{"id":20668,"date":"2023-12-03T09:07:00","date_gmt":"2023-12-03T12:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20668"},"modified":"2023-12-03T09:07:00","modified_gmt":"2023-12-03T12:07:00","slug":"adao-e-eva-o-teorema-do-amor-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/adao-e-eva-o-teorema-do-amor-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"AD\u00c3O E EVA: O TEOREMA DO AMOR (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong> Santo Agostinho alertava para a validade de leituras aleg\u00f3ricas da B\u00edblia como o casal que deu origem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do mito mais antigo da civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3, \u201ca origem da ra\u00e7a humana\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Num repente, meu pensamento voou. Soltou-se. flanou perdido numa tarde deslumbrante, e o deixei vagar. E culpo a brisa morna que alentava conversas pessoais, dessas que abrigam bobagens, curiosidades tolas. Lembrei-me, contudo, de um conselho que recomendava aten\u00e7\u00e3o para os devaneios, repeti\u00e7\u00f5es, lembran\u00e7as antigas, m\u00fasicas que do nada nos v\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a. A inexist\u00eancia de gratuidade na mem\u00f3ria, contudo, recomenda cuidados com os tais \u201cpensamentos repentinos\u201d. De toda forma, o gatilho para tais abstra\u00e7\u00f5es derivou de uma constata\u00e7\u00e3o despregada de utilidades. Imaginem que viajei para um espa\u00e7o meio m\u00edtico, meio louco, meio b\u00edblico: a hist\u00f3ria de Ad\u00e3o e Eva&#8230;<\/p>\n<p>E num lampejo constatei que o primeiro casal n\u00e3o teve enredo, inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia, nem sequer se enamoraram. \u00a0Nasceram adultos prontos, e s\u00f3. Para um historiador, \u00e9 dif\u00edcil imaginar algu\u00e9m sem pret\u00e9rito explicativo de realidades. Imposs\u00edvel. Mais dif\u00edcil ainda supor que deles adviria toda a Hist\u00f3ria da humanidade \u2013 olhem que falamos de cerca de 200 gera\u00e7\u00f5es. Preciso antes dizer que tenho crit\u00e9rios para considerar a B\u00edblia, ali\u00e1s, toda vez que falo desse Texto Sagrado apelo para Santo Agostinho (sempre ele) que alertava para a validade de leituras aleg\u00f3ricas da B\u00edblia. \u00c9 exatamente com olhar cr\u00edtico-liter\u00e1rio que presto aten\u00e7\u00e3o no casal que deu origem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do mito mais antigo da civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u201ca origem da ra\u00e7a humana\u201d. Pensando que mitos s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es legend\u00e1rias que dispensam l\u00f3gica, percebo-os capazes de presen\u00e7as metaf\u00f3ricas \u00e0 moda dos gregos, romanos e demais. \u00c9 exatamente na resist\u00eancia dessas narrativas que repousa minha perturba\u00e7\u00e3o sobe o suposto Eden.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Caim-e-Abel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20669\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Caim-e-Abel-450x386.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"386\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Caim-e-Abel-450x386.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Caim-e-Abel-300x257.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Caim-e-Abel.jpg 636w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cain e Abel, rebentos geniosos e briguentos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Que Ad\u00e3o e Eva representam princ\u00edpios, \u00e9 fato firmado. O primeiro casal \u00e9 fio original de uma variedade de problemas que atravessam tempos, carregando dilemas do nosso presente. Vale, contudo, teorizar uma quest\u00e3o fundamental: se Deus Pai criou o homem \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, por que teria escolhido se representar pelo sexo masculino? Ali\u00e1s, regozijei dia desses quando ouvi uma feminista crist\u00e3, radical, dizendo que, com medo de errar, Deus fez um rascunho \u2013 o homem \u2013 e s\u00f3 depois prop\u00f4s sua obra prima \u2013 a mulher que, segundo a narradora, pediu ao Divino para n\u00e3o desprezar o esbo\u00e7o. De todo modo, frente a expuls\u00e3o do Para\u00edso persiste a pergunta: de quem \u00e9 a culpa da sedu\u00e7\u00e3o? E da\u00ed progredi para outros temas importantes, algo do tipo, se os dois transgrediram juntos, por que a tradi\u00e7\u00e3o culpa apenas ela? Mais quest\u00f5es brotaram: por que associamos a expuls\u00e3o \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o, trai\u00e7\u00e3o, desconfian\u00e7a? N\u00e3o poderia ser diferente?