{"id":20841,"date":"2024-03-03T08:57:40","date_gmt":"2024-03-03T11:57:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20841"},"modified":"2024-03-03T08:57:40","modified_gmt":"2024-03-03T11:57:40","slug":"eu-vou-tirar-voce-desse-lugar-odair-jose-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/eu-vou-tirar-voce-desse-lugar-odair-jose-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"EU VOU TIRAR VOC\u00ca DESSE LUGAR: ODAIR JOS\u00c9 (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>\u201cNada como um dia depois do outro\u201d. Cada um de n\u00f3s tem hist\u00f3rias para contar implicado a sucess\u00e3o do tempo; ah \u201ctempo rei\u201d diria Gil&#8230; Recobrei aquele dito ao reconsiderar a trajet\u00f3ria do compositor e int\u00e9rprete Odair Jos\u00e9, hoje com 75 anos de idade, agora adjetivado como \u201ccult\u201d. Com autoridade de quem soube esperar o tempo cumprir sua rota, o aparente introvertido, dono de mais de 80 milh\u00f5es de c\u00f3pias distribu\u00eddas em 58 \u00e1lbuns, um dia foi chamado de \u201cTerror das empregadas\u201d e \u201cBob Dylan da Central do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Preconceitos \u00e0 parte, o personagem, conta que muito jovem deixou Goi\u00e2nia porque \u201cqueria mostrar minha m\u00fasica\u201d, referindo-se \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o ex\u00f3tica ao f\u00e9rvido ambiente que via nascer a Jovem Guarda, consagrava \u201cRei Roberto Carlos\u201d e a Tropic\u00e1lia, entre outros modismos justificados no contexto da ditadura c\u00edvico-militar. Eram anos de fechamento cultural e a classe m\u00e9dia, alijada da pol\u00edtica, precisava achar sa\u00eddas em meio ao confuso cen\u00e1rio das manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que tran\u00e7avam catarse coletiva e resist\u00eancia. O cinema, a televis\u00e3o, o teatro, a poesia, os festivais de m\u00fasica e as artes pl\u00e1sticas, dimensionavam anseios dos jovens pressionados pela censura, ex\u00edlio, tortura, mortes e desaparecimentos<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Setimo-ceu.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20842\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Setimo-ceu-330x450.jpg\" alt=\"\" width=\"330\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Setimo-ceu-330x450.jpg 330w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Setimo-ceu-220x300.jpg 220w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Setimo-ceu.jpg 619w\" sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><\/a>.<\/p>\n<p>Sob a ilus\u00e3o do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, o conceito de \u201cpopular\u201d padecia rebaixamentos sucessivos, relegado a planos inferiores. O sertanejo, o bolero, o samba can\u00e7\u00e3o, entre outras manifesta\u00e7\u00f5es, eram aproximados da cafonice, prova mau gosto e sin\u00f4nimo de pov\u00e3o, em contraste com uma atualiza\u00e7\u00e3o excludente, filtrada por influ\u00eancias importadas. N\u00e3o que inexistissem varia\u00e7\u00f5es, mas elas mesmas eram enviesadas por escolhas coerentes com o avan\u00e7o modernizador estrangeirado. Avesso disso, por\u00e9m, em sil\u00eancio recolhido, o legitimamente popular se manifestava consagrando sucessos em segmentos subalternizados. E foi num desses subterr\u00e2neos que a figura de Odair Jos\u00e9 se fez o maior.<\/p>\n<p>E havia uma onda de artistas menorizados pelo af\u00e3 classista que causava risinhos debochados em tipos como Amado Batista, Reginaldo Rossi, Waldick Soriano, Joelma, Cauby, \u00c2ngela Maria, Hebe Camargo. Considerado o mais brega dos bregas Odair Jos\u00e9 repontava com grava\u00e7\u00f5es que se iniciaram em 1969 com \u201cminhas coisas\u201d que, curiosamente, meio por acaso, entrou num \u00e1lbum com as 14 mais do ano, puxada por Roberto Carlos e, diga-se, esse foi seu primeiro sucesso. Depois, em 1972 Odair Jos\u00e9 gravou um \u00e1lbum intitulado \u201cAssim sou eu\u201d onde entre outras can\u00e7\u00f5es controvertidas como \u201cEsta noite voc\u00ea vai ser minha\u201d; \u201cPense pelo menos em nossos filhos\u201d; \u201cCristo quem \u00e9 voc\u00ea?