{"id":20698,"date":"2023-12-17T08:53:20","date_gmt":"2023-12-17T11:53:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20698"},"modified":"2023-12-17T08:53:20","modified_gmt":"2023-12-17T11:53:20","slug":"carta-a-mamae-noel-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/carta-a-mamae-noel-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"CARTA A MAM\u00c3E NOEL (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Pois \u00e9, os tempos mudaram. E mudaram muito. Penso no Natal, nos rituais de passagens, em eras quando o consumismo ainda n\u00e3o tinha o apetite de hoje. E minha lembran\u00e7a voa para momentos em que o Bom Velhinho era mais discreto, menos pr\u00f3digo. E como cuid\u00e1vamos dos pedidos de presentes que, afinal, eram resultados de negocia\u00e7\u00f5es ou presta\u00e7\u00e3o de contas. Como eu, muitos garotos que viraram av\u00f3s escreveram para ele sua primeira cartinha com c\u00e2ndidas solicita\u00e7\u00f5es. E eram pe\u00e7as retra\u00e7adas \u00e0 m\u00e3o, em papeis especiais, sempre com alguns toques de realidade como envelopes e selos \u2013 os mais cr\u00e9dulos iam at\u00e9 os correios que dispunham caixas especiais. Simulacros milagrosos esses, multiplicadores de expectativas, tradutores de sonhos materializados em acertos do tipo \u201cPapai Noel, fui bom aluno, passei de ano, n\u00e3o desobedeci a meus pais, falei poucos palavr\u00f5es, por isto te pe\u00e7o&#8230;\u201d Ah, me emociono s\u00f3 por lembrar.<\/p>\n<p>Eu devia ter uns 10 anos e a professora no curso prim\u00e1rio, Dona Marieta, entusiasmava a crian\u00e7ada propondo uma \u201creda\u00e7\u00e3o caprichada\u201d. Como esmerei! Para os colegas era uma atividade; para mim um ritual sofisticado, inicia\u00e7\u00e3o alucinadora, tapete m\u00e1gico. Fiz rascunho, escolhi as palavras como coletor de p\u00e9rolas, desenhei figurinhas nos cantos e com minha caligrafia engalanada pedi um carrinho de corda. Ganhei. T\u00e3o lindo que at\u00e9 hoje trafega em meu imagin\u00e1rio sempre desobediente de realidades.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/soneto.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-20699\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/soneto.jpeg\" alt=\"\" width=\"376\" height=\"303\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Quem mudou?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Devo dizer que do nada me veio o \u201cSoneto de Natal\u201d \u2013 aquele que Machado de Assis escreveu em 1901 indagando \u201c<em>mudaria o Natal ou mudei eu?<\/em>\u201d. E me desafiei perguntar quais novidades meu menino-antigo consideraria. E n\u00e3o tive como fugir da revis\u00e3o das quest\u00f5es de g\u00eanero, da necessidade de respeitar novos tratamentos entre o masculino e o feminino. A apologia ao Papai Noel me fez pensar no apagamento das mulheres no comp\u00f3sito que mexe com tantas emo\u00e7\u00f5es universais. E me perturbei com uma pergunta obtusa: e a Mam\u00e3e Noel? Teria ela significado? Era apenas companheira? E mais cruel, teria ficado em casa, sozinha, na noite dadivosa? Mais: teria preparado uma ceia, para quem? Por favor, n\u00e3o vejam nisso ades\u00e3o pura e simples ao pol\u00eamico \u201cpoliticamente correto\u201d. Para mim \u00e9 quest\u00e3o de cidadania, de direitos, de requalifica\u00e7\u00e3o dos papeis sociais que mexem inclusive com o tratamento familiar, pois se existe um Papai Noel, uma Mam\u00e3e \u00e9 cab\u00edvel. Nem vou adiantar a quest\u00e3o de g\u00eanero que respeita dois papais ou duas mam\u00e3es. Foi exatamente a partir do simplismo da l\u00f3gica bin\u00e1ria que revi posi\u00e7\u00f5es e me atrevi a uma breve cartinha:<\/p>\n<p>\u201cQuerida Mam\u00e3e Noel,<\/p>\n<p>Ola! Espero que estas mal tra\u00e7adas linhas a encontre com sa\u00fade e disposta a enfrentar um mundo dividido e descontrolado. Como pode ver, eu me modernizei e como acho que toda mudan\u00e7a deve come\u00e7ar em casa, ousei invadir sua privacidade e come\u00e7o pela troca de lugares e me permito, \u00a0comprometendo o papel dominante do Papai Noel, promove-la titular da festa.