<\/p>\n<p>A palavra \u201crecome\u00e7o\u201d brilhou no c\u00e9u de meus questionamentos apontando para a boniteza da hist\u00f3ria do casal que, amaldi\u00e7oado, na condi\u00e7\u00e3o de mortais, teve que aprender viver juntos. Viver, diga-se: ganhar o pr\u00f3prio sustento, padecer dramas, ter hist\u00f3ria, enfim. Constituir fam\u00edlia, para eles deve ter sido tarefa complexa, principalmente se considerarmos os dramas de rebentos geniosos e briguentos como Cain e Abel. Na medida em que argumentos da vida comezinha avan\u00e7avam, notei uma revers\u00e3o nos meus conceitos estabelecidos. Sim falo de uma hist\u00f3ria de amor constru\u00edda na cumplicidade, tudo depois da bronca do Deus-Pai. A suposta desgra\u00e7a ou castigo os desafiou a uma vida solid\u00e1ria e juntos. Lembro-me de um livro lido anos atr\u00e1s que decretava a trajet\u00f3ria de Ad\u00e3o e Eva como a primeira hist\u00f3ria de amor da humanidade. Bruce Feiler, o autor, ressaltava a inequ\u00edvoca no\u00e7\u00e3o de partilha entre um casal que se redime de culpa duplamente assumida.]<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Adao-e-Eva-de-Botero.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20670\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Adao-e-Eva-de-Botero-347x450.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Adao-e-Eva-de-Botero-347x450.jpg 347w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Adao-e-Eva-de-Botero-231x300.jpg 231w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Adao-e-Eva-de-Botero.jpg 442w\" sizes=\"auto, (max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Casal gorducho e feliz de Fernando Botero<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O tema nascido da aparente espontaneidade foi ganhando estrada e mostrando potencial sutil e t\u00e3o impertinente que se infiltrou nas artes, na filosofia, na tradi\u00e7\u00e3o popular. \u00c9 l\u00f3gico que hoje em dia n\u00e3o h\u00e1 lugar para o fabul\u00e1rio simplista que nega a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, mas fico imaginando porque na cultura ocidental, por exemplo, a dupla reponta atrav\u00e9s dos s\u00e9culos. E olha que falamos de autores como Shakespeare, Keats, Mark Twin, Hemingway, Saramago, Machado de Assis e lembremos que nem Bob Dylan escapou. Na pintura, Rafael, Rembrandt e principalmente Michelangelo se projetaram de maneira a desafiar os tempos permitindo a retomada do tema at\u00e9 em nosso carnaval. E que dizer do ador\u00e1vel casal \u201cgorducho\u201d proposto por Botero?<\/p>\n<p>Fechei a conversa \u00edntima sobre Ad\u00e3o e Eva presentificando outros debates como machismo x feminismo; complac\u00eancia x julgamento; culpa X perd\u00e3o&#8230; E foi assim que muita coisa decorreu de uma nesga de mem\u00f3ria que consentiu concluir por uma li\u00e7\u00e3o sobre o amor sobrevivente da adversidade. E como \u00e9 dif\u00edcil falar de amor em tempos que Balman chama de \u201cl\u00edquidos\u201d&#8230; Ainda bem que Ad\u00e3o e Eva est\u00e3o vivos na mem\u00f3ria e fertilizam o fundamento do amor. Do amor transcendente e trabalhado nos dilemas da vida real.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santo Agostinho alertava para a validade de leituras aleg\u00f3ricas da B\u00edblia como o casal que deu origem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do mito mais antigo da civiliza\u00e7\u00e3o &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20671,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20668","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20668"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20668\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20672,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20668\/revisions\/20672"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}