{"id":20793,"date":"2024-02-11T08:40:12","date_gmt":"2024-02-11T11:40:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20793"},"modified":"2024-02-11T08:40:12","modified_gmt":"2024-02-11T11:40:12","slug":"a-revolucao-negra-pelo-carnaval-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-revolucao-negra-pelo-carnaval-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A REVOLU\u00c7\u00c3O NEGRA PELO CARNAVAL (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Parei para pensar na frase de Artur Azevedo \u201cas revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o me metem medo. O que me mete medo \u00e9 o carnaval\u201d. Vinda que quem foi intransigente abolicionista, escritor respeitado e membro da primeira turma da Academia Brasileira de Letras, n\u00e3o poderia deixar passar. E repeti muitas vezes, \u201co que me mete medo \u00e9 o carnaval\u201d. Da\u00ed, foi um pulo pensar a quest\u00e3o do negro na \u201cmaior festa da identidade nacional\u201d.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil precisar rela\u00e7\u00f5es entre o negro e o carnaval. Ali\u00e1s, qualquer v\u00ednculo com o carnaval \u00e9 sempre sujeito a contornos, mas como resistir pitacos em particular quando n\u00e3o mais se duvida da mobilidade na ordem dominante. E, no caso, vale refor\u00e7ar o papel hist\u00f3rico de alguns sambas de enredo que acabaram por amolecer a solidez das hist\u00f3rias oficiais. Diria que o primeiro ponto a ser abonado remete ao jeito carioca\/negro da festa. \u00c9 claro que n\u00e3o se pode esquecer que foi na d\u00e9cada de 1920 que tudo ganhou forma, no Rio de Janeiro, ex-sede do imp\u00e9rio. Do surgimento remoto \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual h\u00e1 uma ineg\u00e1vel linha evolutiva que explica mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Tendo a velha Pra\u00e7a Onze como cen\u00e1rio, um reduto de negros, na maioria filhos de ex-escravos que se reuniam em torno das \u201ccasas de reza\u201d, o \u201cpovo preto\u201d misturava toques dos atabaques do candombl\u00e9 com um ritmo permitido fora dos rituais. O Surdo, particularmente o tambor marcando o tempo r\u00edtmico dois por quatro, prova a depend\u00eancia original da tradi\u00e7\u00e3o afro que at\u00e9 hoje caracteriza as baterias fazendo-as, juntamente com as alas de baianas que rememoram Tia Ciata, a ess\u00eancia das escolas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-3-Dos-Orixas.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20795\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-3-Dos-Orixas-450x270.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-3-Dos-Orixas-450x270.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-3-Dos-Orixas-300x180.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-3-Dos-Orixas-768x461.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-3-Dos-Orixas.webp 790w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Carnaval dos Orix\u00e1s<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o carnaval j\u00e1 exista em sua ancestralidade europeia, expresso em cord\u00f5es, corsos, mascaradas, mas a leg\u00edtima express\u00e3o brasileira se definiu a partir da cria\u00e7\u00e3o da \u201cDeixa falar\u201d, escola de samba surgida em 1928 no morro do Est\u00e1cio. Perspicaz, a imprensa logo tratou de cooptar a manifesta\u00e7\u00e3o vinculando-a ao estado, organizando o primeiro desfile oficial em 1932. J\u00e1 com enredos, os temas eram voltados \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is nacionais como Tiradentes, Caxias, Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>Demorou at\u00e9 que os negros tivessem protagonismo al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o, e essa virada se deu em 1948 quando ocorreu a unifica\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica celebrando os 60 anos da Aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Por ordem de classifica\u00e7\u00e3o aquele concurso apresentou o seguinte resultado: Imp\u00e9rio Serrano \u201cHomenagem a Castro Alves\u201d; Unidos da Tijuca \u201cAssinatura da Lei Aurea\u201d; Portela \u201cExalta\u00e7\u00e3o \u00e0 redentora\u201d. Da\u00ed em diante, repontaram refer\u00eancias que aos poucos foram deixando o contexto hist\u00f3rico e se especializando em tramas espec\u00edficos, personagens e fatos relevantes para uma mitologiza\u00e7\u00e3o da epopeia negra.