00e1bia, tendo inclusive perdido um olho em combate no Marrocos. Depois de colecionar muitos, incont\u00e1veis, amores, alguns l\u00edcitos, mas a maioria conden\u00e1veis, tornou-se ardente fervoroso e, cat\u00f3lico, morreu santamente. Uma vida t\u00e3o atribulada, contudo, teve entre tantos epis\u00f3dios excepcionais um destaque formid\u00e1vel. Quando no caminho para Goa, j\u00e1 com o \u00e9pico poema conclu\u00eddo, mas ainda n\u00e3o publicado, o navio em que estava naufragou. A essa altura, viajava na companhia de sua amada \u00e0 \u00e9poca, Dinamene \u2013 nome inspirado na ninfa mitol\u00f3gica grega das \u00e1guas \u2013 e no desespero Cam\u00f5es viu-se ante um crucial dilema: quem ou o que salvar, o poema ou a amada? O corpo de Dinamene desapareceu nas profundezas do mar em plena tempestade, e em 1572 o poema foi publicado&#8230;<\/p>\n<p>No quinto centen\u00e1rio da morte do \u201cpatrono da literatura portuguesa\u201d, recupera-se a fabulosa s\u00e9rie de 211 sonetos, invent\u00e1rio afetivo, aula de perfei\u00e7\u00e3o l\u00edrica e m\u00e9trica. Quase sempre ofuscado pelo brilho de \u201cOs Lus\u00edadas\u201d, a farta mostra po\u00e9tica camoniana tem ficado \u00e0 sombra, ainda que alguns de seus versos insistam em se colocar \u00e0s luzes, e, dentre tantos dois me comovem, e juntos permitem supor a validade dos amores plenos, o primeiro apaixonadamente reza que<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u201cAmor \u00e9 fogo que arde sem se ver,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 ferida que d\u00f3i e n\u00e3o se sente,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 um contentamento descontente,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 dor que desatina sem doer.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 um n\u00e3o querer mais que bem querer,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 solit\u00e1rio andar por entre a gente,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 nunca contentar-se de contente,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 cuidar que se ganha em se perder.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 querer estar preso por vontade,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 servir a quem vence, o vencedor;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 ter com quem nos mata lealdade.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Mas como causar pode seu favor<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Nos cora\u00e7\u00f5es humanos amizade,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Se t\u00e3o contr\u00e1rio a si \u00e9 o mesmo Amor?\u201d<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/O-gato-alfarrabista.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20849\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/O-gato-alfarrabista-450x382.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/O-gato-alfarrabista-450x382.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/O-gato-alfarrabista-300x255.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/O-gato-alfarrabista.jpg 535w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Que dizer diante de tanta beleza?! Melhor ler, reler e ler mil vezes mais&#8230; Mas em mim outro soneto se conecta e lateja intermitente, este relativo \u00e0 saudade e a separa\u00e7\u00e3o sempre em luta contra o luto ou a perda:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u201cAlma minha gentil, que te partiste<\/em><br \/>\n<em>T\u00e3o cedo desta vida descontente,<\/em><br \/>\n<em>Repousa l\u00e1 no C\u00e9u eternamente,<\/em><br \/>\n<em>E viva eu c\u00e1 na terra sempre triste.<\/em><\/p>\n<p><em>Se l\u00e1 no assento et\u00e9reo, onde subiste,<\/em><br \/>\n<em>Mem\u00f3ria desta vida se consente,<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o te esque\u00e7as daquele amor ardente<\/em><br \/>\n<em>Que j\u00e1 nos olhos meus t\u00e3o puro viste.<\/em><\/p>\n<p><em>E se vires que pode merecer-te<\/em><br \/>\n<em>Alguma cousa a dor que me ficou<\/em><br \/>\n<em>Da m\u00e1goa, sem rem\u00e9dio, de perder-te,<\/em><\/p>\n<p><em>Roga a Deus, que teus anos encurtou,<\/em><br \/>\n<em>Que t\u00e3o cedo de c\u00e1 me leve a ver-te,<\/em><br \/>\n<em>Qu\u00e3o cedo de meus olhos te levou\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Outra vez: que dizer? Vale mais o rigor m\u00e9trico, a rima rica, ou a profundidade sentimental? E repete-se a mesma recomenda\u00e7\u00e3o: melhor ler, reler e ler mil vezes mais&#8230; E, a cada leitura, como se singr\u00e1ssemos por \u201cmares nunca d\u2019antes navegados\u201d, vale celebrar a eternidade que desmente os 500 anos sem Cam\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro-me, garoto ainda, no grupo escolar, crian\u00e7ada em fila cantando antes das aulas. Era lindo e eu gostava muito. Em dias especiais havia declama\u00e7\u00e3o e &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20850,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20847","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20847","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20847"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20847\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20851,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20847\/revisions\/20851"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20850"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20847"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20847"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20847"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}