\u201d, figurava o perturbador \u201cEu vou tirar voc\u00ea deste lugar\u201d. Logicamente, o recorte da censura n\u00e3o tardou, fato que, contudo, n\u00e3o diminuiu o \u00edmpeto do autor que no ano seguinte ousou com \u201cUma vida s\u00f3\u201d, mais conhecida como \u201cPare de tomar a p\u00edlula\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair-jose-e-caetano-veloso.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20843\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair-jose-e-caetano-veloso.jpg\" alt=\"\" width=\"421\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair-jose-e-caetano-veloso.jpg 421w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair-jose-e-caetano-veloso-300x229.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 421px) 100vw, 421px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Censurados: Caetano convidou Odair Jos\u00e9 para participar de um show<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Havia dois crit\u00e9rios orientadores da a\u00e7\u00e3o opressora: o vi\u00e9s pol\u00edtico e a pauta de costumes. Compositores como Rita Lee, Chico Buarque, Caetano e Gil, foram alguns atingidos em cheio, mas na l\u00f3gica da constrangedora opress\u00e3o moral, Odair Jos\u00e9 foi o mais visado. Entre seus sucessos proscritos temos algumas preciosidades como \u201cSeios\u201d; \u201cVai, mas vai mesmo\u201d; \u201cProcurando algu\u00e9m\u201d; \u201cCadeira de rodas\u201d; &#8220;A Noite Mais Linda do Mundo&#8221; e, claro, as duas mais \u201cprestigiadas\u201d foram \u201cEu vou tirar voc\u00ea deste lugar\u201d e \u201cPare de tomar a p\u00edlula\u201d.<\/p>\n<p>A primeira, por referir-se ao ambiente da prostitui\u00e7\u00e3o tinha, como agora, justificativa na fam\u00edlia; a segunda colidia com a campanha do governo que, exatamente naquele momento, pretendia nacionalizar o uso do anticoncepcional. Sobre a recep\u00e7\u00e3o desses dois sucessos, muito poderia ser dito, mas h\u00e1 um detalhe que merece luz: o fato de Caetano Veloso ter convidado Odair Jos\u00e9 para se apresentar no Anhembi em S\u00e3o Paulo, num show que pretendia ser o mais importante at\u00e9 ent\u00e3o, contando com presen\u00e7as como Gal, Beth\u00e2nia, Elis, Chico Vin\u00edcius entre outros maiorais. E houve encena\u00e7\u00e3o e tudo, pois o anfitri\u00e3o deixou para o fim o dueto que faria com o convidado surpresa&#8230; Conta-se que ao anunciar o p\u00fablico n\u00e3o economizou vaias e que aquela foi a mais retumbante rejei\u00e7\u00e3o de toda a hist\u00f3ria da m\u00fasica popular brasileira. Mediante a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, Caetano insistente cantou com Odair \u201cEu vou tirar voc\u00ea desse lugar\u201d e, irritado, por fim cunhou uma frase c\u00e9lebre \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada mais z do que a classe A\u201d.<\/p>\n<p>Pois bem, os anos correram, muita \u00e1gua passou sob a ponte de nossa cultura e hoje temos Odair Jos\u00e9 destacado como figura de proa da cultura popular brasileira. Ainda que o gancho seja f\u00e1cil, vale garantir que Odair Jos\u00e9 foi tirado daquele lugar&#8230; ou ser\u00e1 que n\u00f3s \u00e9 que aprendemos o nosso?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNada como um dia depois do outro\u201d. Cada um de n\u00f3s tem hist\u00f3rias para contar implicado a sucess\u00e3o do tempo; ah \u201ctempo rei\u201d diria Gil&#8230; &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20844,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20841","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20841","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20841"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20841\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20845,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20841\/revisions\/20845"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20844"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}