<\/p>\n<p>O primeiro c\u00e9lebre enredo da nova safra foi \u201cNavio Negreiro\u201d, cantado pelos salgueirenses em 1957. Depois, na mesma agremia\u00e7\u00e3o, o carnavalesco, Fernando Pamplona, se vocacionou aos assuntos afro e produziu a s\u00e9rie tem\u00e1tica que logo viralizou \u201cO<em> Negro Na Senzala\u201d<\/em> (1958), depois<em>\u00a0\u201cLeil\u00e3o de Escravos\u201d<\/em> (1961) e<em> \u201cValongo\u201d <\/em>(1976). Outros grupos repontaram:\u00a0\u201c<em>Magia Africana No Brasil e Seus Mist\u00e9rios\u201d<\/em> (1975);\u00a0\u201c<em>Sublime Pergaminho\u201d<\/em>, da Unidos de Lucas (1968);<em>\u00a0\u201cHer\u00f3is da Liberdade\u201d<\/em>, do Imp\u00e9rio Serrano (1969). O \u00e1pice dessa tend\u00eancia ocorreu em 1988, com o desfile da Vila Isabel em homenagem a\u00a0<em>\u201cKizomba, a Festa da Ra\u00e7a\u201d<\/em>. Colocando-se definitivamente como uma das tem\u00e1ticas mais frequentes do carnaval, naquele mesmo ano em que se retomava a Aboli\u00e7\u00e3o, a Mangueira levou \u201c100 anos de liberdade, realidade ou ilus\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-4-Jesus-Negro-1.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20796\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-4-Jesus-Negro-1-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-4-Jesus-Negro-1-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-4-Jesus-Negro-1-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Carnaval-4-Jesus-Negro-1.webp 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A ousadia de apresentar uma leitura de Jesus negro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E assim, o m\u00faltiplo se fez regra n\u00e3o havendo mais um carnaval sem alus\u00e3o importante aos negros, e n\u00e3o apenas no Rio. Coroando o processo, este ano temos na Marques de Sapuca\u00ed o seguinte plantel obedecendo a ordem dos desfiles: Porto da Pedra com \u201cLun\u00e1rio Perp\u00e9tuo: A Prof\u00e9tica do Saber Popular\u201d que fala da nossa cultura popular destacando o Caboclo; a Beija-flor com \u201cUm del\u00edrio de Carnaval na Macei\u00f3 de R\u00e1s Gonguila\u201d rende homenagem a Zumbi estendendo a sauda\u00e7\u00e3o \u00e0s entidades africanas e saberes ind\u00edgenas do estado alagoano; o Salgueiro com \u201cHutukara\u201d conta da luta ancestral dos Yanomami; a Grande Rio acentua a quest\u00e3o ind\u00edgena Tupinamb\u00e1 com o tema \u201cNosso destino \u00e9 ser on\u00e7a\u201d; a Unidos da tijuca traz um samba amb\u00edguo intitulado \u201cO Conto de Fado\u201d usando o negro Orfeu da Concei\u00e7\u00e3o como narrador de uma hist\u00f3ria que deixa perceber as divindades africanas; a Imperatriz leopoldinense vem \u201cCom a sorte virada pra lua, segundo o testamento da cigana Esmeralda\u201d samba-ora\u00e7\u00e3o em forma de m\u00fasica que \u00e9 caracter\u00edstica da Umbanda; a Padre Miguel explora refer\u00eancias \u00e0 cultura brasileira com destaque aos povos origin\u00e1rios; a Portela com \u201cUm Defeito de Cor\u201d baseia-se no livro de Ana Maria Gon\u00e7alves sobre a ancestralidade africana expressa no culto \u00e0 m\u00e3e Mahim; j\u00e1 a Vila Isabel canta \u201cGbal\u00e1: uma viagem ao Templo da Cria\u00e7\u00e3o\u201d, mito Yorub\u00e1 sobre a salva\u00e7\u00e3o do planeta com apelo a Oxal\u00e1; a Mangueira sa\u00fada Alcione \u201cA Negra Voz do Amanh\u00e3\u201d, contando a trajet\u00f3ria da cantora mangueirense a partir das tradi\u00e7\u00f5es do Maranh\u00e3o, em particular de Xang\u00f4 e Ians\u00e3. A Tuiuti traz um enredo hist\u00f3rico a \u201cGl\u00f3ria ao Almirante Negro!\u201d, mostrando Jo\u00e3o C\u00e2ndido Felisberto, filho de escravos, personagem que se destacou como l\u00edder na luta contra a opress\u00e3o na Marinha no come\u00e7o do s\u00e9culo passado; e a Viradouro leva o \u201cArroboboi, Dangb\u00e9\u201d para falar do culto \u00e0 serpente trazido da Costa da Mina.<\/p>\n<p>O que se aprende nessa esp\u00e9cie de epopeia? Muita coisa, mas sobretudo confirma-se o dizer revolucion\u00e1rio de Artur de Azevedo. O carnaval subverte a ordem e, no caso, ao iluminar o \u201cpovo negro\u201d, agora d\u00e1 passagem aos povos origin\u00e1rios. E viva a subvers\u00e3o permitida pelo carnaval espetaculoso e s\u00e1bio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parei para pensar na frase de Artur Azevedo \u201cas revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o me metem medo. O que me mete medo \u00e9 o carnaval\u201d. 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