\u00a0 Tomara que ele n\u00e3o fique zangado, n\u00e3o se sinta usurpado de poderes; tomara tamb\u00e9m que sua lideran\u00e7a n\u00e3o a prejudique e sobrecarregue pois, prudente, temo manobras masculinas que n\u00e3o se cansam de admitir transforma\u00e7\u00f5es que, afinal, facilitam mesmo nossas vidas. Sejamos, por\u00e9m, otimistas e para tanto apresento alguns fundamentos.<\/p>\n<p>Apoio meus motivos na satura\u00e7\u00e3o da estrutura patriarcal exaurida e cumpridora de fun\u00e7\u00e3o que fazia sentido no fustigado passado. Agora \u00e9 a vez das mulheres. Ali\u00e1s, com este suposto cancelo seu t\u00edtulo de \u201crainha do lar\u201d. Dona do peda\u00e7o, sugiro pegar as r\u00e9deas das renas com aux\u00edlio de novo GPS, posto que a Terra voltou a ser redonda e girar da esquerda para a direita. Ademais, em tempos de tantos programas sobre culin\u00e1ria, seria bom o Papai Noel assumir a cozinha e os afazeres dom\u00e9sticos: arrumar cama, passar roupa, acumular algumas tarefas \u201cmenores\u201d. E os filhos tamb\u00e9m&#8230; E a senhora merece ser festejada.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Noelle.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20700\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Noelle-450x450.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Noelle-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Noelle-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Noelle-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Noelle-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Noelle-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Noelle.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Quest\u00f5es contempor\u00e2neas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sabe, vejo virtudes na proposta de altera\u00e7\u00f5es de papeis familiares. Acredito piamente que, modificando a condu\u00e7\u00e3o todo conjunto ser\u00e1 positivamente afetado, todos ter\u00e3o que se mexer. E Mam\u00e3e Noel, \u00e9 verdade que o mundo inteiro deveria se preocupar com a orienta\u00e7\u00e3o para um futuro melhor, mais igualit\u00e1rio e por isso menos machista, mas \u00e9 a mulher que tem mais argumentos para o bom combate e, como n\u00e3o reconhecer, o Natal \u00e9 bom tempo para isso. Seu novo posto \u00e9, neste sentido, revolucion\u00e1rio. Aproveito para lembrar que pelo menos na lei a paridade de sal\u00e1rios j\u00e1 foi regulada, cabe agora fazer press\u00e3o para que a letra ganhe forma de direito.<\/p>\n<p>\u00c9 assim, Mam\u00e3e Noel, que em vez de pedir \u00e0 moda antiga rogo por condi\u00e7\u00f5es que a coloquem no lugar devido, mas n\u00e3o pense em inoc\u00eancia minha, n\u00e3o. Todos seremos presenteados se assumir o lugar no qual os homens, na melhor das hip\u00f3teses, fizeram um rascunho do que poderemos vir a ser.<\/p>\n<p>Deixo meu abra\u00e7o e meu beijo mais que carinhoso, cheio de esperan\u00e7as\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois \u00e9, os tempos mudaram. E mudaram muito. Penso no Natal, nos rituais de passagens, em eras quando o consumismo ainda n\u00e3o tinha o apetite &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20701,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20698"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20698\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20702,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20698\/revisions\/20702"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20701"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}